Poema de Luiz Martins da Silva


I
Fahrenheit 451.
Naquele futuro,
Os livros eram proibidos.
Romances eram decorados,
De avôs e avós para netos.

II
Amazônia, Pantanal, 2020.
Neste presente,
De política incendiária,
O verde, só na bandeira.
E de animais, só a boiada.

III
Tanto incêndio, tanto fogo,
O país partido ao meio,
O oficial e o caixa dois.
O homem público sem máscara,
O que esconde não é a cara.

IV
Ressurgirá do rescaldo
A indignação rediviva,
A que incinera a inércia,
Reacende o clamor cívico
E a chama da compaixão?

V
Escusas, as mais ouvidas:
“Não tenho nada com isso”;
“Queria fazer alguma coisa”;
“Não consigo fazer nada”.
“Não acredito mais em nada”.

VI
O descalabro sem limites,
A vitória do cinismo:
“A corrupção acabou”.
Então, a sujeira moral
Se junta à sujeira fecal.

VII
Sinal dos tempos.
Quem mais tem,
Mais nega, mais sonega,
Mais rouba. Da saúde,
Da escola, da fome.

VIII
Ai dos confinados
Que nada podem fazer,
Que nada podem escrever,
Que nada podem dizer,
Que nada podem pensar.

IX
A ilusão do não poder.
Enquanto isto, os que acham
Acham que, no poder, podem
Abusar, trapacear, tripudiar
E a “Justiça” mandar soltar.

X
Ah, o dia em que os pobres,
Os humilhados e ofendidos,
Os que nada têm a perder,
Aprenderem a votar,
A reagir, a não mais perder!