Poema de Luiz Martins da Silva. Foto de Orlando Brito

A partir de hoje,
O primeiro a gritar
‘eu não tenho fome’
é um mentiroso.

Até mesmo porque
nem só de pão vive a Humanidade.
E quem haverá de negar a solidão
Que apavora de desolação
os campos e as cidades?

Tenho fome, sim,
Não somente por mim,
Mas por todos aqueles que
batem, em vão, nas portas da Justiça.
E o que dizer dos que mendigam no chão
a simples chance de um leito
num hospital?

Fome pelos que se acham os tais,
Simulando arminhas,
Arrogantes nababos,
Babando-se. E entre si e em face
dos tangíveis que se curvam
nos corredores das oportunidades.

Contamina, sim,
Não o que entra pela boca,
pois, dali a pouco,
sendo puro húmus do húmus
irá fertilizar o solo
[Matheus 15: 18-19].

Contamina, sim,
O que sai da boca
vindo de corações
turvos de cegueira.
Cegos a guiarem cegos
que ainda os aplaudem.

Famintos são
Os que não reconhecem
Em si e entre si
Os demônios da intolerância e da vaidade.
E se jactam de arrogância em riste,
Semeando ameaças.

Tenho fome,
Pelos que passam por todo tipo fome
E ainda são humilhados e ofendidos.
Pelos moradores de rua.
Pelos maltrapilhos que tomam de assalto
Os caminhões de lixo nos lixões.

Tenho fome de sinceridade,
Pelos que se acham donos da verdade.
Pelos que (neste momento) podem tudo,
Mas não socorrem os que não têm para onde correr,
A não ser dormir nas promessas de uma vaga.
As invisíveis legiões do desemprego.

Fome de compreensão.
A fome dos que vivem na exclusão
e ainda acreditam de coração
nos que se autodeclaram
terrivelmente messiânicos.

Nem mesmo os messias são os mesmos.