É fácil dizer que a culpa é de São Pedro, que choveu tantos milimetros a mais do que o previsto. Dificil é tirar da gaveta o projeto de ampliação da rede de captação de água pluviais, batizado de ”Águas do DF”, que desde o governo de Agnelo Queiroz é só promessa.

Por Chico Sant’Anna

As imagens correm em tom de chacota do governo pelas redes sociais.

“Cataratas da Asaçu”, “Raia de caiaque”, “Complexo aquático da 115 Sul”, “Reabertura da piscina de ondas”, “A Chapada é aqui”. “Novo sistema de limpeza das passagens subterrâneas do Eixao é acionado pelo GDF”, “Lucio Costa deveria ter desenhado Brasilia em formato de hidroavião e não de avião”.

Piadas não faltaram. Mas um internauta resumiu o drama: “Quanto descaso com a Capital Federal. O quadradinho merece mais respeito. Está jogado às traças.”

Veja aqui as cenas das águas atravessando uma passagem de pedestre na Asa Sul, nas imediações da SQS 115

Mais do que um fato inusitado, as inundações provocadas pelas chuvas no Plano Piloto refletem, de um lado, o crescente processo de impermeabilização do Distrito Federal e, de outro, a falta de planejamento urbanístico da atual gestão e de diversas outras que passaram pelo GDF. Na prática, as passagens de pedestres estão funcionando como redes de captação de águas pluviais. O que deveria ser um local para dar segurança aos pedestres virou zona de risco, perigosa até para os adeptos dos esportes radicais.

A cada vez que se amplia a área urbana, que se cria um Noroeste, que se propõe implantar um conglomerado urbano para 40 mil habitantes, como é o Setor Jóquei Clube, com previsão de prédios de até dezenove pavimentos, ou como o novo bairro atrás da antiga Rodoferroviária, para 63 mil habitantes distribuídos em 21 mil imóveis; o governo no Distrito Federal joga toda a responsabilidade de escoamento sobre as estruturas pensadas e instaladas na década de 1960.

Isso vale também para a captação de esgoto. Do outo lado do Distrito Federal, o rio Melchior agoniza com tanto esgoto e chorume que são lançados em suas águas. Aos 60 anos de idade, Brasília tem um mini Tietê em seu território

A boca de lobo de uma tesourinha nas quadras 200 da Asa Sul ou Norte foram projetadas para receber água daquele local e não a água que corre desde o Noroeste, desde a área do Estádio Mané Garrincha – que vai ser mais impermeabilizado depois da privatização – e que invade as entrequadras comerciais, arrasta veículos, inunda garagens, provoca voçorocas e leva uma quantidade incontável de detritos para o Lago Paranoá, cada vez mais assoriado.

Veja aqui cenas da CLN 402

É fácil dizer que a culpa é de São Pedro, que choveu tantos milimetros a mais do que o previsto. Dificil é tirar da gaveta o projeto que amplie a rede de captação de água pluviais, batizado de ”Águas do DF”, que dormita há dez anos, desde o governo de Agnelo Queiroz. Tudo fica só na promessa.

Orçado em 2021, em  R$ 312,3 milhões, o Águas do DF prometia reforçar toda a rede de águas pluviais das quadras das faixas 1, 2, 10 e 11 da Asa Norte e 13 da Asa Sul. Em Taguatinga, as quadras beneficiadas seriam QNA, QNB, QNC, QSC, QSA, QSB, QND, QNE, QI e Avenida Hélio Prates. Estava prevista também a construção de bacias de detenção e filtros, com a missão de reter resíduos sólidos para evitar o assoreamento do Lago Paranoá. Tudo isso virou água.

Em 2020, o GDF retomou o projeto e chegou a prometer que daria inicio à licitação para três redes pluviais e bacias de captação, todas na Asa Norte, a um custo de R$ 100 milhões, mas está mofando na burocracia. Mais agilidade teve o GDF em alocar R$ 160 milhões para a publicidade e propaganda da administração Ibaneis, em 2021.

É de questionar ainda porque as reformas feitas nos viadutos das tesourinhas da Asa Sul e Norte não contemplaram uma ampliação da captação das águas das chuvas.

Como em todos os anos, muitas dessas passagens se transformam em profundas lagoas, colocando em risco a vida de motoristas, além de provocar danos materiais no já combalido bolso do brasiliense.

Como bem salienta o ecossociólogo Eugenio Giovernardi, o GDF ainda peca por não criar estruturas que preservem essa água para uso futuro. Não é por falta de leis e regras. Existem muitas que determinam a criação de estruturas para fins de retenção, aproveitamento e recarga artificial de aquíferos. Até mesmo a Lei Distrital nº 6.065, sancionada há quatro anos, que determina sistemas residenciais para captação e reaproveitamento das águas da chuvas; parece ter naufragado no mar de burocracia do GDF.

Enquanto tudo isso acontece ao cidadão comum da Capital Federal, o governador do DF participava de milhonário leilão de gado em Uberaba.

Governar é definir prioridades, disse há mais de sessenta anos o ex-presidente dos Estados Unidos, John Kenedy. Ibaneis parece ter escolhido o gado como sua maior prioridade.