O transporte responde sozinho por 53,4% dessa emissão de GEE na Capital Federal. Dióxido de carbono (CO2) metano (CH4) e óxido nitroso (N2O) são os mais presentes na atmosfera candanga. Pelo levantamento, apenas em 2016, no Distrito Federal foram lançadas 7,23 mil toneladas de CO2, de metano foram 1,5 mil toneladase 354 toneladas de óxido nitroso. Eixinho Leste Sul. Foto de Chico Sant’Anna.

Por Chico Sant’Anna

Brasília tem como marca não ser um espaço intensamente industrializado e de contar com grandes áreas verdes. Entretanto, esses fatores não tem sido suficientes para assegurar a qualidade do ar. A poluição local tem aumentado e o efeito está no ar que nos circunda. De 2010 a 2016, segundo levantamento recém publicado pelo ministério da Ciência e Tecnologia, as emissões de gases de efeito estufa (GEE) no Distrito Federal aumentaram 9% devido, principalmente, ao aumento das emissões da frota de veículos automotores, à produção de cimento e o trato do lixo. O transporte responde sozinho por 53,4% dessa emissão de GEE na Capital Federal. Dióxido de carbono (CO2) metano (CH4) e óxido nitroso (N2O) são os mais presentes na atmosfera candanga. As principais consequências dos GEE é o aquecimento global que traz, dentre outros efeitos, mudanças no regime das chuvas, inundações, redução da biodiversidade, taxas de calor e frio diferente das tradicionais.

Pelo levantamento, apenas em 2016, no Distrito Federal foram lançadas 7,23 mil toneladas de CO2, de metano foram 1,5 mil toneladase 354 toneladas de óxido nitroso. O principal emissor (N2O) é o esgoto. Com o avanço agressivo da urbanização e da agropecuária, o cerrado candango tem perdido sua capacidade de limpar o ar. O levantamento aponta que a vegetação contribuiu para remover 226 tonelada do gás, apenas 3,1% do total lançado. O incentivo ao uso do carro particular, com a ampliação das largas vias, cada vez com mais viadutos e trevos, ganham de longe na emissão de GEE. Eles estão na raiz do problema local.

O incentivo ao uso do carro particular, com a ampliação das largas vias, cada vez com mais viadutos e trevos, ganham de longe na emissão de GEE. Eles estão na raiz do problema local. BR-20 entre Planaltina e Sobradinho. Foto de Ilson Walter Santos

Mudança da matriz da frota

A situação de Brasília, contudo, possui maior facilidade de resolução do que outras partes do país. Grande parte do problema seria resolvido se houvesse mais investimento à coleta seletiva e à reciclagem dos resíduos e maior uso do transporte coletivo público, com a consequente redução do transporte individual, e que fossem utilizados trens e ônibus movidos a energia elétrica, além é claro do incentivo à mobilidade ativa (bicicletas e caminhadas). Faltam ciclovias, principalmente, aquelas voltadas ao uso da bicicleta como meio de transporte, não apenas como lazer. A pesquisa Diferenças socioeconômicas e regionais na prática do deslocamento ativo no Brasil, também de 2016, aponta que a região metropolitana de Brasília é a que apresenta no Brasil a menor frequência de deslocamentos a pé ou de bicicleta, tanto por homens, quanto por mulheres, nos percursos casa trabalho ou casa escola.

Cientificamente, sabe-se que o óleo diesel, a gasolina e o etanol, pela ordem, são os principais responsáveis pela emissão do dióxido de carbono. O grande vilão da poluição gerada pela área de transporte são os motores que consomem óleo diesel, em especial, ônibus e caminhões. Na capital Federal estão registrados mais de 155 mil veículos, dentre ônibus, caminhões e similares, consumidores de Diesel.

Metais pesados altamente nocivos fazem parte da composição do diesel, pelas vias respiratórias, eles se acumulam no organismo humano e, depois de alguns anos, chegam a causar até mesmo males neurológicos. Podem provocar distúrbios hormonais e até câncer no aparelho respiratório. A própria fuligem desse combustível serve como um facilitador para as alergias nas vias aéreas. Uma substituição mais intensiva do diesel pelo biodiesel amenizaria o problema. O biodiesel tem a capacidade de gerar 70% menos GEE do que o diesel derivado de petróleo. O melhor seria, contudo, uma mudança radical na matriz energética dos ônibus contratados pelo GDF. Uma licitação está prevista para 2022, mas não há previsão de exigir das empresas de transporte coletivo a troca de sua frota por veículos elétricos. E em 2021, essas empresas vão consumir cerca de R$ 1,2 bilhão em recursos públicos repassados pelo governo.

Infográfico referente a origem das emissões de gases de efeito estufa no DF - Fonte: Ministério da C&T

Veículos particulares

Em outubro desse ano, o Detran-DF computava 1,920 milhão de veículos registrados em Brasília, isso sem contar com os milhares provenientes do Entorno. Eles circulam diariamente pelas vias da cidade soltando fumaça pelos escapamentos. Uma política fiscal, reduzindo o ICMS sobre o Etanol, em detrimento da gasolina, poderia induzir maior consumo do álcool e reduzir a poluição. A queima do álcool emite menos gases poluentes na atmosfera. Produz em média 25% menos monóxido de carbono (CO) e 35% menos óxido de nitrogênio (NO) do que a gasolina. Entretanto, em termos fiscais, o GDF trata os dois combustíveis como iguais. Muitos problemas de saúde acabam batendo às portas da rede pública de saúde, levando o GDF a pagar uma conta mais salgada.

O estudo Inventário Nacional por Unidade Federativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa, divulgado pelo governo federal, é uma das obrigações que o Brasil tem no âmbito da convenção-quadro das Nações Unidas sobre mudança do clima (Unfccc). Foram avaliados os impactos decorrente dos setores de energia – que inclui queima de combustíveis -, processos industriais e uso de produtos (Ippu), Agropecuária, Uso da Terra e Mudança do Uso da Terra e Florestas (Lulucf5) e Resíduos. Os principais gases de efeito estufa (GEE) inventariados foram o dióxido de carbono (CO2), Metano (CH4), óxido nitroso (N2O), hexafluoreto de enxofre (SF6), hidrofluorcarbonetos (HFCs) e Compostos perfluorados (PFCs)

Centro-Oeste

Na Região Centro-Oeste, o Distrito Federal destoa quanto à origem principal dos gases de efeito estufa. Nos demais estados. por possuirem uma economia fortemente rural, baseada, principalmente, em grandes monoculturas, como soja, milho e trigo, e na pecuária bovina, a agropecuária veste a carapuça de agente poluidor. Em 2016, as emissões da Região Centro-Oeste totalizaram 344,9 toneladas de CO2.

As emissões totais de GEE da Região Centro-Oeste contribuíram com 24% do total das emissões nacionais, em 2016, em decorrência da pujança de seu agronegócio. Proporcionalmente, o setor Agropecuária contribuiu com 45% do total das emissões, enquanto o setor Uso da Terra, Mudança do Uso da Terra e Florestas (Lulucf), com 42% e o setor Energia – onde se insere o transporte -, com 10%. Os setores Processos Industriais e uso de Produtos (Ippu) e Resíduos contribuíram com parcelas menores de emissões, representando 1% e 2%, respectivamente.

Indústria mineral

Já no Distrito Federal o quadro se difere. Além da área de transportes, o segundo maior responsável pela poluição foi o Industrial (17%), com destaque à indústria mineral, em especial a produção de cimento na área da Fercal. Em terceiro lugar, aparece o trato dos resíduos – lixo e esgoto, em bom português. Esse setor inclui tratamento de resíduos sólidos, tratamento e despejo de esgoto e águas residuais, bem como a incineração e queima de lixo a céu aberto. Na Capital Federal, que possui um deficiente serviço de coleta seletiva e reciclagem de resíduos sólidos, dezesseis toneladas de CO2, em cada cem lançadas na atmosfera são decorrentes do mau trato dos resíduos. Já a Agropecuária, responde por 7%.

O estudo é apenas um retrato de uma faixa de tempo e peca por não apontar políticas que possam reverter esse quadro. Em 2016, o Distrito Federal respondia por apenas 0,83% de todo Dióxido de carbono (CO2) lançado pelo Brasil na atmosfera. É uma taxa pequena, mas que tende a se ampliar se for mantida a expansão urbana do Distrito Federal, ocupando áreas verdes, se não se investir num sistema moderno de mobilidade urbana que priorize trens, metrôs, vlt elétricos, se continuarmos a investir apenas na mobilidade individual em carros particulares, se a indústria mineral, notadamente a produção de cimento, não possuir efetivas medidas de redução da poluição atmosférica. Brasília já é a terceira maior cidade do Brasil, com mais de três milhões de habitantes. Toda essa comunidade merece vivem num espaço saudável e ambientalmente correto.