Pesquisadores acreditam que o brasiliense pré-histórico possuía tipo físico semelhante aos indígenas atuais, originários do leste asiático.

 

Por Chico Sant’Anna

Brasília acaba de completar 60 anos de existência, mas muito pouco ainda se sabe sobre a história desse território. Desde o início da república, missões foram organizadas para desvendar o Planalto Central. Desde o belga Cruls, em 1893, o francês Francis Ruellan e o alemão Leo Weibel, em 1947, dentre outras expedições, reviraram essas terras, identificando riquezas, recursos naturais, topografias, vegetações. Tudo minuciosamente pesquisado e anotado para que Brasília fosse feita no lugar certo. Pouco, contudo, se sabe sobre o ser humano que por aqui habitou. Muito antes até mesmo dos portugueses chegarem ao Novo Mundo, por essas matas de cerrado já existia vida inteligente. Conclusão de um minucioso trabalho de arqueologia na região da cidade-satélite do Paranoá atesta que a presença humana no Distrito Federal remonta a 8.414 anos. Esse brasiliense data do período Holoceno, da Idade da Pedra Lascada, e produzia aqui mesmo seus instrumentos e armas necessários à sobrevivência.

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O Entorno do Distrito Federal é rico em vestígios da presença humana. Principalmente a partir de pictogrifos e inscrições rupestres, mas nunca um trabalho científico havia detectado uma presença tão remota dentro do quadrilátero. Essa descoberta se deu numa área alvo de licenciamento ambiental para a implantação de projeto habitacional no vale do córrego Cachoeirinha, no Paranoá, e que, em consequência, acabou batizando o sítio arqueológico Cachoeirinha. Ele é o primeiro que tem a datação realizada cientificamente. “Até então, a estimativa de idade era feita a partir da associação com os tipos de ferramenta encontradas e se concluía que os sítios possuíam entre 4 a 8 mil anos, mas sem datação absoluta” – explica o Geógrafo e Arqueólogo, Edilson Teixeira de Souza, que coordena os trabalhos desde 2017.

Idade da Pedra Lascada

As primeiras indicações de que por ali havia existido a presença humana afloravam no terreno rochosos com marcas de lascamento. Essas marcas foram deixadas pela atividade de fragmentação intencional desses blocos. Numa análise mais aprofundada, o pesquisador também identificou inúmeras ferramentas produzidas em pedra lascadas (vestígios líticos), que foram confeccionadas a partir da exploração desses blocos em tempos pretéritos.

Os vestígios são de grupos caçadores coletores, nômades que vagavam pelas terras em busca de alimentos e que ainda desconheciam a agricultura. “Por isso as ferramentas comumente encontradas desses povos, são aquelas feitas em pedra, mas é claro que faziam em outros materiais, como madeira e ossos, só que material orgânico se perde fácil com todo esse tempo.

Publicada originalmente na coluna BRASÍLIA, POR CHICO SANT’ANNA, no semanário Brasília Capital.

Rosto de influência asiática

Embora não haja trabalhos sobre o biótipo dos homens que habitavam a nossa região, o pesquisador acredita que esse brasiliense pré-histórico possuía tipo físico semelhante aos indígenas atuais, originários do leste asiático, e que sua genética seja dos grupos mongoloides. Dois trabalhos já foram realizados para tentar moldar a face desse grupo étnico que habitavam o Brasil nessa época. Em um trabalho, o rosto foi moldado a partir de dados morfométricos influenciados por uma genética africana, e em outro, mais recente, considerando estudos genéticos (rosto da esquerda na foto) reconstituído a partir da constatação de que essas populações tinham genética asiática como os atuais indígenas brasileiros.

Pelos utensílios encontrados, pode se estimar que esse brasiliense pré-histórico era um caçador e coletor de alimentos. As ferramentas feitas em pedra possuem gumes esculpidos por lascamento, para facilitar o corte ou a raspagem de carne, couro ou madeira. Durante dois anos, os pesquisadores escavaram a localidade e encontraram mais ferramentas e detritos, sobras do fabrico delas em padra lascada. Para Edilson de Souza, a escolha do lugar se deu em decorrência das características naturais. Além da água, a vegetação de Cerrado com uma diversificada fauna e flora, onde praticavam a caça de animais, coleta de frutos sazonais e também a pesca. Não foram encontrados vestígios que pudessem identificar o tipo de abrigos que usavam.

Rota de passagem

Pelo sítio Cachoeirinha devem ter passados inúmeros grupos em distintos períodos, para extrair a rocha local, que era boa para o lascar e confeccionar ferramentas. Entretanto, não foram encontrados vestígios de acampamento ou outro tipo de atividade no local, que pudesse afirmar que por ali uma comunidade tenha se fixado por mais tempo. Essa hipótese não está descartada, mas carece de mais estudos e pesquisas.

Durante as escavações, novas ferramentas foram identificadas juntamente com inúmeros detritos de sua fabricação, demonstrando comprovadamente que no local houve atividade humana pretérita, baseada na utilização dos recursos naturais, no caso a rochas locais. Essas rochas foram utilizadas como fonte de matéria-prima para a fabricação de parte de suas ferramentas cotidianas, assim como não há dúvidas que utilizaram os demais recursos disponíveis no local.

Nas escavações também foram descobertos importantes restos orgânicos (carvão), que estavam associados aos vestígios arqueológicos. Esse material foi cuidadosamente coletado e enviado para um laboratório nos Estados Unidos, para a datação das amostras. O resultado obtido foi uma data de 8.414 antes do presente, revelando a primeira ocupação humana conhecida do Distrito Federal.

Patrimônio desconhecido

No Distrito Federal são conhecidos quase 60 sítios arqueológicos, de acordo com o banco de dados do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Iphan. “Existe uma grande dificuldade em recuperar restos orgânicos associados a esses sítios, devido às condições e composição do solo da região. Esse foi o primeiro sítio arqueológico com datação no Distrito Federal e atualmente representando o mais importante registro pré-colonial localizado na região” – explica Edilson Teixeira de Souza.

Empolgado, ele registra que ele sua equipe foram “agraciados com esse presente e ficamos muito contentes em ter escrito esse importante capítulo da história da arqueologia do Distrito Federal, que será lembrado pelas próximas gerações de pesquisadores como o primeiro trabalho científico que conseguiu datar amostras de carvão recuperadas durante as escavações. E principalmente que conseguiram datar, até o momento a primeira ocupação humana na área do Distrito Federal, inserindo a região no cenário nacional e internacional das pesquisas arqueológicas.”

Falta Museu da História Natural

O grande problema é a falta de um museu de história natural no Distrito Federal. Quando das obras do metrô, outros vestígios foram localizados e encaminhados para Goiânia, onde o Instituto Goiano de Pré-história e Antropologia da PUC Goiás desempenha importante papel. Embora tenha laços com esse organismo, Edilson Souza explica que os achados deverão ser destinados a Universidade de Brasília

Em 2019, Brasília perdeu para o Rio de Janeiro um acervo fenomenal de dois mil insetos, borboletas, libélulas, aranhas e besouros, catalogado aqui no DF, ao longo de 40 anos, pelo biólogo Victor Stawiarski. Vergonhosamente, não temos nem local adequado, nem verbas para manter acervos dessa magnitude e tocar as pesquisas que eles permitiriam. Quase que heroicamente, a professora da UnB, Rosangela Corrêa, tenta fazer vingar o embrionário Museu Arqueológico e Histórico do Planalto Central. Mas essa deveria ser uma missão abraçada tanto pelo governo federal, quanto pelo GDF. Mais importante do que Museu da Bíblia, ou equivalentes, Eixo Monumental deveria abrigar um espaço que reconte a história da brasilidade, do homem brasileiro. A cada novo loteamento, a cada grande nova obra, são descobertos vestígios de uma história ainda desconhecida de todos nós. Temos que melhor conhecer a nossa história natural, para, quem sabe, projetar um futuro mais auspicioso.