Brasília pode virar a Capital do Lixo Hospitalar. A empresa Stericycle, instalada na Ceilândia, solicitou autorização para importar resíduos hospitalares e industriais de Uberlândia e Uberaba, em Minas Gerais, e de Mogi-Mirim e Piratininga, em São Paulo. Segundo o Fórum das Ongs Ambientais, a empresa também pretende usar Brasília como destino de resíduos de saúde em futuros contratos. Decisão será tomada em fevereiro, depois do Carnaval.

 

Por Chico Sant’Anna

 

Ficou para o início do próximo ano a decisão de autorizar Brasília a ser o destino de lixo hospitalar produzido em outros estados. Deliberação neste sentido estava agendada para o último dia 20/12, pelo Conselho de Meio Ambiente do Distrito Federal – Conam-DF, mas devido aos questionamentos feitos por representantes da sociedade civil no conselho, foi adiada para fevereiro de 2018. Até lá, novas avaliações serão feotas. O GDF decidiu criar um grupo de trabalho para amadurecer a decisão.

A empresa Stericycle Gestão Ambiental Ltda, já instalada na Ceilândia com capacidade de processar 20,667 toneladas/dia de lixo hospitalar candango, solicitou autorização para importar resíduos hospitalares e industriais de Uberlândia e Uberaba, em Minas Gerais, e de Mogi-Mirim e Piratininga, São Paulo. Segundo o Fórum das Ongs Ambientais, a empresa também pretende usar Brasília como destino de resíduos de saúde em futuros contratos.

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Publicada originalmente na coluna BRASÍLIA, POR CHICO SANT’ANNA, no semanário Brasília Capital.

Vaca Louca

Grande parte do tipo de lixo que ela deseja importar é biologicamente sensível e perigoso e engloba descartes contaminados com micro-organismos. Inicialmente, seriam 3.540 toneladas. Dentre eles, carcaças de animais submetidos à experimentação com inoculação de micro-organismos e cadáveres de animais portadores de microrganismos de relevância epidemiológica, tecidos e membros humanos, resíduos de fabricação de produtos biológicos, descarte de vacinas de microrganismos vivos, meios de cultura e instrumentais utilizados para transferência, inoculação ou mistura de culturas; resíduos de laboratórios de manipulação genética; utensílios utilizados em cirurgias e laboratórios de análises, tais como seringas, agulhas e até materiais contaminados com príons. Prions são agentes infecciosos ainda menores do que as bactérias e os vírus que afeta o sistema nervoso de animais e seres humanos. Especialistas acreditam ser ele o responsável pela Doença da Vaca Louca. O assunto já foi levado ao Ministério Público pelo Fórum das Ongs Ambientais do DF.

 

Acompanhe aqui o nosso comentário no programa Direito de Antena, no Canal Cidade Livre, a TV Comunitária de Brasília

 

Falta de controle

Técnicos da Secretaria de Meio-Ambiente do DF estão apreensivos com a possibilidade da importação de lixo hospitalar e, pedindo para não ser identificados, afirmam que o GDF não tem capacidade operacional para controlar, monitorar e fiscalizar a importação, o tratamento dado a esses resíduos e sua destinação bem como a sua disposição final ambientalmente adequada. A empresa pretende fazer parte do descarte final do lixo processado no aterro sanitário de Planaltina de Goiás. Os técnicos citados afirmam que o aterro não passa de um lixão e, por estar dentro da Apa do Planalto Central e nas cercanias do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, precisaria da anuência do ICMBio para receber tais resíduos.

Segurança e acidentes

Em 2016, o sindicato dos Trabalhadores em Limpeza Urbana do DF promoveu uma greve para denunciar as precárias instalações, equipamentos e condições de trabalho. Segundo o portal da entidade, além de trabalharem com equipamentos sem condições de uso, no local de incineração era possível encontrar seringas, pontas de agulha e outros apetrechos hospitalares espalhados pelo chão. Rápida pesquisa na Internet permite identificar acidentes de trânsito envolvendo caminhões dessa empresa no transporte de rejeitos. Diretora da Faculdade de Saúde da UnB, Fátima Souza, alerta que um acidente no transporte ou no processamento desses resíduos poderia se transformar numa catástrofe ambiental e sanitária na Capital Federal. Poderia, inclusive, introduzir no território do DF micro-organismos hoje inexistentes, provocando danos tanto a saúde humana, quanto à animal. “Não sabemos se a estrutura do Corpo de Bombeiros, da Defesa Civil e da Vigilância Sanitária teriam condições de dar uma resposta pronta e eficaz a um problema dessa natureza”, conclui ela.