A existência de grandes áreas no Distrito Federal nas mãos do Poder Público atiça a criatividade de muitos empresários, que anseiam poder contar com terrenos gratuitos ou a baixo custo. Para tanto, elaboram projetos mirabolantes. É uma versão high tech do Pró-Lote. O problema é o GDF cair nessas jogadas.

 

Por Chico Sat’Anna

O Carnaval este ano só será em março, mas fantasias já começam a tomar conta do brasiliense. Nessa primeira semana de fevereiro, a imprensa noticiou dois projetos mirabolantes que estariam sendo planejados com apoio do governo de Ibaneis Rocha. O primeiro projeto propõe trazer as ondas do surf até o cerrado, por meio de uma filial do Global Wave Parks. O segundo, ainda mais ousado, propõe instalar em Sobradinho uma filial da Disney Word. Para os dois projetos, é claro, o Governo do Distrito Federal deveria contribuir com vultosas somas, seja por meio da cessão de áreas públicas, seja pela construção de infra-estrutura, seja por meio da isenção de impostos. Tudo para tornar o projeto palatável a seus idealizadores.

Surfando no Cerrado

A proposta do Surf Park na Capital Federal foi anunciada nos sites especializados por Ítalo Ferreira, 4º surfista no rank mundial e embaixador do projeto, cuja tecnologia é da empresa espanhola Wavegarden. Não há maiores detalhes sobre a iniciativa, mas o portal da internet informa que ele estaria a 15 minutos do centro de Brasília e a imagem de uma maquete eletrônica, que ilustra a noticia, mostra uma imensa piscina de ondas em meio à densa vegetação do cerrado.

Segundo Italo Ferreira, o parque está em processo de licenciamento ambiental e o início das obras está previsto para o primeiro semestre de 2020, com a sua conclusão no primeiro semestre de 2021. Seria um complexo de esportes, lazer e entretenimento. Além da piscina de ondas, preveem-se instalações para outros esportes, incluindo parque de skate e BMX padrão internacional, escalada, vôlei de praia, tênis de praia, bares, restaurantes, lojas e um hotel.

Sobradisney

Já a instalação da Disneylândia no cerrado seria nas antigas instalações do Polo de Cinema do DF, em Sobradinho. O GDF informou que reservou uma área de 800 hectares. Para se ter uma ideia, isso representa a área de cerca de 114 Superquadras. O Plano Piloto inteiro possui 120 superquadras. É um espaço que abrigaria uma nova cidade com facilidade. Mas parece que tudo não passou de factoide, criado sabe-se por quem e com qual objetivo, pois foi rapidamente desmentido nos Estados Unidos pela Disney. Em nota informou não ter no momento planos para a construção de parques no Brasil

Repeteco.

Esta não é a primeira vez que se pensa e se propõe a implantação na Capital Federal de um parque aquático e de uma filial da Disney. No governo de Cristovam Buarque ela veio à tona por meio de poderosos empresários do setor imobiliário e do turismo. Alguns bem próximos ao ex-presidente Fernando Collor. Na versão de Cristovam Buarque, a cidade ganharia uma das grandes atrações do complexo da Disney, em Orlando: o Parque da Universal Studios. A Disney do cerrado seria implantada em uma imensa área, á época de propriedade da Proflora, estatal de reflorestamento do DF. Parte do local hoje abriga o setor habitacional Mangueiral, em São Sebastião. Missões foram e voltaram aos Estados Unidos e nada saiu do papel.

O parque aquático foi o que, em tese, avançou mais. Para a instalação de um complexo aquático de padrão internacional, em 1996, a Terracap promoveu uma licitação e uma nobre e grande área – 164 mil metros quadrados – ao lado do ParkShopping foi concedida por 30 anos ao consórcio Wet’n Wild Brasília. O grupo era integrado à época pelas empresas Novadata Computadores, Própiso Engenharia e Anif Comércio e Engenharia. O empreendimento, depois de implantado, geraria entre 300 a 400 empregos diretos e atrairia 700 mil visitantes por ano. O projeto não foi à frente, pois ao executarem as obras descobriram que por baixo do solo havia uma grande estrutura de captação de águas pluviais, cujo remanejamento implicaria num investimento de grande soma. Nem os empresários, nem o GDF concordaram em pagar a conta. Resultado, o projeto fez água e foi parar na Justiça. Atualmente, os empresários aguardam um julgamento do pleno do Superior Tribunal de Justiça. Portanto, há um risco do Wet’n Wild Brasília ser uma ducha de água fria no GDF e implicar em mais desembolsos do tesouro local.

De olho no filé

A existência de grandes áreas no Distrito Federal nas mãos do Poder Público atiça a criatividade de muitos empresários, que anseiam poder contar com terrenos gratuitos ou a baixo custo. Para tanto, elaboram projetos mirabolantes. É uma versão high tech do Pró-Lote. O problema é o GDF cair nessas jogadas. Nessa linha, já foi proposto um Parque da Xuxa. Ziraldo também flertou com o GDF para criar em Brasília o Ziramundo, o Parque da turma do Menino Maluquinho. O projeto acabou sendo reduzido a um parquinho indoor, no Pier 21. Em 2006, fechou. No governo Rollemberg sonhou-se em transformar o Jardim Zoológico no Jurassic Park. Em 2016, uma Consulta Pública foi realizada com o objetivo de colher contribuições para a exploração comercial referente ao Parque Temático Mundo dos Dinossauros.

Síndrome Tio Patinhas

Na mitologia criada por Walt Disney, existe o Tio Patinhas, que representa o capitalismo selvagem. Ele nada em dinheiro e em tudo ele se dá bem, mesmo que à custa de seus parentes e amigos. Ele só não pode perder é dinheiro. Há o Pato Donald, sempre com um projeto grandioso que irá lhe permitir vencer na vida e, quem sabe, ser tão poderoso quanto o tio. Mas Donald tem o fracasso como sua principal característica. Nada do que ele faz dá certo e ele acaba ficando no prejuízo. Tudo isso o leva a um nível de irritação tal que explosões de comportamento se tornam normais na vida dele. É tão marcante que psicólogos classificam esse tipo de comportamento em humanos de SPD – Síndrome do Pato Donald. Há ainda o Pateta: desengonçado, conhecido pelo seu jeito atrapalhado e que sempre se enrola em alguma coisa.

Embora cheia de espertalhões que gostam de se dar bem com o dinheiro alheio, Brasília não é Patópolis, a cidade onde o clã Patinhas apronta. Nossa cidade não é ficção, nem lugar para os Tios Patinhas bancarem os espertos e se darem bem, mamando nas tetas do Buriti. Querem implantar projetos dessa magnitude? Cocem o bolso e abram suas carteiras. O escasso recurso público tem hoje a prioridade de ir para a Saúde e Educação.

O turismo é de fato uma importante opção para o desenvolvimento sustentável do DF, mas tudo tem que ser feito com seriedade e profissionalismo. Projetos devidamente estruturados e viáveis podem e devem ser apresentados. Não precisamos, contudo, de Patos Donalds com projetos fantasiosos e de difícil capacidade de êxito. De trapalhadas dos Patetas do cerrado, já tivemos muitas. Bastam as do Mané Garrincha, que faliu a Terracap, e a do Autódromo de Brasília. Antes de pensar em Disney, precisamos dar uma solução a esses espaços e também à Piscina de Ondas do Parque da Cidade, que há 20 anos está fechada. Isso, é claro, sem esquecer o Teatro Nacional e o Museu de Arte de Brasília.