Na foto de Ueslei Marcelino, da Agência Reuters, o momento em que Dida Sampaio, de óculos, ao centro, é derrubado da escada em que se encontrava.

Segundo reportagem da Folha, o “Acampamento dos 300” teve entre seus organizadores Evandro de Araújo Paula, lotado na condição de secretário parlamentar no gabinete da parlamentar. Em 2018 ele foi candidato pelo PRP, mesmo partido pelo qual foi eleita a deputada Bia Kicis. Em janeiro desse ano, ele ganhou espaço na mídia por portar uma camiseta com a expressão “Marielle Vive – Enchendo o saco”, abaixo do rosto da vereadora Marielle Franco, Psol-RJ, assassinada no Rio de Janeiro.

 

Por Chico Sant’Anna

A manifestação de bolsonaristas, no último dia 3, que resultou na agressão aos fotojornalistas Orlando Brito e Dida Sampaio, duas referências nacionais da profissão, foi mobilizada por assessores e auxiliares de parlamentares, dentre eles, a deputada Bia Kicis (PSL) do Distrito Federal. A informação é do jornal Folha de São Paulo.

Segundo a reportagem de Renato Machado e Fabio Fabrini, o chamado “Acampamento dos 300” – iniciativa ilegal já que existe decreto proibindo acampamentos na Esplanada dos Ministérios – teve entre seus organizadores Evandro de Araújo Paula, lotado na condição de secretário parlamentar no gabinete da parlamentar, desde 22/02/2019, com remuneração bruta de R$ 5.271,20.

Em janeiro desse ano, Evandro ganhou espaço na mídia por portar uma camiseta com a expressão “Marielle Vive – Enchendo o saco”, abaixo do rosto da vereadora Marielle Franco, Psol-RJ, assassinada no Rio de Janeiro.

Em 2018, ele foi candidato pelo PRP, mesmo partido pelo qual foi eleita a deputada federal Bia Kicis. À Justiça Eleitoral informou, à época, possuir ensino médio e ser estudante, bolsista, estagiário. Obteve 676 votos.

Em janeiro desse ano, Evandro ganhou espaço na mídia por portar uma camiseta com a expressão “Marielle Vive. Enchendo o saco”, abaixo do rosto da vereadora Marielle Franco, Psol-RJ, assassinada no Rio de Janeiro.

Não deixa de ser curioso uma parlamentar, em cujo currículo está a atividade de Procuradora do Distrito Federal, ter em sua equipe quem patrocine ato político considerado ilegal, por conspirar contra o regime democrático, e ainda por cima resultar em agressões a trabalhadores da imprensa. Mais ainda surpreendente é o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, não ter tomado até agora qualquer iniciativa de sanção administrativa em relação a um servidor comissionado da Câmara que atenta contra o próprio Legislativo.

Os dois profissionais de imprensa, que cobrem regularmente a Presidência da República, cumpriam pauta de plantão de fim de semana, de documentar as manifestações. Dida Sampaio, de O Estado de São Paulo, fotografava do alto de uma escada portátil – que lhe permite melhores ângulos – quando dela foi derrubado e depois alvo de agressões físicas.

Orlando Brito, de 70 anos, e décadas de profissão, realizava seu trabalho para o site Os Divergentes, foi igualmente agredido física e verbalmente e quase teve seu equipamento depredado. O Ministério Público e a Polícia Civil do DF investigam o caso, mas é curioso e triste saber que nenhuma iniciativa foi tomada no âmbito da Câmara dos Deputados.

Não houve convite

No dia seguinte aos fatos, emissoras de televisão noticiara, que o presidente Bolsonaro havia convidado Orlando Brito para um almoço. Ele nega. Dia que da rampa do Planalto, o presidente o chamou e foram conversando até o gabinete presidencial sobre o incidente. “Ao lado de 10 ou 12 pessoas que o acompanhavam, Bolsonaro veio falar comigo e perguntou-me se eu havia mesmo sofrido agressão na manifestação de domingo. Eu disse que sim. Narrei o que acontecera. Contei do safanão que levei, que fui chamado de “mídia lixo” e que queriam quebrar minhas câmeras.”

Veja a seguir o restante do depoimento de Orlando Brito

“Ele não se desculpou. Mas disse ser  “impossível controlar a ação das pessoas em uma multidão“. E que não entendia como alguém podia atribuir a ele, Bolsonaro, a autorização para agressões contra quem quer que fosse.

Subimos a rampa interna do Palácio a caminho de seu gabinete. Indagou pelo meu colega também repórter-fotográfico Dida Sampaio, do Estadão. Ao chegarmos ao terceiro andar, outras pessoas falaram com ele, antes de mim. Pediu que eu esperasse.

Em seguida, me chamou para que, junto com as outras pessoas, fôssemos para uma sala contígua ao seu gabinete. Havia lá uma mesa com 12 ou 14 cadeiras e um bufê. Disse-me que comêssemos alguma coisa enquanto conversássemos. Eu falei que tinha outro compromisso e que não queria atrapalhar sua agenda. Pediu que eu continuasse. Serviu-se de pouca comida.

Disse muitos impropérios contra os jornais Folha de São Paulo e Estadão e e a TV Globo. Expressões fortes. “Querem me sacanear o tempo todo… deturpam o que digo… mídia lixo, lixo… canalhas…” Quando nos sentamos, eu afirmei que ele tinha uma relação desagradável conosco da imprensa. Mais uma vez, o presidente disse palavras pesadas contra a mídia. Quando percebiam que Bolsonaro estava se exaltando, o deputado Fábio Farias e o presidente da Embratur Gilson Machado, também presentes, puxavam outros assuntos para amenizar o clima.

Isso durou não mais que vinte minutos. Pouco antes antes de sair dessa sala, eu opinei que ele deveria — ao invés das entrevistas tumultuadas sob a mangueira do Palácio Alvorada — ir ao Comitê de Imprensa para falar com os jornalistas credenciados pelos jornais, profissionais qualificados para uma cobertura da envergadura da Presidência. Acrescentei que sempre éramos admoestados e ofendidos. Que ficamos confinados em um cercadinho desconfortável. Bolsonaro disse que ia rever sua presença naquelas entrevistas. E novamente palavras pesadas sobre a mídia. Ele retornou ao gabinete principal. Fiz uma foto para meu futuro livro. Agradeci e fui embora.

Desci para o térreo, onde fica o Comitê de Imprensa. Narrei fielmente o que aconteceu aos colegas jornalistas da cobertura diária da Presidência da República. Vi que sua promessa de rever o formato de entrevista na porta do Alvorada não se cumpriu porque à noite ele falava de lá sobre o depoimento de Sérgio Moro em Curitiba. Mas reparei que pediu desculpas pelo que havia dito pela manhã, quando mandou colegas jornalistas calarem a boca.

Alguns não interpretaram corretamente o chamado para uma conversa sobre o desagradável episódio da agressão no domingo e interpretaram como um almoço de caráter social e colaborativo.

Não creio que um jornalista que, como eu, cobre a Presidência possa recusar um convite de um presidente, seja ele qual for, quando chamado para uma conversa. Seria a negação da própria profissão.”