Imóveis que abrigaram técnicos e engenheiros para a construção de Brasília são ruínas apodrecidas na Vila Planalto. Não só as estruturas, mas também a memória da cidade se esvai com o tempo. Nenhuma das duas é preservada. Foto de Leiliane Rebouças.

Atualmente mais de 50% dos residentes do DF nasceram aqui mas o vínculo com o “lugar” é diminuto. Ainda estamos em construção de uma cultura brasiliense que seja enraizada na formação da nossa sociedade – alerta o professor Urani Jefferson.

Por Chico Sant’Anna

Brasília completa em abril 60 anos. Em termos da história da humanidade, a cidade ainda engatinha. Para a memória dos que aqui chegaram nos primeiros momentos, uma eternidade. Já virou, infelizmente, lugar comum dizer que a cidade perde sua identidade, perde sua originalidade enquanto proposta urbanística, perde seu verde para o avanço da especulação imobiliária, perde enquanto patrimônio histórico. Prova maior desse abandono, em apenas seis décadas, é a situação das últimas casas de madeira, remanescentes da Vila Planalto. A imprensa muito bem retratou o abandono em que se encontram estruturas que fazem parte desse pouco mais de meio século de existência.

Mas não são só os elementos físicos – monumentos, cerrado, planejamento urbano, equipamentos comunitários – que estão desaparecendo. A memória em forma de história também se evapora. Os pioneiros que aqui chegaram adultos antes da inauguração ou momentos após já são poucos. Restam os pioneiros que chegaram crianças ou que nasceram ainda na poeira do Planalto Central. Esses, também, já estão ficando idosos. Já são tão raros que pessoas que chegaram nas décadas de 70 e 80 se sentem, digamos assim, pioneiros da segunda leva. Assim, a epopeia do que foi construir a cidade no meio da jungle – como gostavam de retratar os jornalistas estrangeiros – vai se dissipando. Brasília não está sabendo preservar o projeto inovador de Lúcio Costa e também não se preocupou em preservar a memória do lado humano dessa cidade.

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A cidade não possui um espaço que possa ser chamado verdadeiramente de Museu Vivo da História Candanga. O que existe nas imediações do Setor de Postos e Motéis da Candangolândia, assim como a nossa memória, se corrói com o apodrecimento das madeiras.

Memória

Resta preservar a história contada, já que são poucos os livros que registram o nosso cotidiano após abril de 1960. Nossas escolas, públicas e privadas, são incompetentes em repassar para as novas gerações todo esse processo histórico. O que se ensina aqui no Distrito Federal sobre Brasília é praticamente o mesmo que se ensina em Manaus ou Porto Alegre: uma visão estadista, oficial da transferência da Capital. E mesmo assim, é um ensino falho. Omite por exemplo, as iniciativas de Getúlio Vargas e Eurico Gaspar Dutra. Os trabalhos da Missão Poli Coelho em 1946, comandada pelo geógrafo francês Alain Ruellan – nomeado por Vargas diretor do IBGE – são desconhecidos da quase totalidade dos brasilienses, inclusive daqueles melhores informados.

Consolidação da Cidade

A consolidação da cidade, a transformação do traço de grafite no papel manteiga em realidade concreta é esquecida. Sequer têm ideia de que no início mesmo, nem abastecimento local de material de construção existia. Construtoras se viravam para elas mesmas produzirem brita, areia, tijolos e brigar pelos carregamentos de cimento e ferro que só chegavam até Anápolis. Nossos livros de História não contam isso. Muito menos o nascimento das cidades, outrora satélites.

A criação da Ceilândia, a partir da erradicação de invasões no início da década de 1970, é desconhecida da grande maioria dos atuais jovens moradores da cidade. Foto: Arquivo Público do DF.

Pergunte a um adolescente da Ceilândia se ele ouviu falar no Movimento dos Incansáveis da Ceilândia.

Ou a alguém do Núcleo Bandeirante, se ele conhece a carga que Jânio Quadros fez para extinguir a Cidade Livre.

Logo após a inauguração de Brasília, Jânio Quadros, em sua curta gestão, fez de tudo para erradicar a cidade Livre. Chegou a transferir moradores para a Asa Norte. O Núcleo Bandeirante, contudo, resistiu.

Mesmo a origem ou a razão dos nomes de nossas cidades, muitos desconhecem. Falar mal da Câmara Legislativa, muitos fazem fácil. Contar a bravura de enfrentar a Ditadura Militar para alcançar a autonomia política poucos conseguem. Até a Ponte Honestino Guimarães foi cassada. Tancredo Neves, certa vez afirmou que conhecia muitos brasileiros cassados de seus direitos políticos, mas uma cidade inteira, só Brasília. E Brasília está sendo cassada agora pela omissão em não repassar as novas gerações o que essa cidade representa efetivamente.

“Os poucos livros didáticos sobre esse assunto, em sua grande maioria, são produzidos por autores de fora do DF e sem uma pesquisa aprofundada e/ou trazendo informações superficiais ou equivocadas sobre a nossa história” – alerta o professor Urani Jefferson.

Quem deveria estar preservando essa rica história, seus personagens e criando essa identidade candanga deveriam ser as escolas. Em especial as da Rede Pública. O Ensino da História e Geografia do DF e da Região Integrada de Desenvolvimento do Entorno (Ride) faz parte do conteúdo programático a ser ministrado no 4º ano do Ensino Fundamental e no 2º ano do ensino médio. “Muitas vezes ele não é trabalhado com a ênfase necessária, principalmente por falta de uma maior valorização a nossa história” – explica o professor Urani Jefferson, há 27 anos lecionando na rede pública. “Para os adolescentes do nível médio é muito pouco, para eles o foco é o PAS e ENEM para a Universidade” – complementa Ângelo Balbino, que leciona no Gama e Santa Maria. Ai quem sabe a receita para se estudar mais Brasília, bastaria a Universidade de Brasília inserir esse conteúdo como conteúdo dos exames.

Por enquanto, ” ‘identidade do Distrito Federal’ e ‘Conhecer a história de Brasília, curiosidades e a história de vida de pessoas que constituem esse contexto’ são, em tese, itens constantes no currículo da educação infantil. “No 2º ano do ensino fundamental por exemplo tem “Conhecer espaços culturais de Brasília com promoção ao sentimento de pertencimento à cidade, mas não posso garantir que seja bem trabalhado” -” esclarece o professor de História, Agnelo Balbino.

Segundo o ex-secretário de Educação, Rafael Parente, o GDF não desenvolveu a produção de um material didático que atenda às necessidades de contar e preservar a história de Brasília e assim ajudar a construir uma identidade brasiliense, um pensamento crítico sobre o que acontece na cidade à luz de parâmetros históricos. A avaliação de quem está na ponta, em sala de aula é que há livros, mas são livros padrão nacional. O que se ensina em Brasília, se ensina em São Paulo, ou em Maceió. “O foco fica entre 1950 a 1964. Basicamente no Governo Juscelino.” – detalha Balbino, Cada escola, cada professor, segundo Rafael Parente, deve  produzir o seu material didático, mas o professor Balbino cobra a inexistência de um conteúdo específico, na hora de se trabalhar a História de Brasília. “Não há – explica ele – uma livro ou cartilha padrão, com isso ou o professor não trabalha o assunto, as vezes nem lembra, ou tem dificuldade para se virar para conseguir material.”

“Os poucos livros didáticos sobre esse assunto, em sua grande maioria, são produzidos por autores de fora do Distrito Federal e sem uma pesquisa aprofundada e/ou trazendo informações superficiais ou equivocadas sobre a nossa história. Muitas dessas informações equivocadas são reproduzidas em sites oficiais, sites governamentais. Causando mais confusão que esclarecimento” – alerta Urani Jefferson.

Professor Álisson Lopes: “O ensino da História deve ser prático. Portanto quando estudamos algo, ele deve provocar uma consciência crítica e promover o conhecimento”.

Professor Álisson Lopes – brasiliense, filho de pioneiros e docente da secretaria de Educação, ressalta que “o ensino da História somente tem sentido se ele se conectar ao presente.” “O ensino da História deve ser prático. Portanto quando estudamos algo, ele deve provocar uma consciência crítica e promover o conhecimento” salienta.

“Embora tenha sido criado o ‘Currículo em Movimento’ –  que se amolda as comunidades falta mais fomento para que se trabalhe de forma transdisciplinar a História de Brasília, desde dos povos indígenas e outras comunidades que habitavam o local antes da construção, as histórias dos candangos, a miscigenação étnica, a composição populacional e a representação da construção e da transferência da capital do Brasil para o Planalto Central. Isso despertará sentimentos de pertencimento e amor pela cidade.”

Publicada originalmente na coluna BRASÍLIA, POR CHICO SANT’ANNA, no semanário Brasília Capital.

Identidade

“Atualmente mais de 50% dos residentes do DF nasceram aqui, mas o vínculo com o “lugar” é diminuto. Ainda estamos em construção de uma cultura brasiliense que seja enraizada na formação da nossa sociedade” – alerta o professor Urani Jefferson, há 27 anos lecionando na rede pública.

Lopes toca num ponto fundamental. As novas gerações de Brasília não têm o mesmo sentimento das gerações pioneiras. Não há um identidade, um bairrismo, como sente o Gaúcho, o Mineiro ou o Nordestino. “Quando o cidadão não se sente parte do ‘lugar’ tende-se a ter um maior desapego, descuido, menor valorização. Negligencia a própria história e a cidade” ressalta Urani Jefferson.

A identidade brasiliense, que deve ser fomentada pelas escolas a partir do conhecimento, é assim fundamental para a preservação desse que é um Patrimônio Histórico da Humanidade. Se o brasiliense não se conscientiza de sua identidade, se não se indigna com as agressões físicas e morais que são feitas a Brasília, não haverá fiscalização que assegure a preservação de Brasília, seja o lado monumental e ambiental dessa cidade, seja a dignidade dos três milhões que aqui vivem. Continuarão a ser enxovalhados nas redes sociais e, principalmente, pela imprensa dos outros Estados. Esses não sabem diferenciar a Esplanada dos Ministérios, de Brasília. O brasiliense tem a obrigação de saber separar as coisas, defender a cidade que o abrigou.

Além disso, como salienta Urani Jefferson, “conhecer a História da formação da cidade e de nossa gente é fundamental para melhor planejar e executar políticas públicas.” Evitando assim medidas governamentais estapafúrdias que só contribuem para desconstruir o que foi a proposta de Lúcio Costa e de tantos outros pioneiros.