Walter Marques (à direita na foto), ex-presidente da Associação dos Moradores da Vila Cahuy, é o novo chefe-de-gabinete da administração regional do Park Way. Ele é visto como a pessoa chave para os projetos do distrital Hermeto (à  esquerda na foto). Foto:Arquivo pessoal/Facebook.

O principal ponto de conflito entre Poder Público local e os Moradores do Park Way é a preservação ambiental e urbanística do bairro. Inserida na Biosfera do Cerrado e na Apa Gama-Cabeça-do Veado, a região tem sido alvo da cobiça especulativa, seja ela patrocinada por grileiros, seja por lobbyes imobiliários para o seu adensamento populacional. A comunidade é contrária a regularização de áreas griladas.

 

Por Chico Sant’Anna

 

A relação entre a comunidade do Park Way e o deputado distrital Hermeto, que já não era boa, piorou com a nomeação de um novo chefe-de-gabinete para a administração regional do bairro. O designado, Walter Marques Siqueira de Lima, é pessoa de íntima confiança do distrital, agora envolto em denúncias de supostas violações da Lei Maria da Penha e supostas práticas de “rachadinhas” com os servidores de seu gabinete na Câmara Legislativa. Ex-presidente da Associação dos Moradores da Vila Cahuy, Walter Marques é visto como a pessoa chave para os projetos do distrital em regularizar áreas invadidas e griladas. Hermeto preside a Comissão de Assuntos Fundiários da Câmara Legislativa e teria como meta a regularização de invasões promovidas por grileiros, dentre elas a chamada Ipê-Coqueiros, nos fundos da Quadra 13 do Park Way, e em áreas nos fundos da Base Aérea de Brasília, próxima à quadra 25.

Um detalhe que chama a atenção nessa nomeação é o fato de que Valter Marques era assessor no gabinete do parlamentar, enquadrado na referência salarial CL 07, que representa pouco mais de R$ 7,2 mil. Agora foi lotado na administração regional, referência CNE 05, equivalente a R$ 6,5 mil. Como é servidor público de carreira, ele ainda faz jus ao salário da origem e parte da gratificação do órgão de destino. Sendo tão próximo do distrital, porque seria penalizado com uma redução nos seus vencimentos? Teria sido ele, encarregado de uma missão, tarefa, pelo amigo?, indagam moradores do Park Way.

“O pessoal tem que entender que este grupo do Hermeto transformou em feudo político a Administração do Park Way e a Administradora está a serviço dele” – analisa José Joffre Nascimento, ex-administrador do bairro.

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Em representação ao Ministério Público, o Conselho de Segurança do Park Way – Conseg Park Way classifica de “esdrúxula” a nomeação de “representante de área irregular”. Para o presidente do Conseg, Marcelo de Carvalho, a iniciativa não colabora para minorar a sensação de medo, decorrente das invasões de áreas ambientais. Isso “pode trazer consequências ao combate de irregularidades fundiárias, sendo flagrante ato inoportuno e inconveniente”, sendo “difícil supor uma resposta plausível e coerente, como é exigido normativamente, daquele órgão “administração regional)” – disse ele.

Walter Marques não é o primeiro representante de entidade de invasores de áreas públicas a ser nomeado para aquela administração. No dia 12 de agosto, Ibaneis nomeou para a Diretoria de Aprovação e Licenciamento, da Coordenação Executiva, da Administração Regional, Ivani Macedo Rodrigues de Abreu. Na ocasião, ela era a presidente da Associação dos Moradores de Invasões da Área Verde da Quadra 601 do Recanto das Emas – Asmiv. Ou seja, a pessoa que representa os interesses dos invasores de uma área no Recanto das Emas iria gerir uma área sensível e estratégica no Park Way. Diante da gritaria dos moradores, ela foi exonerada.

O cargo de chefe-de-gabinete nas administrações regionais são cargos estratégicos, funcionam como se fosse um gerente de toda a administração e nos casos de ausência do administrador, normalmente quem é designado a responder pelos trabalhos é o titular da chefia-de-gabinete.

Invasões e proteção ambiental

Criador de cães American Bull – espécime de “personalidade forte”, de origem norte-americana, fruto de uma mistura entre o American Pit Bull Terrier e American Staffordshire Terrier – Walter Marques é ex-presidente do sindicato dos Servidores da Carreira Socioeducativa do Distrito Federal (Sindsse/DF). Os servidores da carreira socioeducativa são responsáveis pela guarda, vigilância, acompanhamento e segurança dos adolescentes em cumprimento de medidas socioeducativas.

Marques é uma pessoa com trânsito fácil nos gabinetes do poder do Distrito Federal. Em seu perfil nas redes sociais é possível encontrar fotos suas com personalidades públicas dos mais variados matizes.

Marques é uma pessoa com trânsito fácil nos gabinetes do poder do Distrito Federal. Em seu perfil nas redes sociais é possível encontrar fotos suas com personalidades públicas dos mais variados matizes, como o ex-governador Rodrigo Rollemberg (PSB), Rogério Rosso (PSD), os distritais Reginaldo Veras (PDT), Wasny de Roure (então PT) e os senadores Cristovam Buarque (Cidadania), Hélio José (Pros) e Reguffe (Pode).

Nas eleições de 2018, Walter Marques chegou a lançar sua candidatura pelo Pros a deputado distrital, mas desistiu de concorrer antes do pleito.

Nas eleições de 2018, chegou a lançar sua candidatura pelo Pros a deputado distrital, tendo desistido antes do pleito. Nas redes sociais é possível encontrar fotos deles com o então senador Hélio José (Pros), que perdeu as eleições para deputado federal, em 2018.

Localizada nos fundos da quadra 13 do Park Way, a invasão Ipê-Coqueiros vem recebendo melhorias por parte da Administração Regional do Park Way, mesmo não sendo uma ocupação irregular.

Conflito

O principal ponto de conflito entre Poder Público local e os Moradores do Park Way é a preservação ambiental e urbanística do bairro. Inserida na Biosfera do Cerrado e na Apa Gama-Cabeça-do Veado – por onde correm 1/3 das águas que chegam ao Paranoá -, a região tem sido alvo da cobiça especulativa, seja ela patrocinada por grileiros, seja por lobbyes imobiliários para o seu adensamento populacional. A comunidade é contrária a regularização de áreas griladas.

Os questionamentos se referem também à não execução de emendas parlamentares obtidas pela comunidade para aprimoramento da urbanização. São cerca de R$ 2 milhões para calçadas, pavimentação, canalização de córregos e câmeras de segurança. O ano está acabando e não tem tido inciativas concretas para implementar as emendas. São grandes os riscos de se perder a dotação orçamentária, com a virada do ano. Por outro lado, atividades da administração tem sido verificadas em áreas irregulares, ocupadas pela ação da grilagem.

Nas redes sociais, a Administração do Park Way divulga serviços de terraplanagem na Ipê-Coqueiros, área de ocupação irregular. Enquanto isso, emenda parlamentares para serviços de urbanização no Park Way não são executadas.

Recentemente, moradores se indignaram, quando da divulgação, pela administração do Park Way – que tem nova titular desde 11 de setembro, Aline Gomes de Farias -, de propaganda de realização de obras de terraplanagem na invasão Ipê-Coqueiros.

Embora seja um bairro de classe média alta e com elevadas taxas de IPTU, o Park Way é carente em urbanização. Faltam calçadas, iluminação pública e redes de energia são inadequadas. É rotineira a reclamação quanto à qualidade da água servida à população e as linhas de ônibus se limitam a poucas frequências.

Em termos imobiliários, a Vila encontra-se em posição privilegiada. Na Saída Sul,, próxima ao Aeroporto, Lago Sul e Plano Piloto. Entretanto, decorridos tantos anos, até hoje não foi regularizada e uma das razões são as expansões verificadas sobre a Área de Proteção Permanente do córrego do Riacho Fundo.

Vila Cauhy

Em área contígua à divisa da poligonal do Park Way, a Vila Cauhy está oficialmente dentro do Núcleo Bandeirante, mas seus ocupantes utilizam nomenclaturas para o endereçamento local que remetem às do Park Way, criando uma certa confusão, até para os carteiros.

A área está compreendida entre a via Epia-Sul e o córrego do Riacho Fundo. Parte dela era formada por veredas e por isso está dentre as áreas de riscos em período de chuvas intensas. A outra parte, mais alta, foi concedida, em 1961, ao Clube de Regatas do Guará. O campo de treinamento de futebol foi denominado Colina do Lobo. Até hoje, o clube tem o lobo guará como símbolo.

Em 2014, entre um turno eleitoral e outro, a exemplo do que ocorreu nas Chácaras Santa Luzia, na Estrutural; a Vila Cahuy, no Núcleo Bandeirante, se expandiu intensamente até às margens do córrego do Riacho Fundo, com lotes sendo vendidos entre R$ 60 mil e R$ 80 mil, cada um. Tudo nas barbas das autoridades que, passados três anos, nada fizeram.

Em 1995, o Clube vendeu ao empresário, Sérgio Naya, já falecido. No local, pretendia fazer algo semelhante ao que foi feito no terreno do antigo estádio do Pelezão, que deu lugar a um condomínio residencial de grande porte. Mas o destino atrapalhou os planos de Sérgio Naya. Em 1998, se deparou com o desabamento no Rio de Janeiro, o Edifício Palace II, relata o arquiteto Pedro Ernesto Barbosa.

Sérgio Naya faleceu posteriormente e desde então o espaço foi sendo ocupado e fracionado irregularmente. Em 2014, entre um turno eleitoral e outro, a exemplo do que ocorreu nas Chácaras Santa Luzia, na Estrutural; a Vila Cahuy, no Núcleo Bandeirante, se expandiu intensamente até às margens do córrego do Riacho Fundo, com lotes sendo vendidos entre R$ 60 mil e R$ 80 mil, cada um. Tudo nas barbas das autoridades que, passados cinco anos, nada fizeram.

A partir de 2007, no governo de José Roberto Arruda, tiveram início tentativas de regularização da área. Em 2011, os trabalhos foram paralisados por conta de “inconsistências” nos estudos de impacto ambiental.

“Essa grande confusão entorno da regularização fundiária tem colocado a Vila Cauhy como refém do clientelismo e da politicagem” registra Pedro Ernesto Barbosa, no trabalho acadêmico Plano de Bairro da Vila Cauhy Vol.01. E nessa temporada de 2019, a vez das promessas de regularização parece recair sobre Hermeto, segundo relatam moradores.

A ocupação desordenada da Vila Cahuy não respeita o distanciamento mínimo das margens do Riacho Fundo, colocando em risco as próprias pessoas que lá moram.

Local Privilegiado

Em termos imobiliários, a Vila encontra-se em posição privilegiada. Na Saída Sul,, próxima ao Aeroporto, Lago Sul e Plano Piloto. Entretanto, decorridos tantos anos, até hoje não foi regularizada e uma das razões são as expansões verificadas sobre a Área de Proteção Permanente do córrego do Riacho Fundo.

Em 2017, a Vila Cahuy foi inundada no período das Chuvas. A área ainda está na relação de risco da Defesa Civil.

A ocupação chegou às margens do córrego, não respeitando o distanciamento legal e há até lava-jato que retira água do córrego e depois de lavar os veículos retorna a água poluída com óleo, graxa e outras substância para dentro do córrego. A Polícia Militar Ambiental do DF já realizou diversas operações no local sem êxito em evitar a ocupação.

A Defesa Civil do DF insere a Vila Cauhy na relação de áreas de risco ambiental. No período das chuvas, dependendo do nível do Riacho Fundo, pelo menos 100 moradias correm risco de inundação e desabamento.

E tudo isso, acontece no quintal das administrações do Núcleo Bandeirante e do Park Way, ambas, ao lado da Candangolândia, todas sob o controle político do distrital.