Elas estão por todas as partes. Lago Norte, Brazlândia, Park Way e Candangolândia são, contudo, as cidades onde elas mais aparecem nas áreas urbanas.

Por Chico Sant’Anna

 

O ano de 2019 acabou e a Polícia Ambiental do DF começa a fazer suas contabilidades. Um primeiro número já é conhecido: 646 cobras foram resgatadas em instalações urbanas. Lago Norte, Brazlândia, Park Way e Candangolândia são as localidades em que mais elas gostam de visitar as residências.

E são as jiboias e as jararacas as mais passeadeiras, mas também tem aparecido cascavéis, falsa coral, coral verdadeira e a corre-campo. Por sinal, em maio desse ano que terminou, um técnico de telefonia quase morreu de susto ao abrir um armário de telefonia. Ao lado de cabos, plugues e conectores de telefonia havia, não  uma serpente, mas  um verdadeiro serpentário. Uma família inteira de cobras da espécie corre-campo curtia o aconchego do espaço. Foi necessário chamar a PM Ambiental para retirar todas elas.

Para mais detalhes sobre esse resgate, leia:

Os locais que elas escolhem são os mais curiosos. Já teve cascavel resgatada na Granja do Torto, onde se localiza a residência presidencial de verão e até uma falsa-coral em hotel 5 estrelas às margens do Lago Paranoá.

No último dia de 2019, a PM Ambiental do DF resgatou na quadra 11 do Park Way, uma cobra falsa-coral.

No Park Way não raro são encontradas jiboias, em decorrência da grande quantidade de nascentes e córregos d’água.

A última cobra regatada em 2019, foi uma falsa coral que estava no Conjunto 3, da Quadra 11 do Park Way. Os militares levaram-na ao Centro de Triagem de Animais Silvestres do Ibama – Cetas. Depois de examinada será reintroduzida na natureza.

Veja no vídeo o resgate da Falsa Coral 

Veneno

A verdadeira cobra coral destaca-se pela coloração bastante característica, formada por anéis pretos, vermelhos, brancos e amarelos. Os especialistas denominam essa coloração de aposemática ou coloração de aviso. Ela indica perigo e aparece geralmente em animais venenosos. Esse padrão de cores é frequentemente copiado por uma espécie conhecida como falsa-coral, um grupo de serpentes não peçonhento que, ao copiar a cor da coral-verdadeira, espera afugentar predadores. Nas Américas, existem pelo menos 52 tipos diferentes de falsa-coral: Dipsadidae (49 espécies), Colubridae (2 espécies) e Aniliidae (1 espécie). Todas elas mimetizam as cobras-corais:

Entretanto, é errado dizer que a falsa-coral não é venenosa. Esse é um grande equívoco. Nessas espécies, os dentes responsáveis por inocular o veneno estão localizados na parte de trás da boca, dificultando que a substância seja inoculada no momento da picada. Nas corais-verdadeiras, as presas ficam na parte da frente e, portanto, a inoculação do veneno ocorre mais facilmente.

Cobra Capim, Liophis maryellenae, é uma serpente tradicionalmente endêmica do Cerrado, ocorre em geral em ambientes úmidos, como veredas e campos úmidos, onde alimenta-se de peixes e anfíbios, que caça durante o dia. Parque Nacional das Emas, Goiás. Foto: Cristiano de Campos Nogueira

Serpentes em extinção

Pelo menos, 158 espécies de serpentes são conhecidas em áreas de cerrado no Brasil, mas estudo científico revela que muitas estão em estado de extinção. Isso se deve à devastação paulatina do bioma Cerrado, seja para  abrir espaço para pastos e plantações, seja em decorrência da expansão urbana. O alerta está no livro “Serpentes do Cerrado – Guia Ilustrado”, de autoria dos pesquisadores Cristiano Nogueira, Otávio Marques, André Eterovic e Ivan Sazima, recentemente lançado pela Holos Editora.

A Cobra Capim, Liophis maryellenae, é um exemplo de serpente endêmica do Cerrado que se encontra em estado vulnerável de preservação. Ela ocorre em geral em ambientes úmidos, como veredas e campos úmidos.

Sobre a extinção de cobras no cerrado, leia

Saruês

Embora o número de cobras seja grande, são os saruês, os que mais dão trabalho à Polícia Ambiental. Esses animais pertencem a família dos marsupiais – como os coalas e cangurus – pois trazem uma bolsa externa ao ventre, na qual abrigam seus filhotes a partir do primeiro mês. Ali se dá a conclusão do desenvolvimento do filhote, até ele poder se desligar da mãe. Os saruês são muito importantes para o controle de insetos, em especial os escorpiões, que tanto tem assustado os brasilienses. Por isso, o comandante da Polícia Ambiental, Major Souza Junior, alerta para que não machuquem os saruês.