Aos poucos, a terra vermelha do cerrado foi dando lugar aos blocos das superquadras sonhadas por Lucio Costa.

A construção da SQS 106, como de tantas outras naquela época, marca a coragem e o caráter desbravador de jovens profissionais que vieram materializar o sonho de Juscelino Kubitschek. É verdade que não foram muitos aqueles que trocaram o conforto da grande cidade, como Rio e São Paulo, para se embrenhar nas matas do Planalto Central. O ex-presidente do Sinduscon-DF, Luiz Carlos Botelho Ferreira, certa vez me revelou que não chegaram a 100 profissionais, os engenheiros e arquitetos que vieram pra Brasília antes de 1960.

Por Chico Sant’Anna. Fotos do acervo pessoal do Engenheiro Cláudio O. C. Sant’Anna.

A contagem regressiva para os 60 anos de Brasília já começou. E a medida que o cronômetro vai regredindo as primeiras obras inauguradas no Plano Piloto, antes mesmo da inauguração de Brasília, vão se tornando sexagenária. É o caso do Bloco D, da SQS 106, que completou 60 anos no dia 20/6. Foi o primeiro bloco de apartamentos a ficar pronto na Nova Capital. Na época era denominado Bloco 9, ficou pronto antes mesmo do Palácio da Alvorada, que viria a ser a residência presidencial.

Somente quem viveu aqueles momentos pode descrever o desafio. Na paisagem só o cerrado denso e placas improvisadas apontando onde seria o local da construção.

Coube a Kosmos Engenharia S/A a tarefa de erguer no meio do cerrado do Planalto Central os onze blocos do “Conjunto Residencial IAPC”, a superquadra, custeada pelo Instituto de Assistência Previdenciária dos Comerciários – IAPC.

Os irmãos Cláudio, Hélio e Mario Sant’Anna, que deixaram o Rio de Janeiro em 1957, foram os engenheiros responsáveis para implantar o acampamento da obra e dar início aos trabalhos.

O Jeep era o único veículo a enfrentar as trilhas rasgadas na mata.

Somente quem viveu aqueles momentos pode descrever o desafio. Na paisagem só o cerrado denso e placas improvisadas apontando onde seria o local da construção. Ainda não havia Lago Paranoá, não existia Eixão, Eixinho, nem W.3. O Jeep era o único veículo a enfrentar as trilhas rasgadas na mata.

 

Publicada originalmente na coluna BRASÍLIA, POR CHICO SANT’ANNA, no semanário Brasília Capital.

A construção da SQS 106, como de tantas outras naquela época, marca a coragem e o caráter desbravador de jovens profissionais que vieram materializar o sonho de Juscelino Kubitschek. É verdade que não foram muitos aqueles que trocaram o conforto da grande cidade, como Rio e São Paulo, para se embrenhar nas matas do Planalto Central. O ex-presidente do Sinduscon-DF, Luiz Carlos Botelho Ferreira, certa vez me revelou que não chegavam a 100 profissionais os engenheiros e arquitetos que vieram pra Brasília antes de 1960.

Em 1º de outubro de 1957, a Lei nº 3.273 determinou o início das obras de construção da Nova Capital. Dois meses depois chegavam por essas bandas os irmãos Sant’Anna, reafirmando a demonstração desse perfil. Com pouco mais de 30 anos de idade, casado com a professora de idiomas Norma Sant’Anna e quatro filhos (o caçula com seis meses de idade era eu), Cláudio Sant’Anna, veio para Brasília e nunca mais voltou ao Rio de Janeiro. Seu pioneirismo lhe rendeu o Registro número 4 no Conselho Regional de Engenharia do DF, além de ter sido fundador e primeiro presidente do Sinduscon-DF.

Era necessário ir até Anápolis, 150 km de estrada de terra. A cidade goiana era um verdadeiro entreposto de material de construção, provenientes de São Paulo e Minas Gerais, na maioria dos casos. Quem chegasse primeiro garantiria seu abastecimento de ferro, cimento, cerâmicas, pregos, madeira, enfim, tudo que hoje basta pegar um telefone e solicitar.

Insumos básicos

Se construir hoje uma superquadra já é um desafio, imagine naquela época, quando não havia nenhum suporte de logística. Nos canteiros de obra não havia energia elétrica, nem água encanada, nem esgoto. Gerador de eletricidade e poços abasteciam as necessidades da obra e de seus profissionais.

Insumos para a construção tinham que ser tirados nas redondezas pelas construtoras. Brita vinha das pedreiras e a areia dos rios goianos. Em alguns casos as próprias construtoras se responsabilizavam para extrair elas mesmas os minerais necessários, operando dragas e britadeiras.

Cimento? Não havia naquela época as duas fábricas na Fercal. Era necessário ir até Anápolis, 150 km de estrada de terra. A cidade goiana era um verdadeiro entreposto de material de construção, provenientes de São Paulo e Minas Gerais, na maioria dos casos. Quem chegasse primeiro garantiria seu abastecimento de ferro, cimento, cerâmicas, pregos, madeira, enfim, tudo que hoje basta pegar um telefone e solicitar. Ah, também não havia telefone. O Departamento de Telefonia Urbana e Interurbana da Novacap – DTUI ainda estava nascendo.

Marcado pela seta vermelha, o Bloco D se destaca na paisagem do Planalto Central. À direita, na foto, os alojamentos e cantinas que assistiram a milhares de operários.

Preocupações

Além de ter a responsabilidade de erguer os 11 prédios, construtoras daquela época eram obrigadas a assegurar o suporte necessário a seus operários. Serviços que numa cidade constituída podem ser alcançados em todos os bairros. Alimentação, moradia e saúde eram garantidas dentro dos canteiros de obra. É por isso que Brasília é dotada até hoje de Acampamentos. Alguns eram erguidos fora das obras, como os que existiram na Vila Planalto. E outros, dentro do próprio canteiro de obras, que foi o caso da SQS 106. Engenheiros, arquitetos, apontadores, milhares de operários viviam dentro das obras. O que exigia a existência de cantinas para alimentar, três vezes ao dia, milhares de pessoas.

Vista aérea da obra da SQS 106, em 1-11-1958

Um canteiro de obra era uma mini cidade. Afinal, em 1957, ainda não existiam cidades-satélites no Distrito Federal, a exceção de Brazlândia e Formosa, distantes povoados goianos incorporados ao território do Distrito Federal. Taguatinga só foi surgir em meados de 1958. Sobradinho é de maio de 1960 e o Gama é de outubro. Fora os canteiros só existia mesmo a Cidade Livre – hoje Núcleo Bandeirante, que era o centro de compras de todos que aqui viviam – e a Candangolândia, que também dava seus primeiros passos.

Em novembro de 1958, a obra do Bloco 9 – atual Bloco D, da SQS 106 – estava bem adiantada…

Parte dessa epopeia vai ser exposta agora no salão de festas do Bloco D, da SQS 106. O prédio que já guarda uma placa descerrada por Juscelino Kubitschek atestando ser o primeiro edifício residencial da cidade, abrigará agora uma galeria de fotos históricas.

… a ponto de ser vistoriada pelo próprio presidente Juscelino Kubitschek.

 

A iniciativa da atual sindica, Suely Nacle De Roure, perpetuará a coragem e a determinação de uma geração de brasileiros que não apenas sonhou com um Brasil melhor, mais igual, mas botou a mão na massa para que isso ocorresse.

Veja aqui a reportagem do DF-TV sobre os 60 anos do Bloco D

 

Serviço

Evento: Comemoração dos 60 anos de inauguração do Bloco D, da SQS 106.
Atividade: Inauguração da Galeria de Fotos Históricas que documentam a construção da SQS 106
Quando: Dia 21/06/2019, às 19h.
Local: Bloco D, da SQS 106