São as mídias comunitárias, em especial as emissoras de rádio alternativas, que estão fazendo o verdadeiro debate eleitoral em 2018.

Os meios de comunicação de massa reduzem o debate eleitoral a simples cobertura de agendas e, em alguns casos, a entrevistas com candidatos a presidente da República e Governadores. Mesmo assim, não são todos que possuem tal oportunidade. Em muitos meios, esse é um privilégio de quem está na ponta das pesquisas. 

 

Por Chico Sant’Anna

 

As eleições estão ai, batendo à porta. Mas nas ruas o clima é outro. Pouca gente está empolgada, muitos desconhecem até os cargos que estão em jogo e os candidatos que estão jogando. Esse clima é fruto do momento político por que passamos, com o descrédito não apenas para com a classe política, mas principalmente para com o sistema político em que vivemos, que na visão de muitos é um jogo de cartas marcadas.

As novas regras eleitorais em vigor contribuem muito para esta realidade. A campanha foi encurtada no calendário eleitoral, o período de horário eleitoral no rádio e TV não só é mais curto, como é infinitamente menor o tempo de cada candidatura. Para ilustrar esta redução, peguemos o exemplo do Psol. Nas eleições de 2014, o candidato ao GDF dispunha de 1 minuto e 14 segundos para apresentar suas propostas. Hoje o tempo é de 9 segundos, apenas.

Como fazer o debate político com tão pouco tempo?
Como apresentar alternativas ao modelo político e ao modelo de políticos que ai estão e descontentam a cidadania?

Os meios de comunicação de massa, em especial as emissoras de rádio e TV – concessões do Estado e que, portanto, deveriam estar a serviço da cidadania – se omitem. Reduzem o debate eleitoral a simples cobertura de agendas e, em alguns casos, a entrevistas com candidatos a presidente da República e Governadores. Mesmo assim, não são todos que possuem tal oportunidade. Em muitos meios, esse é um privilégio de quem está na ponta das pesquisas. Pesquisas que nas últimas eleições não tem retratado fielmente o resultado das urnas.

Mídia Comunitária

Esse quadro de desinformação – que gera desânimo no eleitor – só não é mais grave por conta da ação da chamada mídia comunitária do Distrito Federal. São pequenas emissoras de rádio, jornais tabloides – como esse em que escrevo agora – blogues, youtubers e a guerreira TV Comunitária do DF, o Canal Cidade Livre. Todas elas, de forma plural e democrática, vêm dando espaço a candidatos a deputados distritais, federais, senadores e até a governadores.
Mas essas emissoras de rádio somam apenas umas três dezenas e são de baixa potência, não garantindo a cobertura em todo o DF. Muitas já legalizadas, algumas operam só na internet – as webrádios – via facebook e instagram; e outras até de forma clandestina, as chamadas rádios livres, que não conseguiram obter ainda as demoradas autorizações da Anatel. Veículos que, em sua maioria, estão fora do beneplácito das propagandas oficiais e que se viram para sobreviver. Sem as suas transmissões e publicações, o cidadão de Brasília estaria num obscurantismo ainda maior nesse processo eleitoral.
Que grande emissora fará o debate sobre as demandas do Recanto das Emas, do Paranoá, do Gama, da Estrutural? Que emissora cobrará de forma regionalizada os compromissos dos candidatos para com a Ceilândia, São Sebastião, Brazlândia e Planaltina? A importância desses veículos para com a cidadania cresce na medida em que a chamada grande mídia abandona sua missão constitucional de bem informar e de regionalizar sua informação.

Publicada originalmente na coluna BRASÍLIA, POR CHICO SANT’ANNA, no semanário Brasília Capital.

Novas regras

Quem chegar ao Congresso Nacional e mesmo ao Buriti deverá pensar seriamente nesse segmento midiático. Em Brasília, carece uma política de comunicação voltada à pequena imprensa, a imprensa de bairro, de cidade satélite. Ela não apenas é fonte de informação e de geração de emprego e renda, mas também de fomento à cidadania. Como o próprio institucional da Associação Brasileira de Rádio Comunitária – Abraço vocifera, é essa mídia quem entrevista o padre ou o pastor do bairro, que ouve o professor da escola, o médico do centro de saúde ou o comerciante da esquina. A cidadania pede seu direito a ter voz e, por meio da mídia comunitária, isso pode ser um passo importante.
No Congresso Nacional, carecem marcos jurídicos – que não interessam à grande mídia – , que abranjam o pequeno comunicador. Que o funcionamento desses meios seja simplificado. Nos Estados Unidos, quase toda escola de ensino médio tem sua emissora, em países como a França há leis especificas que asseguram a sobrevivência midiática dos pequenos. É na mensagem por eles transmitidas que o pequeno cidadão também se faz ser ouvido.