Uma eventual dobradinha Reguffe-Jango Filho pode ser benéfica para ambos os lados. O filho do ex-presidente não é muito conhecido no cenário político candango, mas carrega consigo todo o simbolismo e a força do nome Jango na política nacional, em especial nos agrupamentos de esquerda. É esse simbolismo que pode fazer a diferença para Reguffe. Nas esquerdas o senador é meio como uma esfinge a ser decifrada. Ora vota junto com partidos de esquerda como PT e Psol, ora está em posição diametralmente oposta.

 

Por Chico Sant’Anna

Um encontro que vai dar muito o que falar e pensar no mundo político candango. À esquerda e à direita, muita gente vai ficar com a pulga atrás da orelha: João Vicente Goulart, filho do ex-presidente João Goulart, e Reguffe, senador recém filiado ao Podemos, que começa a projetar seus passos rumo a 2022,  tomaram um café e conversaram demoradamente nesta semana.

Reguffe minimizou a reunião. Disse ter sido apenas o encontro de dois amigos para um café e troca de ideias sobre a conjuntura política local e nacional.

Já o olhar de João Vicente, que foi candidato à presidência da República pelo Partido Pátria Livre (PPL), é bem outro: “foi uma conversa de dois trabalhistas, quadros egressos do PDT, que buscam nas suas origens, soluções para proteger o Brasil do fascismo”.

“Discutimos muito a possibilidade de uma junção estratégica contra esse totalitarismo que vivemos. As nossas trajetórias pessoais, paralelas à primeira vista, se encontram exatamente na priorização de se colocar a estabilidade institucional em primeiro lugar.

Sobre isto, falei muito a ele sobre a frente ampla de 1968, quando Jango, no exílio, recebeu o (Carlos) Lacerda e Juscelino Kubitschek e colocaram a derrubada da ditadura como prioridade.

O restabelecimento da democracia era a prioridade, depois, se vitoriosa a frente, discutiram as profundas divergências ideológicas entre eles” – complementou, dizendo que foi parabenizar Reguffe pela “atitude corajosa de abrir o seu voto contrário a nomeação do filho do Bolsonaro para embaixador no EUA.”

João Vicente Goulart está hoje nos quadros do PCdoB, que incorporou o Partido Pátria Livre (PPL) – que tem em suas raízes o Movimento Revolucionário 8 de Outubro MR-8 -, por este não ter superado a cláusula de barreira. Ressalta contudo que não foi ao encontro na condição de emissário dos comunistas.

O PCdoB e o PPL apoiaram a candidatura de Ibaneis Rocha. Assim, muitos daqueles que se candidataram pelo PPL-DF se abrigaram na secretaria do Trabalho. O ex-candidato ao Senado, João Pedro Ferraz, é o titular das secretarias de Educação e do Trabalho. Entretanto, recente decisões de Ibaneis, como a militarização de escolas públicas, não foram bem recebidas pelos ex-pepelistas.

Para o filho de Jango, o exemplo de seu pai, Lacerda e JK vale também para Brasília. E isso cai como uma luva nos sonhos de Reguffe, que almeja liderar uma frente democrática com forças de direita e de esquerda no DF para chegar ao comando do Buriti.

Na atualidade, além do governador Ibaneis Rocha, se fazem presentes no horizonte das próximas eleições nomes como os do senador Izalci Lucas (PSDB), da deputada federal Flávia Arruda (PL) e daqueles que deverão ser lançados pelas forças progressistas, como o PT, PSB e Psol. Essa é uma paisagem que Reguffe precisa alterar trazendo para o seu campo forças que deixariam de lançar seus próprios candidatos para apoiá-lo.

Uma eventual dobradinha Reguffe-Jango Filho pode ser benéfica para ambos os lados. Nas eleições de 2010, os dois já estiveram juntos sob o guarda-chuva do PDT. Reguffe foi eleito deputado federal e Goulart, candidato a distrital: obteve apenas 674 votos. Embora tenha vivido no início dos anos 60 em Brasília, o filho do ex-presidente não é muito conhecido no cenário político candango, mas carrega consigo todo o simbolismo e a força do nome Jango na política nacional, em especial nos agrupamentos de esquerda. É esse simbolismo que pode fazer a diferença para Reguffe. Nas esquerdas o senador é meio como uma esfinge a ser decifrada. Ora vota junto com partidos como PT e Psol, ora está em posição diametralmente oposta, como foi o caso da Reforma da Previdência e do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

O filho de Jango diz que no encontro foi conversado a necessidade de se replicar no Distrito Federal a estratégia de 1968. “Este raciocínio, também se desloca para a questão local. Mesmo em uma ‘democracia relativa’, não podemos adotar práticas fascistas. A vontade do gestor não pode ser incontestável, sem haver a concordância da população. O que se conversou é sobre a possibilidade de termos no Distrito Federal um amplo diálogo, democrático, soberano, altruísta e sem paixões ideológicas ou dependência do Fundo Constitucional, para operar uma frente democrática em 2022, aglutinando amplos setores democráticos e representativos da sociedade.”