Poema de Luiz Martins da Silva. Foto de Chico Sant’Anna


I
Desde que vim ao mundo,
E no mundo cada vez mais,
Saudades pretéritas, ancestrais.

II
Sei, datada e detalhadamente,
Ter sido ilustre habitante
De Mu, o continente sumido.

III
Recordações não tão boas
De indevida vida em Lemúria,
Império lascivo e bruto.

IV
Nostalgias de outras eras.
A atual Lua eram quatro.
Três delas, terríveis abalos.

V
Quantas vezes, quantos fins.
E todos com recomeço.
De cor, sempre se sabe o início.

VI
Na esplêndida Atlântida, antes,
Que a perdição fosse ao fundo,
Os sábios sabiam, e se foram.

VII
Por doze mil anos, asceta,
Pintor, cantor e escriba.
Como era belo o Egito!

VIII
Na Índia, adivinho, guru
Dos destinos do palácio
Do poderoso Samorim.
IX
Ao Brasil, cheguei fenício,
Na esquadra de Badezir,
Filho do Rei Jethbaal.

X
Nesta terra do Cabral,
Regressivo e antropofágico,
Sou poeta. Era para ser mago.