Dos mais de nove mil policiais da PM, apenas 770 serão vacinados de imediato. Foto de Arthur Menescal/Metropoles.

Moral da história, nesse país imaginário, o soldado vai ao front da guerra desprotegido e os oficiais que estão nos gabinetes, na retaguarda, ficaram protegidos. Em qualquer corporação, em especial as militares, essa história seria considerada uma fábula fantasiosa. Ledo engano. O relatado aqui foi o que aconteceu no âmbito da Polícia Militar do Distrito Federal.

Por Chico Sant’Anna

Imagine um país que se defronta com um inimigo poderosamente fatal e cujas potencialidades de dano ainda não são integralmente conhecidas.

Para ajudar a combater esse inimigo, existe um exército de pouco mais nove mil solados. Soldados que são obrigados a enfrentar o inimigo mesmo sem estar integralmente protegidos e equipados para tal missão. Como soldados, contudo, cumprem com o seu dever de defender a população desse país. A missão é difícil e exige coragem e despreendimento, mas a potencialidade do inimigo e a falta de proteção dos soldados já levaram à morte vinte deles e mais de cem foram gravemente afetados.

No meio desse enfrentamento surge uma espécie de escudo, que promete defender a tropa em seu enfrentamento ao inimigo. Não há escudos para todos, contudo. É necessário escolher quem irá portá-los. A lógica sugeriria que aqueles que estão em funções mais vulneráveis no front fossem os beneficiários de tal escudo. Não foi isso que aconteceu. Comandantes e oficiais superiores, cujas tarefas tem um grau menor de exposição, se valeram de suas posições hierárquicas e trouxeram para si o benefício dos parcos escudos conseguidos.

Moral da história, nesse país imaginário, o soldado vai ao front da guerra desprotegido e o oficial que está nos gabinetes da retaguarda fica protegido. Em qualquer corporação, em especial as militares, essa história seria considerada uma fábula fantasiosa. Ledo engano. O relatado aqui foi o que aconteceu no âmbito da Polícia Militar do Distrito Federal.

Oficiais do alto comando requisitaram pra si as parcas vacinas que sobravam nas campanhas diárias de vacinação. A chamada “xepa” privilegiou quem não está nas ruas. Foi como mandar um soldado à guerra sem armas, sem munição e destinar as armas e munições aos comandantes em seus gabinetes. O escândalo só não foi maior, pelo fato do comandante da Polícia Militar do DF, Coronel Julian Pontes – de apenas 47 anos de idade -, ter sido exonerado tão logo o fato tenha vindo a público.

O afastamento do cargo diante dessa prática de “fura-fila” parece pouco. Tal comportamento deveria ser avaliado sob o ponto de vista ético e também da lógica militar. Exonerado por desrespeitar a ordem de vacinação contra a covid-19, o coronel Julian Pontes diz que “apesar de poder ser classificado como inoportuno, tal ato não foi ilegal” – relata o jornal Correio Braziliense.

Segundo o jornal, os militares lideram o ranking das forças de segurança da Capital Federal com o maior número de servidores infectados e mortos pela covid-19. Após o coronel Julian Pontes tomar a “xepa” da vacina, antes dos mais de 9 mil praças da ativa, o clima esquentou na PMDF e gerou revolta entre os militares que trabalham nas ruas. Dois outros subcomandantes da corporação também teriam se valido das patentes para fura a fila da vacinação.

Esse é um comportamento que incendeia a caserna. E mostra uma ética comparável às aquisições milionárias de picanha, filé mignon, 80 mil litros de cerveja, leite condensado, e outras regalias, pelas Forças Armadas. É, no entanto, mais incendiária pois o escândalo das mordomias da Aeronáutica, Exército e Marinha contrapõe essas forças aos milhões de brasileiros que não tem o que comer. E ai os integrantes da corporação – inclusive os que não saborearam as guloseimas – mesmo que se indignem, não terão um nome, um comandante pra jogar a culpa. No caso da PM, o escândalo é personificado na pessoa do comandante. A prática que ele insiste em não considerar ilegal tem nome e sobrenome.

O que dizer para as esposas e filhos de policiais mortos ou entre a vida e a morte em decorrência do combate à Covid, quando a vacina que ele poderiam ter tomado ficaram com quem tem mais estrelas nos ombros?

Coincidência ou consequência, a decisão do GDF em passar a imunizar imediatamente as forças de segurança joga água na fervura. Pelo menos, por enquanto, pois apenas 770 dos mais de nove mil policiais militares deverão ser vacinados a curto prazo. Mas o Governo do Distrito Federal deve mais a essa população sofrida do Distrito Federal, onde já morreram cerca de 4.200 pessoas. A secretaria de Segurança ou o ministério Público Militar deveria abrir um processo disciplinar e apurar responsabilidades por essa fura fila. É inadmissível que fique tudo como se nada houvesse acontecido. É provável até que o afastamento do Coronel Julian Pontes do Comando da Polícia Militar do DF nem afete os valores dos soldos que recebe, pois por estar no topo da carreira, já deve ter atingido o teto salarial. Entretanto, a Polícia Militar tem que dar o exemplo à sociedade, que não compactua com vacinações escondidas em garagens de ônibus, como o ocorrido em Minas Gerais; de que segue a lei, que obedece as prioridades definidas para a imunização, que é de fato uma instituição onde os atos de seus oficiais se baseiam na lei, nas regras e não na força dos galardões.