Tecnicamente, a adoção de medidas restritivas à sociedade, em decorrência da Pandemia da Covid-19, deveria se dar automaticamente em decorrência da existência de alguns fatores que acendam a luz amarela, quiçá a vermelha. Uma espécie de termômetro, no momento em que o paciente apresenta determinada temperatura, aplica-se um antitérmico. Nem antes, nem depois, para o bem estar do próprio paciente.

Por Chico Sant’Anna

Nesta segunda-feira, 8 de março, as escolas e academias voltam a funcionar no Distrito Federal. A decisão é do governador Ibaneis Rocha (MDB), que na sexta-feira, 5/3, depois de protestos à porta da sua casa e do Palácio do Buriti, decidiu recuar e flexibilizar o lockdown que havia baixado dias antes.

Os pais das crianças devem imaginar que o quadro sanitário do Distrito Federal melhorou e por isso as escolas serão reabertas. Ledo engano. A ocupação de leitos nas Unidades de Tratamento Intensivo beiram os 100%. No domingo, 7/3, havia na fila de espera 76 pacientes graves com diagnóstico de Covid na fila aguardando UTI. Sem leitos e tratamento adequados, muitos poderão vir a óbito.

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A taxa de transmissibilidade na Capital Federal – aquela que mede a quantidade de pessoas que pode ser infectada por outra portadora do vírus – é uma das mais elevadas do país. Na quinta-feira, um dia antes do novo decreto, era de 1,32 – uma semana antes estava em 0,89 -, segundo informação do próprio secretário de Saúde do DF, Osnei Okumoto. A quantidade de brasilienses mortos chegava a 4.950 pessoas. Mesmo assim, Ibaneis Rocha flexibilizou as regras de isolamento social. Parece ter ficado amedrontado com a voz não tão rouca das ruas. Na verdade, tudo indica que ganharam no grito.

Tecnicamente, a adoção de medidas restritivas à sociedade, em decorrência da Pandemia da Covid-19, deveria se dar automaticamente em decorrência da existência de alguns fatores que acendam a luz amarela, quiçá a vermelha. Uma espécie de termômetro, no momento em que o paciente apresenta determinada temperatura, aplica-se um antitérmico. Nem antes, nem depois, para o bem estar do próprio paciente.

Com a Covid, os indicadores são diversos e devem ser lidos conjuntamente: taxa de transmissibilidade elevada da doença, baixa existência de leitos de UTI disponíveis para novos acometidos pela doenças, elevadas estatísticas de novos casos e de óbitos.

Diante de um cenário como esse, com o termômetro explodindo, e da inexistência de vacinas em quantidade, a medida é uma só, isolamento social, lockdown. Nações como a Nova Zelândia e Portugal já demonstraram que esse é o caminho.

No caso do Distrito Federal ainda há um segundo agravante. Goiás, que nos circunda, já registrou quase nove mil óbitos em decorrência da Covid. Dos dezoito municípios goianos, um está em estado de alerta e os demais dezessete estão em estado de calamidade. Com a falta de estrutura em Goiás para tratar de todos os casos, 20% dos leitos brasilienses são ocupados por cidadãos de fora do DF.

Responsabilidade

Um gestor responsável, sem medo de ouvir grito alto, não titubearia um só minuto. Adotaria todas as medidas necessárias, mesmo as mais antipáticas, para proteger seus cidadãos. Não será do dia pra noite que os três hospitais de campanha anunciados estarão aptos a trabalhar. Da quinta-feira, 4/3, para domingo, 7/3, foram abertos 33 novos leitos de UTI para Covid, o suficiente para fazer a taxa de ocupação regredir de 99% para 96%. Enquanto isso, correm nas redes sociais apelos para vaquinhas eletrônicas que permitam comprar Equipamentos de Proteção Individual – EPIs para os profissionais de saúde que estão na linha de frete. Vergonhoso!

Parece faltar dados técnicos seguros ao governador Ibaneis Rocha, ou, pior, mesmo diante de tais dados ele prefere ignorá-los. Se esse for esse o caso, o secretário de Saúde, como profissional da Medicina, deveria assuir uma postura mais efetiva e não se colocar em situação semelhante ao do ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello: “manda quem pode, obedece quem tem juizo. A diferença é que Pazuelo não fez o juramento de Hipócrates.

A sensação é de barata tonta no Buriti. Quem chamou a atenção para tal fato, no último final de semana de fevereiro, foi o âncora da rádio CBN. Brunno Melo: “Em menos de 24 horas, antes mesmo de entrar em vigor, passamos de “toque de recolher” para “medidas restritivas”, “lockdown noturno”, “lockdown total”, “lockdown flexibilizado” e, agora, com a liberação de mais atividades, voltamos para “medidas restritivas”. Que bagunça, GDF!” – escreveu ele o âncora.

Na última sexta-feira, após os protestos que contaram com a presença das deputadas Bia Kicis (PSL-DF), Julia Lucy (Novo), Paula Belmonte (Cidadania) e seu marido, suplente do senador Izalci Lucas (PSDB), o empresário Luis Felipe Belmonte – incubido por Jair Bolsonaro para viabilizar o partido Aliança Brasil -,  Ibaneis recuou ainda mais, diante de dados que avançavam sem dó. Autorizou as escolas e academias a abrirem a partir dessa segunda-feira. Isso significa sinal verde para 170 mil crianças e jovens circularem em meio à pandemia e um quantitativo semelhante de pais que irão levar e buscar seus filhos.

Segundo dados publicados pelo Correio Braziliense, até antes da pandemia, cerca de 300 mil pessoas; 11% da população do Distrito Federal; estavam matriculadas nas mais de quatro mil academias do quadradinho. Mesmo que a pandemia tenha reduzido à terça parte esse quantitativo, serão mais cem mil pessoas circulando por ai, sem necessidade.

Some-se tudo, o GDF deu carta branca para cerca de 600 mil pessoas colocarem a si própria em risco, bem como a de seus amigos e familiares. Contando-se a taxa de transmissão registrada na última semana, o risco de ficar doente sobe para 792 mil pessoas. Será que no Buriti ninguém sabe fazer essas contas?

Não bastassem todos esses dados, Ibaneis resolve recuar no momento em que a média móvel de mortes por Covid-19 na capital do país subiu para 16,1m sendo que no sábado foram registradas 17 mortes. É um aumento de 68,6%, na comparação com o indicador apurado 14 dias antes, o que confirma a tendência de alta e a necessidade de se medidas que apertem e não que afrouxem o isolamento social.

Ibaneis, contudo, parece ser mais sensível aos gritos daqueles que prezam mais a quantidade de dinheiro na caixa registradora do que a quantidade de pessoas internadas ou enterradas.

O caminho parece ter sido dado. No Burti se ganha no grito. Há de se perguntar quando o grito for de mães e pais, irmãos e irmãos, filhos e filhas diante da morte de ses entes queridos. Há de se lembrar que os gritos, conforme nos mostra a população do Paraguai, também podem vir de onde menos se espera e comobjetivos bem evidentes.