O viaduto do Eixão que acaba de ruir é um ícone deste abandono generalizado e desta falta de responsabilidade no administrar desta cidade-estado.

 

Por Chico Sant’Anna

 

Brasília é uma cidade pensada, planejada e executada com zelo. Tudo nela tem seu lugar certo, sua razão de ser. É quase como se tivesse um manual de uso. Mas parece que nem todos tem a paciência de ler esse manual, ou se o leram, o ignoraram. Prestes a completar 58 anos, a cidade – que sob o olhar do governador Rodrigo Rollemberg é envelhecida – ainda é uma adolescente, se comparada às cidades centenárias do Brasil, ou um bebê engatinhando, quando colocada ao lado das urbes milenares mundo a fora. Mesmo assim, começa a ruir. E não são só os viadutos de concretos que desabam. Abandonada há décadas por maus governos, as rachaduras sociais estão por toda parte.

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Ícone do abandono

O viaduto do Eixão que acaba de ruir é um ícone deste abandono generalizado e desta falta de responsabilidade no administrar desta cidade-estado. Não faltaram alertas para o estado de deterioração das chamadas obras de artes da capital. Em 2006, foi a UnB, contratada pelo GDF. Na ocasião, o engenheiro João Carlos Teatine alertou em seu relatório sobre a necessidade de se programar a recuperação e manutenção não só das pontes e viadutos, mas também dos monumentos da cidade. O Instituto dos Arquitetos do Brasil-DF também acendeu sua luz amarela. Em 2011, o sindicato de Engenharia e Arquitetura indicou a necessidade de reparos emergenciais no viaduto que ruiu e em mais nove viadutos e pontes no DF. Em 2012, foi a vez do Tribunal de Contas do DF, e, em 2013, um estudo privado contratado pela própria Novacap fez o mesmo alerta e atestou que a corrosão devido as infiltrações havia mutilado os cabos de sustentação do viaduto que ora desabou e que outros estavam em mesmo estado de desgaste. Reação a todos esses alertas? A resposta está nos escombros sobre a Galeria dos Estados.

Pior do que ignorar os alertas foi a postura de evitar que lei obrigasse as vistorias sistemáticas. Em abril de 2017, a Câmara Legislativa do DF – sempre acusada de ser improdutiva e ineficiente – aprovou a lei 5.825 que tinha este propósito. Viadutos e pontes seriam submetidos à periódicas pericias técnicas. Sua Excelência, governador Rodrigo Rollemberg, preferiu vetar a lei. Resultado, o Distrito Federal é uma das raras Unidades da Federação onde a perícia e avaliação periódica de suas estruturas viárias não é uma obrigação do Estado.

De 2006 aos dias de hoje, Brasília teve quatro governadores: José Roberto Arruda, Rogério Rosso, Agnelo Queiroz e Rodrigo Rollemberg. Embora Agnelo tenha recuperado alguns viadutos com recursos da Copa, os três primeiros governadores tinham mais preocupação com o Mané Garrincha do que com o estado da cidade. Concluir ou reparar obras de antecessores parece não ser a predileção de nossos governantes. Por isso mesmo, a cidade tem hoje três corredores incompletos de BRT: na EPIA Sul, na EPTG e agora a construção na Saída Norte. Recursos dispersados, desperdiçados e a capital federal transformou-se na décima cidade sul-americana mais engarrafada.

Publicada originalmente na coluna BRASÍLIA, POR CHICO SANT’ANNA, no semanário Brasília Capital.

Pontes da Cidadania

O que está acontecendo em Brasília é um desastre. Mas não são só com os viadutos. Os da cidadania também estão todos ruindo e desabando. Na Saúde, um relatório do próprio GDF revela que a cada dois dias, três pessoas morrem na fila de espera de uma vaga na UTI. Foram 1.261 brasilienses mortos nos últimos trinta meses por ineficiência em gerir a Saúde Pública. Faltam medicamentos, equipamentos, falta gestão. Semelhante situação na Cultura. Nossos espaços culturais, como o Teatro Nacional e o Museu de Arte de Brasília, entra governo sai governo, ficam só na promessa que serão recuperados e entregues à população. Será que podem desabar?

A Segurança Pública pouco difere. Quatro secretários já passaram por lá, em menos de quatro anos de governo. Parece não haver comando, nem mesmo respeito para com o chefe da tropa, que é o governador. Delegacias abrem quando querem. À noite e em fins de semana, muitas delas estão fechadas. Embora alguns indicadores da criminalidade tenham melhorado, estamos longe de ser um local seguro. Mais de uma pessoa é morta por dia, fruto da violência. A cada dois dias, cinco mulheres são violentadas e quinze roubos ocorrem no interior do transporte público. Não por menos, países como Alemanha, Itália, Estados Unidos, França e Reino Unido, alertam a seus nacionais a evitarem circular nas áreas centrais da cidade à noite e, a qualquer momento, em Ceilândia, Santa Maria, São Sebastião e Paranoá.

Educação

Há muito, o sonho de Anísio Teixeira, de se ter uma educação pública exemplar em Brasília ruiu. Chega a ser heroica a missão de nossos educadores em ensinar nos colégios públicos, tal a decadência de suas instalações. E a falta de estrutura reflete no desempenho escolar. O melhor colégio público de ensino médio de Brasília, o Setor Leste, segundo o Exame Nacional do Ensino Médio/2015, está na 4.242ª colocação, entre os 14.998 colégios do país, submetidos ao Enem. E o Distrito Federal é a única Unidade da Federação que além dos repasses dos Fundos de Participação de Estados e Municípios recebe uma verba extra da União, por meio do Fundo Constitucional, a ser aplicada em Segurança, Saúde e Educação. Por que será que Estados com menos recursos do que Brasília, conseguem melhores resultados?

Os viadutos estão ruindo. Os de concreto e os de direitos sociais. Quem são os engenheiros responsáveis que irão reconstruir a cidadania candanga tão vilipendiada? Quem vai soerguer essas pontes ruídas, que hoje marginalizam centenas de milhares de pessoas? Que futuro daremos aos jovens dessa cidade? Afinal, moramos na Capital da Esperança.

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