Aquele brasileiro cordial, gentil, revelado por Sérgio Buarque de Holanda, em 1936, na obra Raízes do Brasil, parece ter desaparecido nas redes sociais da pós-modernidade.

 

Por Chico Sant’Anna

 

Não, não é nenhum trocadilho, embora 2018 prometa ser um ano bem complexo no Brasil e em Brasília. Segundo o Horóscopo Chinês, 2018 fecha o ciclo do Galo e abre o ciclo ao ano do Cão. O ano do Cão começa em 16 de fevereiro de 2018 e vai até 05 de fevereiro de 2019, sob a influência direta do elemento Terra. Uma interpretação barata pode, contudo, induzir o leitor a achar que estamos muito mais próximo daquilo que a cultura popular brasileira define como sendo “do Cão”.

A leitura brasileira, potencialmente, está associada à mitologia grega, na qual um monstruoso cão de três cabeças, o Cérbero, “demônio do poço”, guardava a entrada do Hades, o reino subterrâneo dos mortos, deixando as almas entrarem, mas jamais saírem. Daí a associação ao capeta, ao demônio.

Pelo olhar oriental, sob a influência do signo do Cão da Terra, há a valorização da solidariedade, do diálogo e da igualdade. As pessoas seriam mais tolerantes e teriam mais empatia, tornando o ano repleto de equilíbrio. Talvez lá pelas bandas do Oriente. Por aqui, tudo indica, os ânimos estarão mais esquentados do que nunca. A situação política e econômica do Brasil e da Capital Federal nos leva a crer que a leitura endiabrada, atribuída pela cultura popular, se mostra muito mais apropriada. Na atual realidade nacional, poder-se-ia, mesmo, dizer que vai ser um ano do “Cão chupando manga”.

Crise hídrica, desemprego, salários baixos, gás e gasolina com preços pela hora da morte, eleições, diferenças religiosas, lutas sociais …, tudo contribuindo para acirrar os ânimos. Aquele brasileiro cordial, gentil, revelado por Sérgio Buarque de Holanda, em 1936, na obra Raízes do Brasil, parece ter desaparecido nas redes sociais da pós-modernidade. Mas como visionário, ele mesmo deu a pista da transformação, ao definir que a ética do brasileiro tem um fundo emotivo e que, com a simples cordialidade, não se criam bons princípios.

Os nervos estão à flor da pele, e certamente em decorrência de um fundo emotivo, como citado por Holanda. Existe uma insatisfação político-social latente e que se revela em mensagens fortes, sejam nas redes sociais virtuais ou nas tradicionais – as famosas rodas de conversas. Nem mesmo no período de festas, quando a harmonia deveria reinar entre todos, houve trégua. Não faltaram mensagens politicamente incorretas: intolerância política, religiosa, de gênero, racista, xenófoba, de discriminação regional e social.  E para reforçar tudo isso, surgem agora as informações de que programas cibernéticos, robôs e até equipe de profissionais são utilizados para fomentar as fake news, os boatos que irritam tanta gente.

Publicada originalmente na coluna BRASÍLIA, POR CHICO SANT’ANNA, no semanário Brasília Capital.

Barriga vazia

Essa conjuntura nacional ou local não deve mudar. Desemprego, proliferação de casos de corrupção, carestia – embora as cifras oficiais insistam em dizer que a inflação está caindo -, tudo tende a contribuir para que 2018 seja um ano do cão à brasileira.

Os economistas mais otimistas falam na geração de 500 mil empregos. Significa dizer que continuaremos com 11, 5 milhões desempregados. Contabilizados seus familiares, serão cerca de 50 milhões de pessoas de barriga vazia. Aqui em Brasília, onde o desemprego beira 300 mil pessoas, um desempenho igual ao do Brasil geraria apenas 12.500 novas vagas. Ou seja, pouca coisa mudará.

Para irritar os ânimos, Brasília tem ainda o agravante da crise hídrica. O metrô não terá sido ampliado, como prometido há quatro anos, a Saúde e a Educação continuarão precárias. Apesar da ajuda de São Pedro nesse início de 2018, o ano será ainda de racionamento d’água, afetando, principalmente, as camadas mais pobres, que não possuem reservatórios capazes de atravessar todas as semanas, três dias de turbulência no abastecimento. Mas se a falta d’água incomoda também muita gente, inclusive os pequenos empresários, que perdem dinheiro e geram menos empregos, sobra celular com zap acionado e irritadiço.

Eleições

O título da cidade campeã do custo de vida também não ajudará a apaziguar os ânimos. Quem sabe a Copa do Mundo, mas logo depois começará o período eleitoral e os zap estarão zunindo de tudo que é lado. A política local e nacional tendem a apimentar o ambiente. Nesse primeiro semestre devem sair resultados de vários processos judiciais. Os principais atores políticos que buscam a cadeira do Buriti ou no Planalto estão pendurados na Justiça. Punidos ou absolvidos, não importa, o circo vai pegar fogo. Dirão uns que é marmelada, outros que é golpe.
Na Câmara Legislativa, também é grande a nominata de distritais enrolados judicialmente. E é lá que estão projetos de leis complexas, como a Lei do Silêncio, a Lei de Uso e Ocupação dos Solos, o Zoneamento Ecológico e Econômico. As autoridades falharam em construir um consenso e a comunidade de Brasília está pronta a impedir que os políticos alterem as regras em favor da especulação imobiliária, sempre muito poderosa.

Como se vê, 2018 será mesmo o Ano do Cão.

Mas do Cão brasileiro com viés cibernético, tuitando e zapiando.

Haja espirito tolerância e, é claro, haja memória no celular.

Um debate em vídeo sobre o mesmo tema pode ser assistida abaixo no programa Contra-Corrente, com os jornalistas Chico Sant’Anna e Hélio Doyle, veiculado em janeiro de 2018, na TV Comunitária de Brasília, o Canal Cidade Livre.

 

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