Por Chico Sant’Anna

A onça suçuarana encontrada morta, dia 15/11, próximo ao Park Way era fêmea e tinha entre 5 a 6 anos de idade. Ela está sendo taxidermizada (técnica mais sofisticada do que o empalhamento ) por veterinários do Hospital Universitário da UnB e vai para o museu da Polícia Ambiental do Distrito Federal, que fica no Parque de Águas Claras. Logo, logo não será de se estranhar que animais desse tipo só possam ser vistos em museus e empalhados.

Em média, as suçuaranas vivem na natureza 18 anos. Em cativeiro, a longevidade já chegou a 23.8 anos. A estimativa da idade desse exemplar é da bióloga Cláudia Rocha-Campos, do Centro de Avaliação, Pesquisa e Conservação do Cerrado, CBC/ICMBio. A onça tinha de 103 cm de comprimento de corpo, mais 56 cm de cauda. Ela foi encontrada morta por ciclistas nas imediações do Parque Córrego da Onça e a Área Alfa da Marinha do Brasil.

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A bióloga/mastozoologa (especialista no estudo dos mamíferos), um dos primeiros ambientalistas a ter contato com o animal já morto, descarta a hipótese de que a onça tenha sido abatida a tiros, como inicialmente imaginado por policiais. “O animal levou uma pancada na cabeça, provavelmente de um veículo grande, que o jogou longe. As marcas de tiro, de projéteis não expansivos, deixam furos no crânio de animais abatidos, e não fazem tamanho estrago” – explicou.

Processo de taxidermia realizado por profissionais do Hospital Veterinário da UnB e Jardim Botânico de Brasília. Foto de Cláudia Rocha-Campos.

Mesmo sendo vítima de um atropelamento, o animal foi alvo de um impacto muito forte, talvez em decorrência do tamanho do veículo que o atropelou ou da velocidade, ou, ainda, em decorrência desses dois fatores juntos. O crânio foi o mais afetado.

“No momento em que toquei o crânio da onça, identifiquei que estava quebrado. E isso foi constatado quando abrimos a cabeça. A região traseira do crânio (parietal) estava toda quebrada, já desligada das vértebras cervicais e com o cérebro se desfazendo em meio à hemorragia. A mandíbula também estava fraturada. O animal levou uma pancada na cabeça, provavelmente de um veículo grande, que o jogou longe. As marcas de tiro, de projéteis não-expansivos, deixariam furos no crânio de animais abatidos, e não fazem tamanho estrago” – atesta Cláudia Rocha-Campos.

Nas imediações onde a onça foi localizada por ciclistas,l passa a rodovia DF-001, também conhecida como Estrada Parque Contorno. A via é estreita, apenas uma faixa de mão e outra de contra-mão e em péssimo estado de conservação. A noite não existe iluminação Pública, salvo na parte fronteiriça às instalações da Marinha. Ali é intenso o trafego de diversos caminhões que se dirigem a outros Estados e que não desejam atravessar o centro de Brasília. Principalmente na época de colheita de grãos. Apesar da precariedade da estrada, o trânsito se dá sempre em alta velocidade.

Passagens seguras.

Estimativas do ICMBio realizadas em 2013, apontam que só existem mais 4 mil exemplares de suçuaranas no Brasil. A cada geração, o plantel se reduz em 10%. Elas são vítimas principalmente do avanço do agronegócio, desmatando e queimando seu habitat natural, de caçadores clandestinos e de acidentes rodoviários e ferroviários. O trecho da DF-001, entre a a Área Alfa e a cidade de São Sebastião margeia diversas unidades de conservação distritais e federais, dentre elas os Parques do Córrego da Onça e além da Fazenda Água Limpa, da Universidade de Brasília; a Reserva do IBGE e o Jardim Botânico. São cerca de 30 quilômetros sem nenhum redutores de velocidade ou passagem segura para animais, sejam elas aéreas, para símios e roedores, sejam elas subterrâneas, para animais com maior porte, como raposas e felinos. Semanalmente, diversos são os animais silvestres (lobos-guaras, cachorros-do-mato, tatus, além de aves), que morrem atropelado nesse ttrecho da rodovia. Passagens como essa são tradicionais em outros países quando rodovias passam nas proximidades de reservas ambientais.