As pautas identirárias polarizaram essas eleições. Favoráveis e contrários aos temas humanistas obtiveram mais sucesso. Ficaram em segundo plano os debates sobre o meio-ambiente da Capital Federal, o risco de uma nova crise hídrica, a expansão urbana desenfreada, o sucateamento de escolas e hospitais e uma mobilidade urbana que não atende a ninguém: nem quem anda de transporte público, nem quem tem carro próprio.

 

Por Chico Sant’Anna

 

O eleitor brasiliense parece não estar muito preocupado com a Saúde, Educação, Segurança, Mobilidade Urbana, dentre outras necessidades do cotidiano urbano. Pelo menos é isso que se pode depreender da composição das câmaras Federal e Distrital, bem como dos novos senadores recém-eleitos. De uma maneira geral, o perfil dos parlamentares eleitos está mais associado ao debate – seja a favor ou contra – dos temas vinculados aos Direitos Humanos e a agenda identitária. Ícones desse debate, duas parlamentares, uma de direita e outra de esquerda, foram campeãs de votos no DF: Erika Kokai (PT) e Bia Kicis (PRP)

Kokai defende negros, comunidade LGBTI, mulheres, indígenas, populações da periferia. Kicis é contra tudo isso e ainda defende a Escola sem Partido, porte de armas, redução da maioridade penal e outras agendas consideradas fora da pauta humanista.

Ao contrário de eleições passadas, os representantes da Saúde e da Educação não obtiveram grande êxito. Ex-presidente do Sindicato dos Médicos, o Dr. Gutemberg não conseguiu chegar a CLDF, embora com boa votação. André Lima (Rede), ex-secretário de Meio-Ambiente, também não conseguiu sensibilizar os eleitores com sua plataforma de sustentabilidade. O mesmo aconteceu com outro ambientalista, o pedetista Ronei Alves Silva, líder do Movimento Nacional dos Catadores de Lixo.

Em contra-partida, a CLDF ganha o seu primeiro distrital gay, defensor inconteste da agenda identitária: Fábio Félix (Psol).
Pra Federal, Maria José Maninha (Psol), que pregava a volta do Saúde em Casa e o restabelecimento da gestão pública do Hospital de Base, foi a terceira mais votada em seu partido, que teve Talita Victor, uma defensora da causa LGBT como a que mais recebeu voto na coligação Psol-PCB. Augusto Carvalho, político das antigas, que veio ao mundo partidário pelas mãos do sindicalismo dos bancários sucumbiu. Laerte Bessa, que se apresentava como o legitimo defensor das forças policiais, idem. E assim por diante.

Parte da nova composição da Câmara Federal traz em sua agenda as bases de um fundamentalismo religioso bem acentuado. A disputa polarizou-se num debate onde a intolerância ao modo de ser, ao modo de orar, à cor da pele, a procedência regional prevaleceram. O peso econômico falou alto, também. Não à toa, Flávia Arruda foi a mais votada. A herdeira do espólio do ex-governador José Roberto Arruda (PR) recebeu um aporte de R$2,404 milhões para gastos no período eleitoral segundo informou o Portal Metrópoles. Até 20 de setembro, Paula Belmonte (PPS), esposa do bem sucedido advogado Luiz Felipe Belmonte, havia transferido do próprio bolso para a campanha dela R$1,951 milhão. E Celina Leão (PP), que contou com R$2.154.950,00 para a sua campanha, segundo dados lançados até 10 de setembro.

Ficaram em segundo plano os debates sobre o meio-ambiente da Capital Federal, o risco de uma nova crise hídrica, a expansão urbana desenfreada, o sucateamento de escolas e hospitais e uma mobilidade urbana que não atende a ninguém: nem quem anda de transporte público, nem quem tem carro próprio.

O formato das eleições e a não cobertura pela grande mídia das candidaturas proporcionais camuflam as propostas que os novos eleitos irão levar ao parlamento. É de se perguntar se as eleições para deputado distrital não teriam uma maior atenção caso fossem realizadas quando das eleições municipais no restante do país. Assim, tanto na propaganda eleitoral, quanto na mídia haveria mais espaço para o debate da agenda local.

Ficamos no escuro. Como se posicionarão os novos senadores e deputados sobre temas como a presença de agrotóxico nos alimentos, reforma da previdência, privatização de empresas estatais estratégicas, como a Eletrobrás? No calor das urnas, parece que isso pouco importou aos milhões de eleitores candangos. De maneira geral, candidatos que trouxeram a público propostas concretas sobre questões do cotidiano urbano não tiveram sucesso. E aqueles que nada propuseram de concreto, mas tiveram muito recursos para massificar seus sorrisos em jilgles bem elaborados chegaram ao pódio.

Partidos

O referencial partidário também pouco influiu nessas eleições candangas. Em eleições passadas eram comum termos mini-bancadas partidárias de três e até de quatro distritais na CLDF ou na Câmara Federal. Desta vez, na Câmara Federal são oito eleitos de oito partidos diferentes. Na CLDF, 24 eleitos de 19 partidos distintos. Foram ignoradas as propostas partidárias e priorizadas as pessoas dos candidatos como se fossem salvadores da pátria, capazes de sozinho tudo resolver. Construir um consenso, definir um rumo, vai ser trabalhoso.