Foto de André Dussek.

#FakeNews

Nos dois maiores meios de comunicação impressa do Brasil, a revista Veja e o jornal O Globo, o ministro da Cidadania, Osmar Terra, divulga dados errados e atribui a Brasília um consumo de cocaína desproporcional: 8 mil quilos. Os dados estão longe de ser verdadeiros.

 

Por Chico Sant’Anna

O ministro da Cidadania, Osmar Terra (MDB), ou anda mal informado, ou sua assessoria não sabe fazer contas. Na entrevista intitulada Guerra à Maconha, nas Páginas Amarelas, seção nobre da revista Veja, dessa semana, ele afirmou que em Brasília consomem-se entre 8 e 10 toneladas de cocaína por ano, 40 vezes mais do que em Chicago. A informação também foi reproduzida na coluna do jornalista Lauro Jardim, de O Globo. Se ainda fora vivo, o ex-governador Joaquim Roriz, que foi companheiro de MDB de Terra, certamente se valeria de uma expressão que lhe era típica: “acho que ele fumou uma maconha estragada”.

Esse blog, inadvertidamente embarcou na fake news plantada por Terra e divulgadas pelos dois grandes meios de comunicação e reproduziu o conteúdo, mas decidimos investigar mais a fundo, para trazer os verdadeiros fatos aos leitores.

As afirmações de Terra teoricamente se se baseiam em dados de uma pesquisa científica do Instituto de Química da UnB, mas o ministro trouxe dados dez vezes maiores do que o constatado pelos pesquisadores.

As afirmações de Terra se baseiam na dissertação de mestrado intitulada Desenvolvimento de Método para Determinação de Drogas Psicoativas e seus Metabólitos em Esgoto: Suporte aos Estudos de Epidemiologia Forense, de autoria de Gustavo Brandão Souza, defendida no Instituto de Química da UnB. Simplificando o título acadêmico, o estudo se vale de uma técnica denominada Epidemiologia do Esgoto. Por meio da análise química dos efluentes, quantificou-se as substâncias e seus metabólitos no esgoto gerado pela população da Capital Federal. A conclusão final é que que mais de 700 kg de cocaína base livre foram consumidas no DF durante um ano. Portanto, menos de uma tonelada/ano e longe dos 8 mil a 10 mil quilos, conforme afirmou o ministro

É verdade que mesmo corrigindo-se os dados, o brasiliense continua a ter um padrão alto de consumo de cocaína, superior aos moradores de Chicago, mas não de 40 vezes, como falou Terra, e sim entre 2,8 e 3,5 vezes.

CSI Candango

O objetivo do trabalho acadêmico era aprimorar essa técnica de pesquisa e comprovar sua validade para uso forense. Ou seja seu uso em investigação criminal e mesmo a aceitação de suas conclusões como prova num tribunal. Algo como se vê nas séries CSI na televisão.

Publicada originalmente na coluna BRASÍLIA, POR CHICO SANT’ANNA, no semanário Brasília Capital.

Percebe-se, mais uma vez, que da “balburdia” acadêmica da UnB, citada por outro ministro do atual governo, Abraham Weintraub, da Educação, brotam importantes e interessantes trabalhos universitários. E a pesquisa de Gustavo Brandão Souza tem uma serventia mais ampla do que o seu uso forense. Ela lança uma preocupante luz sobre o consumo humano e animal de água captada em reservatórios nos quais também são lançados efluentes sanitários, mesmo que tratados em estações. É o caso da captação de água no Lago Paranoá, iniciada desde a seca que jogou a população do DF em um racionamento do consumo d’água.

Já tivemos a oportunidade de tratar desse tema aqui, em 2017, no artigo  Paranoá: águas duvidosas para o brasiliense, quando o GDF inaugurou estrutura com a capacidade de retirar 42 mil litros d’água por minuto do Paranoá.

Na época, alertávamos quanto ao tratamento d’água fornecida pela Caesb. Ele é do padrão terciário, baseado em três fatores: Higiênicos – remoção de bactérias, protozoários, vírus e outros micro-organismos, redução do excesso de impurezas e dos teores elevados de compostos orgânicos; Estéticos – correção da cor, sabor e odor; e Econômicos – redução de corrosividade, cor, turbidez, ferro e manganês. Ele não é capaz de eliminar substâncias químicas usadas pelos brasilienses, tais como hormônios, antibióticos e até drogas ilícitas.

A análise das águas dos esgotos de Brasília permite identificar o consumo de cocaína em pó e crack (foto), mas é tecnicamente incapaz de identificar o consumo de maconha. Foto PMDF.

Urina reveladora

Quando uma pessoa consome cocaína – seja cheirando ou fumando crak – ela a metaboliza, principalmente, no fígado. Cerca de 45% são convertidos em benzoilecgonina (BE) que acaba sendo excretada através da urina. Como a maior parte dessa urina vai parar nas redes de esgoto, a pesquisa acadêmicas, buscou identificar a presença de dezenove substâncias que apontariam o consumo de drogas e o seu nível na Capital Federal. Feita a análise, apenas os canabinóides e 2 metabólitos da cocaína, Ecgonina (ECG) e Ecgonina metil-éste (EME), não foram identificados. Isso, contudo, não significa que não estivessem lá e sim que o método utilizado na pesquisa não era tecnicamente capaz de localizá-los.

Regionalização do consumo

O pesquisador se valeu da rede de esgoto que atende a quase 90% dos brasilienses e pode, inclusive, fazer uma análise regionalizada, já que para cada quadrante do DF existe uma teia de rede de captação que conduz o esgoto a uma determinada Estação de Tratamento (ETE). Desta forma, seus achados são igualmente úteis para a definição de uma política de saúde pública que trate, sob o aspecto epidemiológico, o uso de drogas ilícitas e suas consequências à Saúde.

As amostras de esgoto bruto foram coletadas nas seguintes ETEs: Melchior (responsável por Taguatinga e Ceilândia), Gama, Brasília Norte, Brasília Sul, Samambaia, Paranoá, Planaltina e Riacho Fundo.

Na ETE Brasília Norte houve coleta em sete dias consecutivos e nas demais em dias úteis da semana e finais de semana. Assim seria possível verificar o comportamento do brasiliense usuário de drogas ao longo da semana. Constatou-se que nos dias úteis o consumo equivale a, praticamente, à metade dos finais de semana. Esse dado pode levar a duas leituras: ou a maior número de usuários de drogas aos finais de semana, ou o volume do consumo é maior, mesmo mantida a quantidade de usuários.

O trabalho apontou que os moradores das cidades atendidas pela ETE Brasília Norte (Asa Norte, Lago Norte, Varjão e Estrutural) são os que mais consomem: 4.453 doses por ano em cada grupo de 1.000 habitantes. Nessa região, o consumo semanal apresentou picos se mostrou maior aos sábados e o mais baixo, às terças-feiras. Em seguida, aparecem pela ordem de consumo, as regiões atendidas pelas ETEs de Samambaia, 4.049; Gama, 3.607; Melchior (responsável por Taguatinga e Ceilândia), 3.259; Paranoá, 2.208; Brasília Sul (Asa Sul, Lago Sul, Águas Claras Sudoeste/Octogonal, Cruzeiro, SAI, Guará, Núcleo Bandeirante e Candangolândia), 2.177; Riacho Fundo, 1.622; e Planaltina, 1.601 doses/ano em cada grupo de 1.000 habitantes.

Foi contatado consumo tanto da cocaína em pó, quanto de crack. Em todas as amostras de esgoto, a pesquisa encontrou as cinco substâncias normalmente expelidas na urina relacionadas ao uso de cocaína.

As concussões da pesquisa acadêmica nos levam a sugerir algumas providências das autoridades públicas. Primeiro, o ministro da Cidadania precisa ser melhor informado para não propagar fake News que jogam uma má imagem sobre a Capital Federal e seus habitantes. Segundo, as autoridades responsáveis sobre o abastecimento d’água precisam monitorar a qualidade da água servida aos brasilienses no tocante à presença de derivados de medicamentos e drogas ilícitas, por fim, se faz necessária uma política efetiva de Saúde Pública que evite que a Capital Federal se torne uma capital dos viciados.