Crônica de Vicente Sá

A rodoviária do Plano Piloto já foi mais poderosa. Foi palco de largada de corridas, carnaval, festas de aniversário da cidade e recebia ônibus interestaduais e até internacionais. Hoje, como os espaços próximos a ela foram preenchidos por prédios altos, ela parece até que encolheu.

Uma das particularidades interessantes da rodoviária são suas escadas, pois há uma diferença de um degrau entre a que sobe até o mezanino e a que de lá vai até a plataforma superior. Antigamente, quando era permitida a venda de bebidas alcoólicas nos seus quiosques, discutia-se por horas se uma tinha mais ou se era a outra que tinha menos.

Contam também os mais antigos que ela também já teve uma padaria do seu João da Viçosa. Mas eu não lembro deste tempo. Sei que agora ela está com uma nova e eu fui conhece-la neste sábado, no final da tarde. Bebericava um café quando da porta Paulo DJorge me fez sinal para que o seguisse. Assustei-me, afinal ele havia nos deixado há dois dias. Mas era meu amigo e parceiro e eu o segui.


– Vicente, você sabe que aquele ônibus que leva os artistas depois que eles morrem sai daqui da rodoviária?
Respondi que não e ele continuou.
– Vamos lá comigo que eu vou embarcar daqui a pouco. Já me despedi das filhas, da mulher, dos amigos e até dos bares. Passei no Beirute, no Mocotó e mais numa dúzia, uns que nem você conhece. Ele contou rindo enquanto nos aproximávamos de um ponto onde um ônibus esperava.
A porta se abriu e desceram para recebe-lo três músicos: Paulo Tovar, Clésio Ferreira e Manoel Brigadeiro. Mas muitos outros músicos se encostavam à janela para ver o mundo e também o novo passageiro. Por uma dessas concessões que são feitas aos poetas-cronistas, pude falar com os três.

Tovar, colocando, como sempre, a mão à frente da boca, me disse que eles gostavam de vir receber o novo colega para que ele não se sentisse perdido. Iam conversando e descontraindo e às vezes quando chegavam ao seu destino já tinham até composto uma música em parceria.

O motorista do ônibus os chamou e eles foram subindo. Paulo, como sempre brincalhão, me perguntou, com um brilho no fundo dos olhos:

– Não queres subir e dar uma voltinha. Depois você salta de paraquedas.
Hesitei. Mas sabia que só poderia subir aqueles degraus no momento certo. Acenei e ouvi o motorista perguntar:
Plunct, Plact, Zumm?
E todos os músicos responderem em coro. – Pode partir sem problema algum.
O ônibus começou a levitar e eu me virei e comecei a caminhar quando, de um quiosque, um homem me chamou: Ei poeta, não queres uma cerveja?
Estranhei a oferta e perguntei: Mas não é proibido vender bebida alcóolica aqui?
Ele riu e respondeu:

– Primeiro não estou vendendo, estou dando e segundo esta é uma crônica fantástica. Aproveite.
E realmente é uma crônica fantástica, mas mesmo nelas nós temos nossas responsabilidades e eu tinha a minha.

Caminhei direto até as escadas.

Hoje eu descobriria de vez se uma tinha mais ou se a outra tinha menos degraus.

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