Além de uniformes com estilo militar, o corte de cabelo para os alunos será definido pelo processo de militarização: coques, para as meninas, e cabelo curto (não se sabe se máquina zero) para os meninos.

A decisão de militarizar quatro escolas públicas parece refletir a inexistência de um programa de governo para a Educação no Distrito Federal. O anúncio abrupto da novidade, dentro de um programa de reforço da segurança pública do DF, reforça a imagem à opinião pública de confusão no seio do GDF. Além de comprar uma briga gratuita com a comunidade docente, passa a ideia de que tudo não passa de factoides lançados ao vento para ver se cola.

 

Por Chico Sant’Anna

 

 

Afinal, qual o propósito da anunciada militarização de escolas no Distrito Federal?

Melhorar a qualidade de ensino, ou garantir a segurança e combater à violência?

Cada autoridade que fala sobre o tema dá uma explicação diferente. A decisão de militarizar quatro escolas públicas parece refletir a inexistência de um programa de governo para a Educação no Distrito Federal. As versões que emanam do Buriti ora afirmam que o projeto visa dotar escolas públicas com a mesma qualidade de ensino das escolas militares tradicionais, ora se contradizem ao garantir que os militares não atuarão no campo da pedagogia, mas sim na “imposição da ordem e da disciplina”.

Na secretaria de Educação, a informação repassada ao Correio Braziliense é de que a proposta não faz parte do programa de Educação da nova gestão, mas do SOS Segurança. Ibaneis pode estar, assim, botando a mão num vespeiro, sem necessidades. Sem respaldo da sua secretaria de Educação e sem apoio dos professores. Na redes sociais, o secretario de Educação, meio que tira sua responsabilidade nesse projeto. “É uma experiência, dentre várias outras que implementaremos e avaliaremos muito de perto para tentar resolver questões sérias, como a violência, a indisciplina, e a falta de respeito e de relacionamentos de afeto em nossas escolas” –  escreveu Rafael Parente.

Sobre a proposta de militarização de escolas públicas no DF, leia também:

Pelo visto, não é só o governo Bolsonaro que está batendo cabeça. Ibaneis Rocha segue o exemplo no Buriti. O anúncio abrupto da novidade, dentro de um programa de reforço da segurança pública do DF, reforça a imagem à opinião pública de confusão no seio do GDF. Além de comprar uma briga gratuita com a comunidade docente, passa a ideia de que tudo não passa de factoides lançados ao vento para ver se cola.

Publicada originalmente na coluna BRASÍLIA, POR CHICO SANT’ANNA, no semanário Brasília Capital.

Projeto pedagógico

O GDF, como o próprio secretário de Educação afirmou ao BSB Capital ainda não possui um projeto pedagógico acabado. Na medida em que a poeira vai se assentando, percebe-se que o anúncio da militarização na verdade não é um projeto pedagógico, mas sim uma proposta de inserção de policiais nas instalações escolares. O Batalhão Escolar, que deveria estar atuando nos portões escolares, vai entrar pra dentro dos colégios com a missão de vigiar e disciplinar. Na prática, cada escola vai ganhar cera de 20 bedéis fardados, oriundos da reserva da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros, a um custo mensal de 200 mil, em cada colégio.

Quem assegura que a função dos policiais não será na área pedagógica é a própria secretaria de Educação. “A atual direção permanece à frente e os militares entrarão para cuidar, basicamente, da disciplina, do controle de acesso à escola e da ordem unida, com formação de filas pelos alunos para entrada e saída de sala”, detalhou ao Correio Braziliense Mauro Oliveira, assessor de gabinete do secretário de Educação. Por sua vez, Rafael Parente, em seu perfil no facebook, diz que com os militares além de resolver problemas com indisciplina e violência visam acelerar a implementação de educação integral com ações no contraturno. “Serão oferecidas atividades relacionadas a esportes, banda e musicalização, entre outras.” Mauro Oliveira foi um pouco mais especifico: informou que a nova rotina incluirá um momento cívico diário, com canto do Hino Nacional antes das aulas.

Falta de propostas

Falharam o governador Ibaneis e seu secretario de Educação ao anunciarem que a primeira medida na Educação seja a introdução de policiais nas salas de aula. O GDF poderia sim usar os R$ 200 mil mensais em reforço orçamentário para melhorar a qualidade do ensino em cada um desses colégios. Os militares entram, mas instalações continuarão precárias, a falta de equipamentos será a mesma, os baixos salários dos educadores serão os mesmos. Na entrevista que concedeu ao BSBCapital, Parente, disse que ainda estava se esforçando para que o ano letivo tivesse início com tudo em cima, inclusive material didático, mas que temia a falta de recursos. Com os R$ 200 mil mensais, cada uma dessas escolas poderia dar um salto de qualidade

Pelo visto, prevalecerá apenas a Pedagogia do Cassetete: alunos e professores fardados, regime militar interno. Professores das quatro escolas inicialmente militarizadas temem por sua liberdade de ensino. Lembram que o foco da militarização recairá sobre alunos do 6º ao 9º ano do ensino fundamental e do ensino médio. Fase mais intensa da adolescência, quando se verificam profundas transformações físicas, emocionais, cognitivas e sociais Nas redes sociais docentes perguntam: como ficará a liberdade de expressão dessa juventude? E temem que uma postura repressiva, própria da cultura militar, possa trazer transtornos psicológicos irreparáveis. Chegam a alertar sobre a elevada taxa de suicídios entre os adolescentes no Brasil. Em 2016, foram 11,6 mil casos. Na maioria dos casos, a depressão e o sentimento de incompreensão são apontados como as causas. É aí que se questiona: haverá liberdade para o jovem expressar sua adolescência? Será livre o jeito de vestir e de se expressar socialmente? Ou prevalecerá o estilo Ordem Unida: Escola! Direita, volver! Ordinário, estude!

Aceno a Bolsonaro

Há quem veja na proposta de Ibaneis duas investidas de fundo político. De um lado, faz um agrado ao presidente Jair Bolsonaro. Durante a campanha ele prometeu espalhar pelo país escolas militares. Baixou, inclusive, o decreto 9.465/2019, criando a subsecretaria de Fomento às Escolas Cívico-Militares, vinculada à secretaria de Educação Básica do Ministério da Educação. Caberá ao novo órgão “promover, fomentar, acompanhar e avaliar, por meio de parcerias, a adoção por adesão do modelo de escolas cívico-militares nos sistemas de ensino municipais, estaduais e distrital tendo como base a gestão administrativa, educacional e didático-pedagógica adotada por colégios militares do Exército, Polícias e Bombeiros Militares”. Pertinho do Planalto, Ibaneis parece querer fazer a média com Bolsonaro e ser a vitrine do projeto.

Do outro lado, ele faz um afago financeiro a militares da PM e dos Bombeiros que estão na reserva. Ao completar o seu projeto de 40 escolas, ele terá reforçado o orçamento doméstico de uma tropa de cerca de 1.000 policiais e bombeiros reformados.