Em 2015, terminal JK recebeu 107.208 turistas estrangeiros. No ano passado, movimento caiu para 76.747.

Os dados da Embratur demonstram que houve também uma mudança drástica das nacionalidades dos viajantes. Se em 2014 e 2015, norte-americanos e europeus representavam os grandes contingentes, a partir de 2016 os argentinos foram os campeões. Em 2016 e 2017, de cada dez estrangeiros que aportavam no Aeroporto JK, cinco eram argentinos.

Por Chico Sant’Anna

É cada vez menor o volume de turistas estrangeiros que veem a Brasília por voos internacionais que chegam ao Aeroporto Internacional JK. Se continuar assim, o adjetivo Internacional passará a ser apenas simbólico. As melhores temporadas foram 2014 – 100.063 passageiros -, ano em que foi uma das sedes da Copa do Mundo, e, principalmente, 2015, quando o terminal de Brasília viu chegarem 107.208 estrangeiros à Capital Federal. Desde então, a cada ano, o movimento vem caindo sucessivamente. No ano passado, o volume de passageiros, 76.747, quando comparados a 2014 e 2015, foi menor em 23,3% e 28,4%, respectivamente.

Para se ter uma ideia: o volume de estrangeiros que entram pela porta de Brasília é equivalente ao de Bolivianos e Paraguaios – sem considerar outras nacionalidades – que entram em Mato Grosso. Além de apresentar sucessivas quedas no total de estrangeiros que decidem pegar voos diretos a Brasília, os dados da Embratur demonstram que houve também uma mudança drástica das nacionalidades dos viajantes. Se em 2014 e 2015, norte-americanos e europeus representavam os grandes contingentes, a partir de 2016 os argentinos foram os campeões. Em 2016 e 2017, de cada dez estrangeiros que aportavam no Aeroporto JK, cinco eram argentinos. Nem no ano da Copa, los hermanos voaram tanto ao Planalto Central. Naquele ano, apenas um em cada dez que aqui chegavam por via área eram provenientes da Argentina. Isso revela um nicho que deveria ser otimizado. Voos interligando a cidade a países sul-americanos deveriam ser criados.

Atualmente, são apenas 25 voos semanais, operados por quatro empresas para cinco destinos e com a capacidade de transportar semanalmente cinco mil passageiros. Muito pouco.

Os reflexos dessa queda no movimento de passageiros estrangeiros é fruto de diversas causas. Talvez, a principal seja a redução de voos internacionais operando a partir do terminal JK. Atualmente, são apenas 25 voos semanais, operados por quatro empresas para cinco destinos e com a capacidade de transportar semanalmente cinco mil passageiros. Muito pouco.

Além disso, as linhas existentes parecem ter sido concebidas para levar brasileiros ao exterior e não trazer estrangeiros para Brasília.

São os casos de rotas que ligam a capital federal a Orlando, na Florida, e Punta Caña, na República Dominicana.

Dificilmente, moradores dessas duas localidades, criadas para atrair turistas do mundo inteiro, viajarão ao Brasil e muito menos a Brasília.

Quando a chilena Lan adquiriu a brasileira Tam, uma das primeiras consequências foi o fechamento de rotas que partiam de Brasília e o engavetamento, por parte da Lan de abrir novas rotas, ligando Santiago a Brasília. A conexão em São Paulo passou a ser necessário.

Veja também:

Taca interligava Brasília a Lima e Pluna a Montevidéu. Ambas não operam mais

Empresas, como a uruguaia Pluna faliram. Outras, como a Delta, Taca e Avianca, que conectavam, respectivamente, a Capital Federal direto aos Estados Unidos, Lima e Bogotá, pararam de operar essas rotas.

A TACA tinha matriz em El Salvador e, posteriormente, em 2009, foi comprada pela Avianca, que de imediato cancelou o voo para Lima.

Mais grave foi o consórcio Air France/ KLM que preferiu fechar as portas na Capital e fazer em Fortaleza o seu hub (base para conexões) sul-americano. Os cearenses ofereceram isenção de recolhimento do ISS e ganharam um portão internacional de entrada conectando o Nordeste a Paris e a Amsterdam.

Empresas como Taca, Avianca, Pluna, Delta, Ai France e Aerolineas Argentinas deixaram de operar em Brasília.

O caso da Air France revela bem a falta de visão estratégica do governo do Distrito Federal no Turismo. Os rumores da saída da cia aérea do Distrito Federal eram audíveis em qualquer lugar, bem como as tratativas com o governo cearense. O GDF, contudo, não achou que fosse oportuno investir em ter na cidade o hub sul-americano da Air France/KLM, conectando daqui pra toda a América do Sul e demais estados brasileiros os viajantes. Com o hub, o Ceará passa a ganhar outras rotas, como para a Argentina.

Economia do Turismo

Em 2017, a França recebeu 89 milhões de estrangeiros, a Espanha, 82 milhões; e os EUA, 76,5 milhões. Já o Brasil, teve a sua melhor marca: 6,6 milhões. O turismo é peça fundamental da economia da atualidade. Falta e sempre faltou aos governantes de Brasília ação permanente de promoção da cidade e também a adoção de estratégias para atrair visitantes. Brasília possui, por exemplo, voo direto à cidade do Panamá e dali conexão para todas as nações centro-americanas e caribenhas. Pois bem: do Panamá a média anual de nacionais que visitam o Planalto Central é de 451 pessoas. De toda a América Central e do Caribe aportaram por essas bandas, no ano passado, 2.787 passageiros, sendo que quase a metade era de cubanos, provavelmente, participes do programa Mais Médico. E agora, nem eles. Por que não divulgar a cidade patrimônio mundial da Unesco no Panamá e na América Central. Criar pacotes atrativos.

Além de não atrair turistas para o Distrito Federal, o GDF perde oportunidades importantes de fazer a economia locar girar. Uma delas é a realização no próximo ano da Copa das Américas. Com o estádio mais caro do país, o Mané Garrincha não vai ver a bola rolar. A expectativa era de que o evento injetasse na combalida economia candanga entre 50 e 100 milhões de reais. Mas, no jargão futebolístico, GDF não preparou o ataque e deixou a defesa candanga desprotegida. Resultado: tomou mais um drible desconcertante da CBF e Brasília não foi escalada sede de nenhum dos jogos da Copa América-2019. É certo de que se trata de um evento pontual, mas além de dar utilidade ao Mané Garrincha, contribuiria para fortalecer internacionalmente o nome de Brasília. Não só os torcedores, mas a imprensa mundial acompanha esses eventos.

Publicada originalmente na coluna BRASÍLIA, POR CHICO SANT’ANNA, no semanário Brasília Capital.

Perdas

O prejuízo não é apenas para a multinacional que administra o Aeroporto de Brasília. Com menos voos e passageiros, toda a cidade, que ostenta um desemprego recorde, sofre: taxistas, hotéis, restaurantes, comércio, vida noturna, empresas de turismo, empresas que dão suporte ao aeroporto. A estimativa é que cada estrangeiro gaste por dia cerca de R$ 600,00. A queda no volume de passageiros estrangeiros que por aqui chegam representa um prejuízo diário de 200 mil reais na economia local para cada dia que esses turistas fossem ficar por essas bandas.

As perspectivas em curto prazo de novas rotas não são grandes. Segundo a Embratur, ainda nesse ano a empresa Gol passa a operar a linha para Orlando, nos EUA, e em março do ano que vem, voltará a ligar as duas principais capitais do Mercosul: Brasília Buenos Aires. A título de comparação, Fortaleza no mermo período ganhará mais seis rotas com quinze frequências semanais.

É necessária a descentralização dos portões internacionais do Brasil. O monopólio Rio-São Paulo precisa ser revisto. A descentralização não é apenas uma questão de conforto para quem viaja. É uma forma de descentralizar o desenvolvimento sustentável que o turismo propicia.

Não só o GDF, mas o Congresso Nacional precisa ficar atento a isso.