Poema de Ana Rossi.

Para Jorge Luís Borges,seu poema “La Recoleta”

nós, convencidas de caducidade
por tantas nobres criaturas que não sabem o que
dizem, que estão vivas mas já estão mortas
nós seguimos com a poeira que nos devora
pouco a pouco, sem sequer olhar para trás
e assim convencemo-nos que temos que calar
e assim convencemo-nos que somos feias
e assim convencemo-nos que não podemos
e assim convencemo-nos que temos medo
e assim convencemo-nos que tudo está perdido
e que aquele nosso mundo se afogou

convencidas de caducidade
deixamos a vida escorrer entre os dedos
finos e graves que olho em mim
por entre os sorrisos que não estão mais aqui

saio para caminhar pela minha estrada, e vejo o sol
saio para caminhar pelo nossa estrada, e respiro o ar
aquela que está em mim, aquele que é meu e é de todos,
e então, vejo o que ninguém pode tirar de mim
e então, não me calo mais
e então, me vejo bonita,
e então, vejo que posso
e então, vejo tudo o que está para ser feito
e então, não tenho mais medo
e que aquele nosso mundo está à nossa frente
saindo da caducidade