Por Luiz Martins da Silva
Num voto de confiança – Chico Sant’Anna

Inconformes, por isso mesmo,
Inquietos, elaborar meios,
Envergaduras, nervuras, veios.
Pobres deles: anu, águia, condor!
Não puderam projetar as próprias asas.
Nós, sim, testamos: nas rampas, ladeiras, ruas…
Delirar algoritmos de decolar.

Skates para alunos virtuosos:
Astrônomos da gravidade.
Surfistas, ilusionistas, trapezistas…
Esmero teimoso dos santos (Dumont).
Melhor voa quem não soa
Bem do alto o seu esguicho
De planos e espantos do chão.

Que destino atroz!
Quanto mais albatroz,
Mais submisso à tirania das asas.
Melhor voa, quem, de empréstimo
Abre alas de asas (deltas):
Tornam-se alienígenas, metamórficos.
Habitam parapentes; deslizam windsurfs.

Ícaro, equívoco. Idem, pegasus.
Passarinhos, inocentes, nada sabem
Da proeza de avoar sem garantia.
Por geometria, órbita e, em certo dia,
Fazer conta de chegar: pouso lunar;
Tudo prescrito, desde o pequeno passo.
A Humanidade voa. Mas, é em saltos.

Anjos é que voltam às asas.
Por falta de treino nos nexos.
Vivem a conjugar verbos neutros.
Brincam é de esconde-esconde.
Nós, voar é saber bem o nome:
Despertar imagens ainda em sonhos,

Até que você volte a votar.