Nas redes sociais, Ibaneis mostra o passeio com os filhos no Vaticano.

São necessárias políticas públicas que, simultaneamente, melhorem as condições de vida e gerem emprego e renda. Faltam obras de saneamento básico, de recuperação de vias e passeios públicos, reformas e ampliação das redes de ensino e de saúde, estimulo ao pequeno empreendedor.

 

Por Chico Sant’Anna

 

Se Brasília fosse um paciente, daqueles ligados aos aparelhos de UTI, poder-se-ia dizer que a situação é quase de estado de coma. E o pior, o médico que pode receitar os remédios e tratamentos antes mesmo de completar um ano de trabalho, foi passear na Europa.

Ibaneis Rocha foi visitar o Vaticano; Quem sabe para pedir um milagre papal.

Traduzindo o economês, os números da economia não vão bem nem no Brasil, nem em Brasília. Um círculo vicioso nos encaminha para uma recessão. Renda baixa e desemprego alto levam a menor consumo, fechamento de estabelecimentos e novos desempregos e queda na renda do consumidor. A situação requer iniciativas públicas urgentes, tanto em nível local, quanto federal, mas não se vê qualquer passo nesse sentido.

Enquanto a greve do metrô segue sem solução no DF, o governador Ibaneis Rocha, depois do Vaticano, passeia de patinete nas paisagens bucólicas de Paris.

Ao lado da falência da economia privada, se vê o sucateamento das estruturas públicas. Enquanto o governo federal e o local inventam factoides pirotécnicos para distrair o foco da opinião pública, a vida real vai mostrando a sua face cruel. Dados da Federação do Comércio do DF indicam que em março o endividamento das famílias cresceu na Capital Federal, passando de 775.773 famílias, em fevereiro para 785.831 em março deste ano. Considerando o tamanho médio das famílias, temos 80,3% dos brasilienses no vermelho. É como se quase todo o DF tivesse recorrido ao cartão de crédito, ao cheque especial e aos boletos sem condição de honrá-los. E esse fenômeno vem aumentando ano a ano, mês a mês.

Dos endividados, apenas 39,8% dos entrevistados afirmam ter condições de pagar integralmente suas dívidas. Segundo informa o IBGE, em abril passado, no Distrito Federal, o volume de vendas do varejo recuou 2,1% frente a março. A queda de vendas em determinados setores é alarmante: livros, jornais, revistas e papelaria (– 20,7%); hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo (–7,9%). Diante da falta de capacidade de consumo, o Comércio candango reage com fechamento de lojas e estabelecimentos. Nos três primeiros meses do ano, 107 empreendimentos fecharam as portas. Menos consumo, afeta também a indústria. Até março, a queda da atividade industrial local foi de 0,6%. A construção civil caiu 1,6%. Mesmo nas exportações a situação é de retração, especialmente na indústria de baixa tecnologia e na cultura de soja, segundo informa o Boletim de Conjuntura do DF editado pela Codeplan. E não devemos jogar a conta na tal “herança maldita”, que os políticos gostam de acusar, pois os dados da Fecomércio DF indicam que “o melhor primeiro trimestre ocorreu em 2014, quando 187 estabelecimentos comerciais foram criados no Distrito Federal”.

Brasília Capital da inflação

E mesmo vendendo pouco, os preços não caem. Em abril, Brasília retomou o título de Capital do Custo de Vida do Brasil. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo – IPCA foi de 0,77%, acima do índice nacional (0,57%). Foi a maior alta mensal para um mês de abril, desde 2015. Se nada mudar, o horizonte é de uma estagflação: economia estagnada e preços subindo, com reflexos sociais imensuráveis. Nas quadras comerciais, nos shoppings, as cenas são iguais. Imóveis fechados, placas de aluga-se, passa-se o ponto, ou simplesmente trancadas. O desemprego aberto é o maior nos últimos sete anos. O volume de desempregados e subutilizados chega a 640 mil brasilienses. A taxa de desocupação no primeiro trimestre foi de 14,1%, 1,4 ponto percentual acima da apurada do índice brasileiro (12,7%) e 2,0 pontos percentuais acima da registrada aqui no trimestre anterior (12,1%).

Publicada originalmente na coluna BRASÍLIA, POR CHICO SANT’ANNA, no semanário Brasília Capital.

Reforma da previdência

O governo diz que tudo vai ficar azul se a Reforma da Previdência for feita. É falsa essa promessa. Mesmo que aprove a reforma na versão original de Bolsonaro, o máximo que acontece é o congelamento da situação atual. As despesas atuais do governo vão continuar como estão em dezenas de anos. A redução do estoque de aposentados e pensionistas só deve se verificar em uma década ou mais, em decorrência do falecimento dos atuais beneficiários e com o retardo de novas aposentadoria.

Somente um verdadeiro crescimento econômico, seja ele local ou nacional, pode alterar esse quadro. Por isso são necessárias políticas públicas que, simultaneamente, melhorem as condições de vida e gerem emprego e renda. Faltam obras de saneamento básico, de recuperação de vias e passeios públicos, reformas e ampliação das redes de ensino e de saúde, estimulo ao pequeno empreendedor.

Entretanto são tímidas as iniciativas nesse sentido. Segundo a Codeplan, falta também às empresas créditos e financiamentos. O Banco Regional de Brasília, apesar dos lucros, tem tido pouca resolubilidade. No caixa do GDF os recursos que lá passam não são poucos. Segundo o portal da transparência da Controladoria Geral do DF, o contribuinte candango já pagou quase R$ 13 bilhões, esse ano. Uma bolada de R$ 6,135 bi já veio da União por meio do Fundo Constitucional do DF, que devem ser acrescidos em mais de R$ 1,105 bi fruto de outras transferências federais, segundo o portal da Controladoria-Geral da União. Somando-se apenas essas receitas – existem outras, dentre elas emendas parlamentares federais que estão dormitando na Caixa Econômica Federal por falta de ação do GDF – são mais de R$ 20 bilhões nesse primeiro semestre nos cofres do GDF e muito pouco se viu em iniciativas que mudassem a cara da cidade.

Seis meses já se passaram e o retrato não é bom. A situação requer medidas corajosas e produtivas. A esperança é que o governador traga as bençãos do Papa e consiga fazer aqui na terra sonhada por Dom Bosco o milagre da multiplicação da renda e dos empregos, antes de suas próximas férias?