Para o professor de Direito da UnB, Mamede Said, a parceria UnB-Estado de Israel só “seria compreensível se, ao lado dela, houvesse iniciativas que prestigiassem a relação que o Brasil sempre teve com o mundo árabe, e, em particular, o apoio que o país historicamente presta ao povo palestino em sua luta.”

A parceria UnB-Estado de Israel só “seria compreensível se, ao lado dela, houvesse iniciativas que prestigiassem a relação que o Brasil sempre teve com o mundo árabe, e, em particular, o apoio que o país historicamente presta ao povo palestino em sua luta contra a ocupação de seus territórios e contra a violência de que diariamente é vítima por parte de Israel” – escreveu o professor de Direito da UnB, Mamede Said.

Por Chico Sant’Anna

Assim como o conflito do Oriente Médio, a discórdia entre a reitoria da Universidade de Brasília – UnB com parcela da comunidade acadêmica continua forte. Tudo em decorrência do encontro entre a reitora Márcia Abrahão Moura e o embaixador de Israel no Brasil, Yossi Shelley, tratado pela professora de “grande parceiro”. O encontro, considerado por ela como “bastante produtivo”, discutiu as possibilidades de cooperação, entre elas, o fortalecimento da relação com empresas israelenses, por meio de nosso Parque Cientifico e Tecnológico (PCTec/UnB)”. A aproximação não foi bem vista por todos. Rendeu uma carta-protesto assinada, por personalidades importantes do corpo docente da UnB, tais como os professores eméritos da UnB, Isaac Roitman e Said Najati Sidki. Também uma petição se encontra na internet, apelando para que a UnB reveja sua decisão de fazer parcerias com Israel. Os acadêmicos afirmam que estão sendo alvo de menosprezo por parte da direção da UnB, ao ponto de essa ter levado dezesseis dias para respondê-los e de ter preferido se expressar, primeiro, por meio de uma nota no portal Metropoles.

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Mesmo com o isolamento social, o tema está pegando fogo nas redes sociais e, em especial, no Espaço do Professorado, uma espécie de mala direta da Associação dos Docentes da UnB – ADUnB, onde professores podem se expressar por meio de artigos assinados, que são enviados a todos os docentes.

Vários são os documentos lá divulgados questionando a postura da reitoria da universidade. “Nós que fomos chamados de ‘Minoria’, Somos a Comunidade Palestina da UnB, merecemos o respeito e a consideração da Reitora”, intitula documento assinado pela professora da Faculdade da Saúde, Muna Muhammad Odeh, com formação nos Estados Unidos e na Inglaterra, e pela pós-graduanda em Antropologia, Sarah Farid Nafe. As duas cobraram resposta oficial por parte do comando da UnB à carta protesto enviada em 11/02/2021 e registrada no portal do Sistema Eletrônico de Informações – SEI da UnB, o protocolo eletrônico da instituição. A resposta só aconteceu em 26 de fevereiro. Seis dias antes, contudo, a UnB enviava ao veículo de imprensa sua justificativa, sem contudo ter respondido o documento protocolado. Para professores da UnB, isso refletiu um menosprezo por parte da Reitoria para com a comunidade da UnB.

Em outro documento, também disponível no Espaço Professorado, o professor e cientista político, Luís Felipe Miguel, do Instituto de Ciência Política, com doutorado pela Unicamp, faz um apelo à reitora Márcia Abrahão Moura, para que reveja a decisão dela de convidar empresas israelenses a se instalarem no parque científico e tecnológico da universidade.

“Israel é, como todos sabemos, um Estado expansionista e racista. A campanha por “boicote, desinvestimento e sanções” (BDS Brasil) visa pressionar o governo israelense, nos moldes do que foi feito contra o regime do apartheid na África do Sul.

A comunidade acadêmica cumpre papel importante na campanha. Universidades do mundo todo são parceiras deste esforço. É triste ver a UnB, na contramão, tornando-se sócia de um regime genocida” – escreve o acadêmico.

Para o professor de Direito da UnB, Mamede Said, Doutor em Direito, Estado e Constituição, pela própria Universidade de Brasília, a parceria UnB-Estado de Israel só “seria compreensível se, ao lado dela, houvesse iniciativas que prestigiassem a relação que o Brasil sempre teve com o mundo árabe, e, em particular, o apoio que o país historicamente presta ao povo palestino em sua luta contra a ocupação de seus territórios e contra a violência de que diariamente é vítima por parte de Israel.

Nas plataformas de rede social, estudantes de diferentes cursos também tem se manifestado, em especial , contra o que denominam “colaboração UnB-Apartheid Israelense”.

Estudantes de diferentes cursos, como os de Ciências Sociais, Comunicação e Antropologia, também tem se manifestado, em especial nas plataformas de rede social, contra o que denominam “colaboração UnB- Apartheid Israelense”.

Falta de diálogo

Em seu artigo, Luís Felipe Miguel, afirma que a reitoria não tem dialogado com os professores que se opõem ao acordo com Israel. E na opinião dele, a nota publicada em alguns veículos de imprensa “é lamentável, apresentando a campanha em defesa do povo palestino como uma forma de “intolerância”. Essa também é a cobrança da professora da Faculdade da Saúde, Muna Muhammad Odeh e da pós-graduanda em Antropologia, Sarah Farid Nafe. Para elas, houve por parte da reitoria, “tratamento de menosprezo” ao questionamento contra o acordo com Israel.

“Ao invés de prestar esclarecimentos convincentes sobre o intercâmbio do qual Bolsonaro é o maior entusiasta, a nota refere-se aos signatários da carta como um “grupo” e “uma pequena parte da comunidade universitária”, considerando “alarmante” e “intolerante” seu firme posicionamento”, diz Mamede Said. Na mesma linha, Luís Felipe Miguel, rebate a acusação de serem uma minoria intolerante. “Sim, certamente, a “intolerância” de quem se solidariza com aqueles que têm seus territórios ocupados, são despejados de suas casas, são vítimas diárias da brutalidade das forças militares, são mortos, são transformados em cidadãos de segunda classe (quando muito) em seu próprio país.

“A declaração – enviada a imprensa – desdenha do drama do povo que foi reportado na Carta-Protesto, no drama vivido pelo povo que vive na Palestina e na diáspora. Povo que não tem a oportunidade de que suas instituições nacionais de ensino recebam parceria com a UnB, devido às situações de opressão e violações de direito, nuas e cruas, tal como a Carta apresentou com as referências às instâncias de direito competentes. A falsa simetria dispensada pela declaração da autoridade universitária contém ultrajes para serem lidos em Assembleia das Nações Unidas.”

Muna Muhammad Odeh e Sarah Farid Nafe cobram ainda por parte do comando central da UnB esclarecimentos à toda comunidade acadêmica e a identificação de quais e em que áreas seriam executadas as colaborações acordadas e em tratativas, entre a UnB e o Estado de Israel. Querem saber, ainda, quais são as empresas israelenses envolvidas, que tipo de tecnologias desenvolvem e com que propósito, e se, a luz do direito internacional, extraem matéria-prima em territórios palestinos ilegalmente ocupados.

“É triste ver a Universidade de Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira se prestando ao papel de reverberar o discurso bolsonarista, ignorando os laços que sempre uniram o Brasil ao mundo árabe. Com isso, perde a UnB, perde o mundo acadêmico. O necessário processo de internacionalização nas universidades precisa contemplar todos. Sem segregacionismo, sem exclusões discriminatórias” – conclui Mamede em sua análise, disponível no Facebook.

A parceria UnB-Estado de Israel vem provocando fraturas na própria base que elegeu recentemente Márca Abrahão para mais um mandato à frente da UnB. Recentemente, alguns veículos de imprensa da Capital Federal citaram o nome da Reitora como possível opção do Partido dos Trabalhadores para concorrer ao GDF, em 2022. Para que haja êxito nesse projeto, é fundamental que ela tenha a comunidade universitária apoiando-a, mas o episódio parece produzir exatamente um efeito contrário, a tomar-se alguns depoimentos de professores.

“Para quem – como eu – apoiou a reeleição da profª Márcia por conhecer seu comprometimento com a democracia e com os direitos humanos, a parceria com Israel e a nota pública são sérias decepções. É necessário jogo de cintura para administrar uma universidade, sem dúvida. Mas é necessário também manter uma linha firmemente marcada no chão, que não se cruza” – salientou Luís Felipe Miguel.

A reitoria foi procurada por esse blog, bem como a Assessoria de Comunicação Social da instituição. Se limitaram a responder que o posicionamento da Universidade foi comunicada dia 26 de fevereiro aos professores descontentes com a aproximação com o Estado de Israel.