Em 2020, Izalci Lucas liderou comissão de parlamentares federais do Distrito Federal que foi à CLDF pressionar pela CPI da Saúde, voltada a investigar o enfrentamento da Covid-19 por Ibaneis Rocha. Na esfera federal, ele não apoiou o pedido de CPI similar para investigar a gestão Bolsonaro.

Reguffe e Leila do Vôlei, que assinaram a petição há mais de um mês, saem-se bem na foto – principalmente considerando a sucessão no GDF, ano que vem – e Izalci Lucas, que não a apoiou, fica com o Mico. Pra se livrar do Mico, ele tem que mostrar serviço. Está, contudo, numa sinuca de bico. Não pode ficar mal nem com o eleitorado bolsonarista, nem com outro.

Por Chico Sant’Anna

No baralho, existe um jogo infantil, chamado de Mico. Ele pode ser jogado por três ou mais participantes. As cartas são em pares, salvo, a do mico. Ganha quem fizer maior quantidade de duplas e perde quem ficar isolado com o Mico. Ao perdedor, se diz que “pagou o mico”.

Esta é a delicada situação do senador Izalci Lucas (PSDB). Ele ficou isolado, dentre os senadores do Distrito Federal, ao não apoiar a criação da CPI da Pandemia, proposta pelo senador amapaense Randolfe Rodrigues (Rede). Embora Izalci, então vice-líder do governo Bolsonaro, tenha pressionado, no ano passado, a Câmara Legislativa do DF a implantar uma cpi proposta pelo distrital Leandro Grass (Rede), para investigar o trabalho comandado por Ibaneis Rocha, ele esse ano não assinou o pedido de implantação da investigação similar em âmbito federal. A pimenta nos olhos do vizinho deve arder menos.

Agora que a CPI tem que funcionar, por força de decisão judicial, Izalci não só tem se declarado favorável à CPI, como deseja participar dela. Foi o que ele nos disse e também à conselheira de Saúde do Distrito Federal, Lurdes Piantinona, que cobrou do senador a não assinatura. A vaga que o PSDB deve ter direito na CPI, contudo, deve ser ocupada por um tucano de raiz, o senador Tasso Jereissati.

Cada cabeça uma sentença, diz o ditado popular. E não é diferente no Senado Federal. Na bancada do Distrito Federal, dos três senadores, dois apoiaram o pedido de CPI da Pandemia, Reguffe (Podemos) e Leila do Vôlei (PSB) e um, Izalci Lucas (PSDB), não a assinou. No estado de Goiás, vizinho, foi o inverso, apenas um, Kajuru (Cidadania) apoiou, embora agora pareça arrependido e, em telefonema com o presidente Bolsonaro, disse buscar agir de forma a não prejudicar o governo.

Aqui em Brasília, a postura de Izalci Lucas chama a atenção. Não porque pudesse se imaginar que ele iria bater de frente com o presidente Jair Bolsonaro, de quem foi vice-líder no parlamento. A estranheza se deve ao fato do senador tucano ter sido apoiador ostensivo da instalação de uma CPI equivalente, no âmbito da Câmara Legislativa, para apurar supostos desmandos na gestão de Ibaneis Rocha. Izalci chegou a se deslocar até a CLDF e lá afirmou que o “GDF não tem controle de gestão da Saúde. Não tem nem controle de medicamentos, que falta transparência”, conforme noticiou a época o portal Metrópoles.

Além disso, em 25 de agosto de 2020, conforme noticiou a Agência Senado, após a prisão do então secretário de Saúde do DF, Francisco Araújo, Izalci Lucas foi um dos signatários de nota de apoio à criação da comissão parlamentar de inquérito (CPI) na Câmara Legislativa do DF, apresentada em julho pelo distrital Leandro Grass, com o objetivo de investigar as ações do Executivo local no combate à pandemia.

A este jornalista, Izalci Lucas disse que não teria dificuldade de assinar o pedido de CPI de Randolfe e que só não o fez, pois pedira tempo para comunicar a bancada do PSDB, do qual era líder, e quando foi fazê-lo, a documentação já tinha sido protocolada. O argumento tem falhas, segundo alguns parlamentares, que alegam que assinaturas podem ser apostadas ou retiradas até a leitura em plenário do pedido. E que alguns senadores firmaram o documento após a papelada ter sido protocolada por Randolfe.

Mico

Assim, Reguffe e Leila do Vôlei que assinaram a petição há mais de um mês saem-se bem na foto – principalmente considerando a sucessão no GDF, ano que vem – e Izalci fica com o Mico. Os nomes dos três são cotados para disputar o Buriti.

Pra se livrar do Mico, ele tem que mostrar serviço. Está, contudo, numa sinuca de bico. Não pode ficar mal nem com o eleitorado bolsonarista, nem com outro.

Assim, agora, ele diz esperar que sejam apuradas as responsabilidades e punidos os responsáveis. Embora não seja mais vice-líder do governo Bolsonaro, a afinidade de discurso ainda é grande com o presidente. Izalci defende que a CPI mergulhe também na realidade estadual e municipal. Informa que, inclusive, assinou a proposta de CPI da Covid, mais ampla, incluindo os governos estaduais e municipais, elaborada pelo senador Eduardo Girão (Podemos-CE).

“Aqui no DF, mesmo, a gente sabe que teve muita irregularidade, continua tendo, ainda, basta ver a cúpula da Saúde presa. A gente precisa apurar isso. A Câmara Legislativa não fez seu dever de casa, mas quem sabe, nessa CPI a gente possa entrar em Estados e Municípios.”

Essa proposta de CPI envolvendo Estados e municípios não havia obtido as assinaturas necessárias para ser instalada. Somente no dia 12/4, após a decisão do ministro Luiz Roberto Barroso, é que as bases do governo Bolsonaro se articularam para que houvesse o quantitativo de assinaturas necessárias. Como estratégia do governo, senadores pró-Bolsonaro conseguiram do presidente do Senado que o foco das duas propostas de CPIs fosse agregados.

o pensamento de Izanci não é muito diferente do senador Reguffe (Podemos), que assinou o pedido da CPI ainda em 3 de março. Segundo ele, dois pedidos receberam o seu apoio. A CPI para apurar responsabilidade federal no combate à Pandemia, proposta por Randolfe, e, um segundo, referente ao uso pelos estados e municípios das verbas federais. Mas Reguffe não defendioa a união dos dois temas em uma só CPI, “Seriam dois fóruns independentes com focos diferentes, Misturar tudo, não permitirá investigar nada” – explica o parlamentar do DF.

A senadora Leila do Vôlei considera ampliar o foco da CPI para todos os 27 Estados e mais de cinco mil municípios uma estratégia de se criar “uma cortina de fumaça para desviar o foco da inoperância do governo federal no enfrentamento da Covid-19”. Ela reconhece que há problemas também nos Estados, mas considera ser “impossível que dezoito senadores apurem a gestão da Saúde em um país com as dimensões continentais”. “Este é um trabalho para os legislativos estaduais e municiais” diz ela.

Izalci Lucas não contesta a decisão do ministro Luiz Roberto Barroso, do STF. “Ele cumpriu o que está na Constituição. Nossa dúvida é o momento. Temos duas CPIs que estão suspensas por conta da Covid. Como contador, sei que nem tudo pode ser investigado de forma virtual e presencial é impossível. Dificilmente você vai ter bons resultados” – diz ele.

Para Leila, quem não deve, não tem o que temer, mas na avaliação dela houve uma sucessão de erros que nos trouxe a este” lamentável cenário que vivemos”. Reguffe quer que ela investigue tudo e todos. Quando se refere a tudo, se refere aos gastos com o combate à pandemia, mas também a adoção – ou não – das políticas públicas corretas para o enfrentamento da doença. “Há indícios de que foi muito mal conduzido” – diz ele. “Enquanto a Pandemia se alastra assustadoramente, quem deveria liderar a nação continua sua cruzada de defender medidas ineficazes e desafiar as recomendações baseadas em evidências científicas” – avalia Leila do Vôlei.