Em Ottawa, capital do Canadá, nas proximidades do Canadian Museum of History (antigo Museu da Civilização), Maman chama a atenção dos turistas. Trata-se de uma escultura de bronze em forma de aranha gigante da artista Louise Bourgeois. Foto de Chico Sant’Anna.

Tudo me leva a crer que, para eles, cultura não é apenas romantismo, diletantismo ou coisas afins. Cultura é inspiração e determinação; é trabalho e tem um importante papel na economia.

 

Por Roberto Bocaccio Piscitelli*

 

As viagens são sempre uma boa oportunidade de compararmos o mundo do nosso dia-a-dia com o dos outros lá fora. Sempre me chama muito  atenção a efervescência cultural dos países europeus ou mesmo da América do Norte, por exemplo, em relação ao Brasil.

No caso da Europa, destaco, em primeiro lugar,  fato de eles terem poucas megalópoles, como é o caso da América Latina, e algumas de suas cidades mais vibrantes não terem mais que um milhão e pouco de habitantes. Com exceções como Paris, Londres, Roma, temos populações de um modo geral menores que as das nossas principais capitais. Seguramente, entretanto, são populações com maior renda e menores desigualdades, e melhores padrões educacionais, o que gera um potencial de consumo de produtos culturais muito maior (e que também se distribui melhor no âmbito de seus territórios).

Mas há também – e isso é essencial em nossa reflexão – uma ideia que permeia essas sociedades segundo a qual a cultura propriamente dita é parte da própria educação e está profundamente imbricada com a História das civilizações. Daí, a ponte para o turismo é um passo, e com ele um imenso potencial econômico a partir do intercâmbio permanente que se estabelece, interna e externamente.

Ottawa, capital do Canadá, uma cidade tradicionalmente administrativa, como Brasília, começa a conquistar turistas de mundo, atraídos pelos inúmeros museus e galerias e da própria arte espalhada pela cidade, com destaque para Manman, uma escultura de uma aranha gigante, em bronze, do artista Louise Bourgeois.

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Evidentemente, o sucesso de uma política integrada para o setor pressupõe, entre outros aspectos: um adequado e multivariado sistema de transportes coletivos (cada vez há mais restrições ao transporte individual nas médias e grandes cidades, exceto para bicicletas, e o seu custo é elevadíssimo); rede hoteleira e de restaurantes e outros locais de alimentação para diferentes níveis de renda; serviços de apoio e orientação ao visitante; preços acessíveis, níveis mínimos de segurança e padrões satisfatórios de saneamento; preparo adequado do pessoal em geral que interage com o turista – taxistas, guias de turismo, especialistas em locais de visitação etc., inclusive com conhecimentos básicos em línguas estrangeiras; sistemas amigáveis de informação e comunicação com os interessados, bem como para reserva e aquisição de ingressos. A lista seria muito mais extensa. Mas tudo isso estaria comprometido se não estivesse profundamente imbricado com a educação, com a percepção da importância que a atividade tem para a própria sociedade anfitriã.

Ao contrário de outros países, a cultura, para nós, no Brasil, é tratada como uma espécie de adereço, a que se destina o que “sobra”, quando for o caso, ou, então, coisa de iniciados ou de privilegiados. E turismo, algo que só parece ter sentido nas “férias” ou nos fins de semana, e não como uma atividade contínua, para as quatro estações do ano. E, por ser esporádica e muito localizada, entre nós, acaba sendo objeto de muita exploração, bastando improvisar pessoal despreparado para exercer trabalho intermitente.

Nesses países que poderiam nos servir de inspiração, locais de visitação estão abertos e funcionando o ano todo, os horários e condições de visita são previamente fixados e válidos para longos períodos. Há todo um aparato para facilitar o acompanhamento e a compreensão dos visitantes, inclusive em várias línguas. O planejamento permite que nos demos o luxo, em uma cidade como Paris, de dispor semanalmente (entre outros) da publicação  L’Officiel des Spectacles, o da semana de 10 a 16 de janeiro com 156 páginas, envolvendo locais turísticos, monumentos, cinemas, concertos, conferências, exposições museus, teatros etc., onde se indicam endereço, metrô, telefones, preços e outras informações mais.

Por lá, não se considera desperdício o subsídio governamental, nem parece lamentar-se o fato de várias categorias de pessoas – em particular os jovens (mais do que os velhos) – disporem de ingressos com valores diferenciados. Em outras palavras, tudo me leva a crer que, para eles, cultura não é apenas romantismo, diletantismo ou coisas afins. Cultura é inspiração e determinação; é trabalho e tem um importante papel na economia. Improviso, para eles, é só o que o musicista cria na execução de uma partitura solo. Temos muitos e grandes talentos. Mas carecemos de políticas que “enxerguem” além da inflação semanal, do déficit mensal e do PIB trimestral, em que mergulhamos e nos afogamos nas últimas décadas.

 

  • Professor de Economia da Universidade de Brasília, ex presidente do Conselho Regional de Economia do Distrito Federal – Corecon-DF