O Distrito Federal vivencia o drama do concreto ocupando o verde. 58 anos depois, o retrato é outro: a mancha de cerrado original é cada dia menor. Fruto da expansão urbana oficial e, principalmente da ocupação urbana selvagem provocada pela grilagem, além, é claro, pelo agronegócio. Até o final de outubro desse ano, foram resgatados em instalações urbanas 3.632 espécimes selvagens. O espaço silvestre é cada vez menor, faltam áreas protegidas e faltam proteções para que animais silvestres possam transitar sem risco pelas áreas urbanas.

Por Chico Sant’Anna

Na semana que passou, uma imagem nas redes sociais deixou muita gente deslumbrada. Às 3 da madrugada, um tamanduá-bandeira foi flagrado atravessando a estrada DF 480 (Gama-Plano Piloto), pouco depois da estação do BRT. A admiração das milhares de pessoas que assistiram ao vídeo  é, de um lado, pela beleza do animal e, pelo outro, do inusitado em encontrar um animal silvestre desse porte tão perto de instalações urbanas e movimentadas por carros e pessoas.

O flagrante gravado por Matheus Silva, infelizmente não é tão raro e se faz cada vez mais presente. Não faz muito tempo, uma onça suçuarana foi morta, atropelada nas proximidades do Park Way, nas imediações da Área Alfa da Marinha. Há poucos dias, foi um furão, também atropelado nas proximidades da quadra 26 do mesmo bairro. Na Estrada para o Aeroporto um bicho preguiça foi resgatado, o mesmo acontecendo com uma lontra próximo ao Gilberto Salomão.

O espaço silvestre é cada vez menor. Faltam áreas protegidas e faltam proteções para que animais silvestres possam transitar sem risco pelas áreas urbanas.

Sobre a Suçuarana morta, leia também:

Veja aqui o vídeo da travessia do Tamanduá próximo ao Gama

Veja aqui os vídeo das lontra resgatada próximo ao Centro Comercial Gilberto Salomão

Na quadra 26, um furão foi vítima de atropelamento. Faltam passagens seguras pra bicharada.

Vítimas do Trânsito

No Park Way, os flagrantes de animais atravessando as vias são rotineiros: raposas, saruês, macacos bugio, cobras, capivaras, teiús, perdizes acabam sendo atropelados, apesar do esforço da comunidade em parceria com a administração regional em sinalizar locais onde a travessias de animais se faz mais presente. O bairro utilizado pelo Ibama para a reintrodução de animais silvestres não possui uma única passagem aérea ou subterrânea destinada a animais.

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O Distrito Federal vivencia o drama do concreto ocupando o verde. Em 1946, quando da vinda da Missão Polli Coelho ao Planalto Central, o diretor técnico da missão, Francis Ruellan, alertava que para assegurar o abastecimento d’água da cidade, que seria inaugurada 14 anos depois, era necessário preservar, ao menos, metade do cerrado. 58 anos depois, o retrato é outro: a mancha de cerrado original é cada dia menor. Fruto da expansão urbana oficial e, principalmente da ocupação urbana selvagem provocada pela grilagem, além, é claro, pelo agronegócio.

Se hoje as autoridades sorriem de orelha a orelha diante dos indicadores dos reservatórios d’água, essa alegria se deve muito mais a São Pedro do que a mudanças estruturais, seja no abastecimento da cidade, seja em medidas de captação e preservação das águas pluviais, seja no comportamento de consumo popular e de expansão urbana. É sempre bom lembrar que a ligação de Corumbá 4 ao DF ficou para meados do próximo semestre e, mesmo assim, segundo os especialistas, diante do crescimento populacional do DF, a água que virá de Goiás deve assegurar o abastecimento até 2030, apenas.

Pegando Jacaré

Com espaço cada vez menor para a natureza, não são raras as imagens inusitadas que vivenciam moradores de localidades como os Lagos Sul e Norte, Jardim Botânico, Taquari e Park Way. Em 2018, dois jacarés do papo amarelo foram capturados pela diligente Policia Ambiental. Um deles se deleitava numa piscina residencial. Não faz muito tempo, moradores da quadra 17 tiveram a visita nos jardins de um condomínio de um Tamanduá-Bandeira, que deve ter se sentido oprimido pela existência cada vez maior de concreto em seu habitat. Até o final de outubro desse ano, foram resgatados em instalações urbanas 3.632 espécimes selvagens.

Isso sem contar com aves antes mais raras e hoje cada vez mais comuns nos centros urbanos, tais como as curicacas e tucanos. Até mesmo os valentes gaviões carcarás deixaram a caça de lado e preferem fuçar as lixeiras em busca de comida.

Com menos de 60 anos de vida Brasília se defronta com uma triste realidade de não saber se cuidar ambientalmente. Não realiza coleta seletiva, lixões clandestinos afloram nos novos espaços urbanos que se se multiplicam sem muito planejamento ou análise de impacto. Em muitos casos, prevalece a política de legalizar o ilegal.

Certo é fazer o errado

Essa é a prática comum no DF. A justiça proibiu a ocupação clandestina do setor Arniqueiras, mas o GDF, com ajuda da MP da Grilagem, vai regularizar um setor vital para a produção hídrica do DF. Na Arniqueiras legalizada, será possível existir lotes de 125 m², dos quais 100² poderão ser totalmente ocupados por obras de até três andares. E tudo isso a 50 metros de um córrego d’água.

É assim na recente decisão de reduzir quase à metade a Floresta Nacional e comer uma bela fatia do Parque Nacional de Brasília. Tudo para legalizar ocupações urbanas irregulares. Até mesmo Vicente Pires é uma grande demonstração da política que o certo é fazer o errado. Se dá mal quem respeita lei, como ocorre com os raros chacareiros que se negaram a fracionar ilegalmente suas chácaras rurais. As terras deles estão sendo agora confiscadas pelo GDF, para poder legalizar os lotes criados pelos grileiros.