Policiais militares do Grupo Tático Operacional e do Batalhão de Policiamento com Cães têm feito sistematicamente. desde o ano passado, operações na Vila Cauhy sempre apreendendo drogas, o que demonstra que o tráfico já se alojou por ali.

Por Chico Sant’Anna

Encrustada entre o Park Way e o Núcleo Bandeirante e estrategicamente posicionada às margens da via Epia Sul, que interliga Cruzeiro, Octogonal, Guará com Gama, Santa Maria e o Entorno Sul, a Vila Cauhy, desde o ano passado, se transformou numa preocupação especial das ações de combate ao narcotráfico. O local já é considerado o maior ponto de venda de drogas do Núcleo Bandeirante, mas atendendo também a clientes que moram em bairros mais nobres do Distrito Federal, tais como Lago Sul, Park Way e Plano Piloto.

“Quando se trata de uma droga mais cara, como a cocaína, o consumidor não está na Vila Cauhy e, possivelmente, também não será do Núcleo Bandeirante. Quem compra droga cara é quem tem poder aquisitivo alto” – explica um oficial da Policia Militar.

Mesma leitura tem o Delegado Rogério Rezende, titular da Coordenação de Repressão às Drogas da Polícia Civil – Cord/PCDF. Segundo ele, cocaína, skank, maconha em tablete e outros entorpecentes de alto valor não têm dentre os moradores da Vila Cauhy os principais consumidores. O comércio é mantido por pessoas que vem de fora.

Cães farejadores

Policiais militares do Grupo Tático Operacional e do Batalhão de Policiamento com Cães têm feito sistematicamente operações na Vila Cauhy. Muitas dessas operações são provocadas por denúncias anônimas de moradores que temem a presença de narcotraficante na vizinhança. Em novembro passado, foram presos três traficantes comercializando maconha. A droga foi localizada pelos cães Fúria e Yussef.

Mais recentemente, nesse mês de abril, em dois finais de semana seguidos, os cães Chico e Dexter, no dia 17, e Cobolt, Bruno, Shadow e Dexter, no dia 25, localizaram novamente drogas, dessa vez camufladas em touceiras de mato. Após uma varredura nas ruas internas da Vila Cauhy, foi localizado na primeira ação, dia 17, um tablete de maconha, recipiente contendo maconha já fragmentada, três porções menores de maconha, pedras de crack, além de utensílios, balança de precisão, rolo de plástico de filme pvc, material tradicionalmente utilizado para o tráfico na área. Na segunda vistoria, dia 25, o BPCães achou um tablete de maconha, 24 porções menores da mesma substância pronta pra venda, e pedra de crack

Efeito colateral

A presença do tráfico na Vila Cauhy, segundo policiais civis, é a responsável pela ocorrência de furtos tanto no Núcleo Bandeirante, quanto no Park Way. No Núcleo Bandeirante foi verificada no final do ano passado uma maior quantidade de furtos de rodas de veículos e de bens deixados em seu interior. Já no Park Way, câmeras de moradoras tem registrado a invasão noturna de residências, quando são levados também bens de fácil comercialização, tais como aparelhos de televisão, bicicletas, dentre outros.

Segundo o titular da Cord, uma maior presença do tráfico acaba reverberando em outras atividades criminosas. Latrocínios, homicídios e crimes patrimoniais são consequências tradicionais e por isso as apreensões realizadas pela Policia Militar ganham maior relevância. São apreensões de vulto e vão impactar na criminalidade.

Além disso, a presença do comércio de drogas tem atraído pessoas envolvidas em outros tipos de crimes. No dia 24 de abril, a Polícia Militar capturou uma pessoa já condenada por crime de estupro de vulnerável e que se encontrava foragida. Entretanto, não se tem notícia da ação do crime organizado, da alta criminalidade, como Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital, que tem se feito presente em Brasília, desde que o ex-ministro Sérgio Moro, trouxe a liderança máxima dessas organização para a prisão federal da Papuda. Dentre eles, Marcos Camacho, o Marcola, um dos mais famosos narcotraficantes do Brasil.

Na avaliação dom presidente do Conselho de Segurança do Park Way – Conseg-PW, Marcelo de Carvalho, o primeiro aspecto preocupante é ter um local com tais características no meio de três cidades distintas, Núcleo Bandeirante, Candangolândia e Park Way. “As condições que não contribuem com a segurança dessas cidades num local tão concentrado não são favoráveis a ninguém. Nem aos próprios moradores da Vila, tampouco para os dessas cidades. Os fatores diretos de crimes ali cometidos ou evitados, mais os indiretos, também, de falta de estrutura básica não contribuem à segurança pública e à qualidade de vida. Assim, como a glamourização desse estado mal ajeitado daquele local, por interessados em si próprios, promovendo pitadas, vem prejudicar a solução natural e definitiva para um local que não deveria ser ocupado. À beira de um rio que inunda constantemente e causa prejuízo a pessoas, governo e meio ambiente” – diz ele.

Ex-administrador do Park Way e atual presidente da associação comunitária de moradores do bairro, ACPW, José Joffre do Nascimento considera “lamentável a postura do GDF em deixar o crescimento desordenado da Vila Cauhy”.

“Essa ocupação irregular, em contínuo crescimento, especialmente sobre as áreas de mata ciliar do Riacho Fundo, prejudica as famílias que ali aguardam a regularização há décadas e favorece toda a sorte de atividades ligadas ao crime.”

Vila Cauhy

Em área contígua à divisa da poligonal do Park Way, a Vila Cauhy está oficialmente dentro do Núcleo Bandeirante, mas seus ocupantes utilizam nomenclaturas para o endereçamento local que remetem às do Park Way, criando uma certa confusão, até para os carteiros.

A área está compreendida entre a via Epia-Sul e o córrego do Riacho Fundo. Parte dela era formada por veredas e por isso está dentre as áreas de riscos em período de chuvas intensas. A outra parte, mais alta, foi concedida, em 1961, ao Clube de Regatas do Guará. O campo de treinamento de futebol foi denominado Colina do Lobo. Até hoje, o clube tem o lobo guará como símbolo.

Em 1995, o Clube vendeu ao empresário, Sérgio Naya, já falecido. No local, pretendia fazer algo semelhante ao que foi feito no terreno do antigo estádio do Pelezão, que deu lugar a um condomínio residencial de grande porte. Mas o destino atrapalhou os planos de Sérgio Naya. Em 1998, se deparou com o desabamento no Rio de Janeiro, o Edifício Palace II, relata o arquiteto Pedro Ernesto Barbosa.

Sérgio Naya faleceu posteriormente e desde então o espaço foi sendo ocupado e fracionado irregularmente. Em 2014, entre um turno eleitoral e outro, a exemplo do que ocorreu nas Chácaras Santa Luzia, na Estrutural; a Vila Cahuy, no Núcleo Bandeirante, se expandiu intensamente até às margens do córrego do Riacho Fundo, com lotes sendo vendidos à época a um valor entre R$ 60 mil e R$ 80 mil, cada um. Lotes que a cada chuva mais forte ficam sob as águas, pois estão na área de várzea do Riacho Fundo.

Tudo nas barbas das autoridades que, passados sete anos, nada fizeram.