Em 2014, TT Catalão se juntou ao movimento Nós que Amamos Brasília, que se opunha às mudanças urbanísticas do projeto de Lúcio Costa para o Plano Piloto de Brasília. Foto de Chico Sant’Anna.

Por Chico Sant’Anna

Hoje foi dia de se despedir do Vanderlei. De quem? Do TT, TT Catalão.

Vanderlei, na verdade Vanderlei dos Santos Catalão, era como seu nome aparecida nas listagens de filiados do Sindicato dos Jornalistas do DF – do qual ele foi diretor – e que em época de eleição tomávamos como base para ir cabular votos e nem sempre os nomes de guerra, praticados nas redações, eram os nomes formais que apareciam nos dados cadastrais dos que iam votar.

Amigo jornalista de longa data. Quando comecei no Jornalismo, TT já era um referencial de profissão e caráter, além de uma criatividade impar. “Pode até não mudar a situação, mas altera sua disposição”, dizia ele na mensagem “Desabafo”, fixa até hoje na coluna Sr. Redator, do Correio Braziliense, onde são publicadas as cartas dos leitores.

A despedida foi no berço da cultura de raiz candanga, o Teatro Galpão – desculpem-me, mas não me acostumo em falar Espaço Cultural Renato Russo. O local não poderia ser mais apropriado.

O Galpão surgiu para Brasília de forma contemporânea à participação de TT na vida da cidade. Quis o destino que coubesse ao próprio TT, em 1993, a transformação do Teatro Galpão (e do Galpãozinho) no espaço espaço cultural que é hoje. Uma iniciativa dele, quando trabalhou na secretaria de Cultura. Como homenagem, a biblioteca de gibis do espaço – uma das iniciativas de Catalão – receberá o nome do jornalista.

Vindo do Rio de Janeiro nos anos 70, deixou sua marca na Cultura Candanga e até na brasileira. Em 1989, foi eleito o primeiro presidente do Conselho Cultural do DF. Era um artista das múltiplas ferramentas: poeta, jornalista, letrista, músico e ativista cultural. Até no filme A Idade da Terra, de Glauber Rocha, ele apareceu. Uma sensibilidade extraordinária para a fotografia que, mais recentemente, ele manipulava artisticamente, com uso da informática, para criar uma espécie de poesia concreta pós-modernista, que difundia pelas diversas redes sociais.

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O mundo da cultura local era pequeno para a grandeza de TT. E foi como integrante das equipes de Gilberto Gil e Juca Ferreira, no Ministério da Cultura, que ele levou ao Brasil o Programa Cultura Viva.

Ir a despedida de amigos nunca é fácil. Mas o adeus a TT apresentava uma atmosfera mais leve. Pelo espaço cultural passaram amigos, músicos, poetas, acadêmicos da UnB, políticos, representantes dos povos indígenas e das religiões de matrizes africanas.

A grande maioria portava nessa sexta-feira trajes brancos. Na cultura ioruba, o uso da cor branca além de representar a pureza e resguardar os filhos dos Orixás de coisas ruins, é também usada em sinal de respeito à importância hierárquica. TT foi o mestre de muitos que ali estiveram

Com a sua arte, TT Catalão mostrou sua oposição ao PPCUB

Música, poesia, saudações… todos exaltavam o papel fundamental de TT Catalão para Brasília, seu jornalismo, sua cultura, pros brasilienses como um todo. TT era um incansável.

TT Catalão não tinha filiação partidária, mas tinha lado. Era o militante mais aguerrido que poderia se encontrar. Militava contra as injustiças sociais, militava em defesa da cultura, em especial a de raiz, como aquelas de matriz africanas e as do interior do Nordeste. Assumiu como se fosse um garotão a luta pela preservação de Brasília, a defesa do projeto de Lúcio Costa, e se somou à legião que combateram a proposta do PPCUB elaborada na gestão Agnelo Queiroz e que, na visão dele e de muitos outros brasilienses, era considerada grave mutilação à proposta de Lucio Costa.

Em 2014, em uma viagem minha ao mundo eleitoral, fui surpreendido com o carinho e o apoio de TT. Em card com sua foto, TT dizia que Brasília estava sitiada e que votaria em mim pois eu não temia enfrentamentos e que possuía “a capacidade de conjugar política em tom maior”. Seu carinho pelos amigos era uma marca.

Nos últimos sete anos, TT Catalão contribuiu para esse blog com 125 peças de crítica social.

Carioca da gema era o candango mais candango de todos. Em seus textos, poemas e, mais recentemente, em suas montagens de imagens, criou uma linguagem própria. Dali brotava a crítica social sobre o tema que mais lhe indignava na atualidade.

Há cerca de sete anos esse blog leva ao público os trabalhos de TT, uma espécie de poesia concreta, mesclada de charge e ironia. O protesto dele ao que não concordava, ao que lhe indignava. O uso de trocadilhos, como “vamos dar os nomes aos boys”, era uma constante. Pelo seu permanente caráter de indignação,  o blog denominou essa contribuição de Foto-protesto de TT Catalão. Foram 125 peças, todas fortes, sérias, que puxavam a orelha dos insensíveis.

Chamou-me a atenção – e de muitos leitores – o Foto-protesto por ele elaborado para o Natal passado.

A viagem de Maria e do Menino Jesus, fugindo do Egito, se mesclava com a dura lida de retirantes, de migrantes, de desplazados – como dizem os castelhanos, ao se referirem às pessoas, às família que são obrigados a se deslocarem para um mundo desconhecido, pois sobreviver onde é conhecido não mais é possível. E sobre uma cena de retirantes delimitados por arame farpado, TT dizia: “a criança imigrante em busca de abrigo quer nascer para reinventar o mundo contigo”.

TT certamente reinventou nossa Brasília. No jeito dela ser, no jeito dela se expressar, na sua capacidade de se indignar com aquilo que não é certo.

o ano só será novo
se a gente quiser
o ano só será outro
se a gente fizer

E em sua última postagem no blog, ele indagava: “O que fazer pro ano ser novo?” E ele mesmo respondia: “O ano só será outro se a gente fizer. Em 2020, não desista do Brasil; Não desista de você.”

Aos 71 anos, TT produzia como um garoto. Não havia desistido, nem mesmo diante das dificuldades do câncer que lhe abatia. Uma hepatite fulminante e insuficiência renal nos privaram de seu convívio, da sua inteligência e da sua criatividade, tão necessárias nos dias em que vivemos.

Como tantos outros gênios que por aqui passaram, TT deixa suas raízes e marcas em nossa Brasília. Cabe a nós seguir seu último conselho:

“O ano só será outro se a gente fizer”.

Axé, TT!