Poema de Paulo José Cunha. Foto de Chico Sant’Anna

  

Chegou triste
com olhos velhos
tinha febre frio e medo
um jeito distante 
como distante trazia
o corpo (quase arrastado)

foi-se aninhando
pássara assustada 
(os olhos velhos velhos) 

um soluçar de antigos sofrimentos
lágrimas de paixões nunca esquecidas
homens suados
prazeres 

inteiramente só
a cabeça baixa
cabelos caindo no rosto
braços cruzados sobre o peito
e os olhos velhos

 

falei de barcos e fugas
da atração da morte
e das mulheres esplêndidas
que nunca cruzaram
a esquina do meu coração

tomou leite quente
algum conhaque
depois falou de angústias e traições
e sem saudade (até sorrindo)
lembrou de um passado inesquecível

tinha medo do passado e do presente
(do futuro não falou)
recordou sabores nunca renegados
mas que jamais mataram sua sede

isto tudo falou assim
até que lhe beijasse os olhos
úmidos e velhos 

despediu-se com um ar distante
(como se não tivesse chegado)
apenas olhava o sofá a taça vazia o cinzeiro
e nos olhos velhos
havia o pedido
de um instante a mais

então beijou-me
beijou-me um beijo lento
(menos que um beijo,
mais uma procura)

o beijo escorreu da boca
e foi descendo até os pés
e ali
ao som de uma canção antiga 

(na certeza de que não iria faltar cigarro)
entre as roupas que foram
lentamente
recobrindo o assoalho da sala
eu vi
nela toda
acender-se uma luz