Poema de Luiz Martins da Silva. Foto de Chico Sant’Anna

 

I
Até há um ano,
Um mundo existiu.
De lá para cá, foi algo
“Isto nunca tinha sido visto”.

II
Até há um ano,
Os vivos tinham certeza de estar vivos.
E os mortos, mais que os vivos,
Certeza de estarem noutro plano.

III
Até há um ano,
Havia lágrimas.
E sentido para dor,
Perda e luto.

IV
De lá para cá,
É um sem noção de saber,
Que dia é hoje, que mês foi ontem.
Era sem essa de que as pessoas somem.

V
Estamos, há por aí um ano,
Com uma naturalização estúpida
Do que pode ser um espanto,
Aviso, abraço, pranto.

VI
O cantor da bossa cantava:
“Chega de saudade!”
Agora, é telefonema falso
De uma vida falsa, de verdades fakes.

VII
Ofertas a perder de vista.
Crediários de sentimentos improváveis.
Estamos a dever passado e futuro incertos.
Replays de ficções obsoletas on delivery.

VIII
Sem hipótese para saudades deste hoje.
Um presente abjeto, de esperas absortas.
A tevê mostrando, o mundo em apocalipse.
E o presidente negando. Saiu para treinar tiro.

IX
Ele só pensa naquilo:
Armas, armas e mais armas.
“Tirem os impostos das armas!”
E adiantou a vida para 2022.

X
Você, leitor, fique comigo.
Diga que eu sou real,
Que você e eu estamos vivos.
Que para nós ainda existem saudades.