A sensação de muitos é que este ano está chovendo mais do que antes, mas é falsa essa percepção. Os número mostram que a chuva chegou tarde em 2019 e em menor quantidade. Foto de Viviane Doná Sol.

São Pedro fechou a torneira e nova crise hídrica não está fora do horizonte. Se até março a água que vem dos céus vier em quantidade inferior ao volume que sai pelas torneiras dos brasilienses, a situação vai se complicar. Autoridades trabalham com a perspectiva de que a captação da Barragem de Corumbá 4, prometida para abril de 2018, entre em operação no próximo ano, mas tem na manga a ampliação da captação de água do Paranoá, hoje em 700 litros por segundo, podendo chegar a 2.800 litros.

 

O brasiliense tem experimentado nesse fim de ano fortes chuvas, tempestades de raios, ventanias, alagamentos, mas não se engane, novembro de 2019 registrou o menor nível de precipitação já verificado desde 2012. O alerta é do ambientalista Eugenio Giovernardi. Para que se tenha uma ideia, em todo o mês que acaba de passar, caíram para 143,3 litros por metro quadrado, contra 412,3 litros, no ano de 2018. Ao longo dos onze meses no ano choveu menos 881,5 litros por metro quadrado. Essa é a quantidade de chuva que precisaria cair em dezembro para que nesse ano tivéssemos o mesmo desempenho do ano passado e afastar qualquer risco de abastecimento. A Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento do Distrito Federal – Adasa reconhece que o volume de chuvas desse ano até aqui tem se apresentado menor, mas não tanto quanto os números de Giovernardi. De setembro a novembro, dependendo da localidade do DF, a quantidade de chuvas seria de 20% a 40% abaixo da média.

Um mapa das chuvas elaborado pela Adasa demonstra que, salvo em três áreas pontuais (as na cor azul), em todo o Distrito Federal o volume das chuvas de novembro foi menor do que a média apurada de 1979 a 2017. Quanto mais escura a cor bege, mas grave é a falta de chuva.

Pelos dados de Giovernardi, os níveis de novembro desse ano são ainda menores do que os verificados no mesmo mês em 2014, 2015 e 2016, anos em que o baixo volume de chuvas levou o brasiliense a experimentar pela primeira vez o racionamento d’água, que durou 513 dias, atormentando a vida de milhões de pessoas entre janeiro de 2017 e junho de 2018, além de criar a necessidade de se retirar água do Lago Paranoá para o consumo humano.

Segundo o diretor da Adasa, Jorge Werneck, Doutor em Hidrologia, a grande mancha urbana do DF tem seu abastecimento bem equacionado e não haveria risco de racionamento para os setores abastecidos pelos reservatórios de Santa Maria, Descoberto e também do Lago Paranoá. O problema maior são as localidades abastecidas por sistemas independentes e não interconectados, como Planaltina, Sobradinho e Brazlândia.

Os dois lados reconhecem que as chuvas de 2019 chegaram mais tarde do que o tradicional. Isso levou a dificuldades pontuais no abastecimento. Em outubro, a Caesb teve que adotar um Plano de Restrição para o Sistema de Abastecimento de Água na região de Sobradinho e Planaltina, atendida pela Bacia do Pipiripau. Esta tem menor capacidade de armazenamento do que os principais reservatórios do Distrito Federal. Em relação a esses, Werneck afirma que estão em situação acima do projetado. Em 2 de dezembro, os níveis dos reservatórios eram de 62,6% de sua capacidade para a Barragem do Rio Descoberto e a de Santa Maria, 84,6%. Ressalte-se, que o brasiliense voltou a consumir muita mais água e que a cada ano, a população tem aumentado em 40 mil pessoas.

Werneck diz que a situação preocupa e tudo vai depender do regime de chuvas até março. Se a chuva que cair compensar a queda verificada de setembro a novembro o risco de um novo racionamento está afastado. O risco é Brasília apresentar uma nova sequência de baixo volume de chuva, como ocorrido entre 2014 e 2016. Se a água que vem dos céus vier em quantidade inferior ao volume que sai pelas torneiras dos brasilienses a situação vai se complicar. As autoridades trabalham com a perspectiva de que a captação da Barragem de Corumbá 4, prometida para abril de 2018, entre em operação no próximo ano, mas tem na manga a ampliação da captação de água do Paranoá, hoje em 700 litros por segundo, podendo chegar a 2.800 litros. Além disso, cobra da Caesb a efetiva interligação dos diversos sistemas de abastecimentos, para que as áreas mais isoladas não fiquem dependendo de captações de baixa e média produção.

Publicada originalmente na coluna BRASÍLIA, POR CHICO SANT’ANNA, no semanário Brasília Capital.

Reflorestamento

Se os céus estão molhando menos, a solução está na terra. Segundo Giovernardi, políticas de reflorestamento e de proteção à vegetação nativa são pontos essenciais de um novo e necessário paradigma ambiental para urbanização e agricultura sadias. “Mutilamos o passado geológico, geográfico, florestal e animal do bioma que nos acolhe. Políticas de reflorestamento e de proteção à vegetação nativa são pontos essenciais de um novo e necessário paradigma ambiental para urbanização e agricultura sadias” – alerta o ambientalista. Lembremos que grande parte da água consumida no quadrilátero do Distrito Federal é usada pelo agronegócio candango, que copia modelos econômicos como se tivéssemos grandes áreas rurais e caudalosos rios como em outros Estados da Federação.

“Dependemos rigorosamente da chuva e não sabemos coletá-la para a regeneração da vegetação e a realimentação dos mananciais. As chuvas, além de irregulares, são localizadas, dependendo das correntes desencontradas de ventos. O destino das águas são vários: Bacia do Prata, do Velho Chico e Tocantins. É esse sistema de drenagem que os nossos ecologistas do governo não compreenderam. Daí a necessária pluralidade de captação de águas pluviais no campo e na cidade” – diz Giovernardi. A construção de gigantescos tanques para armazenar água da chuva (como foi feito no Japão), a proteção das nascentes e o reflorestamento do DF são medidas apontadas Geógrafo Aldo Paviani. É importante lembrar que o represamento do Rio São Bartolomeu, nas imediações da região dos condomínios, ainda é viável, embora em dimensões menores do que foi pensando nos anos de 1970. A Adasa, contudo, diz que hoje a construção de reservatórios de regularização não é prioridade e que a Barragem do São Bartolomeu é uma opção, mas para o futuro.

“Temos que reflorestar o que o fogo e a insânia de construir destruíram do Bioma Cerrado. Começamos a destruir o bioma em 1956 e continuamos com a mesma fúria até hoje contra ele” diz Giovernardi, fazendo referência a projetos urbanísticos como a Cidade Urbitá, em Sobradinho; as Quadras 500, do Sudoeste; e o Quinhão 16, no Jardim Botânico. “Tudo isso são demonstrações de que não conhecemos, nem compreendemos a natureza que nos alimenta.”

Ombreando o ambientalista, Aldo Paviani cobra das autoridades e acusa a Câmara Distrital de não estar atenta aos grandes problemas do DF e de seu colar metropolitano (os 12 municípios goianos próximos) e o GDF de só focar se preocupar só com viadutos, pontes e tesourinhas. “Na atual marcha, em 30 anos, o que sobrará será um território desértico que nossos pósteros terão.” Segundo a Adasa, Brasília cresce a razão de 40 mil a 60 mil pessoas ano e que soluções de moradia precisam ser pensadas. Que o projeto Urbitá foi limitado a 10% da sua capacidade populacional e que o restante ficará pendente de soluções de abastecimento d’água. “Mas grave – diz Werneck – são os aglomerados urbanos que surge do dia pra noite com invasões e grilagens, sem qualquer planejamento.

Pelo sim, pelo não, é melhor o brasiliense voltar a fechar a torneira e reduzir seu consumo d’água.