De acordo com pesquisadores da UnB, o abrigo rochoso é um importante testemunho da longa ocupação no Brasil Central, permitindo aos especialistas buscar compreender como diversos grupos humanos circulavam entre o Cerrado, a Amazônia e o Nordeste há até cerca de 11 mil anos. Foi lá que, na década de 1970, foi encontrado Acauã, o corpo mumificado de uma menina morta há morreu há cerca de 3,5 mil anos.

Por Chico Sant’Anna, com base nos textos de Alex Rodrigues e Kelly Oliveira, da Agência Brasil, e da Agencia UnB Notícias

A menos de 200 quilômetros da região central da Capital Federal, arqueólogos e antropólogos ligados à Universidade de Brasília retomam as pesquisas na Gruta do Gentio II. Localizado em Unaí (MG), o sítio arqueológico começou a ser explorado no final da década de 1970, tendo sido palco da descoberta, em 1977, do corpo mumificado de uma menina que, segundo especialistas, morreu há cerca de 3,5 mil anos.

A menina foi denominada Acauã, em homenagem ao pássaro de mesmo nome que é comumente encontrado na região. Além dela, dezenas de artefatos e desenhos rupestres de importância histórica e científica foram localizados durante as escavações anteriores.

O Núcleo de Arqueologia Indígena (NAI) do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (Ceam) e o Laboratório de Indigenismo e Etnologia Indígena (Linde) do Departamento de Antropologia (DAN), ambos da Universidade de Brasília, participam da reabertura da escavação do sítio arqueológico.

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O sítio arqueológico da Gruta do Gentio II é rico em pinturas rupestres, como essa que retrata aves. Foto de R. Camargos.

Segundo o Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB), a Gruta do Gentio II é um dos mais completos sítios arqueológicos do país, seja em termos de variedade, seja em relação ao grau de conservação dos artefatos identificados, preservados graças às características do microclima no interior da caverna. Ele conta com vários desenhos rupestres e chama a atenção pelo alto nível de conservação dos materiais arqueológicos graças à estabilidade do seu microclima. A gruta foi escavada no final da década de 1970 e começo de 1980 pelo Instituto de Arqueologia Brasileira, cujas pesquisas determinaram uma ocupação do sítio entre 12.000 e 400 Antes do Presente (AP).

Ainda segundo o IAB, a própria Acauã acabou sendo naturalmente mumificada graças ao clima da caverna. O corpo foi encontrado junto a diversos artefatos funerários, indicando que a menina foi sepultada. Suas pernas e braços estavam envoltos por colares de sementes de capim navalha, o que sugere que a criança gozava de um status diferenciado, especial. Além disso, o corpo foi coberto por uma fina rede de algodão que, por sua vez, foi recoberta por couro animal, o que favoreceu que os restos mortais fossem preservados.

O corpo de Acauã foi encontrado junto a diversos artefatos funerários, indicando que a menina foi sepultada. Suas pernas e braços estavam envoltos por colares de sementes de capim navalha, o que sugere que a criança gozava de um status diferenciado. Foto de R. Camargos.

Brasil Central

De acordo com os estudiosos da UnB, o abrigo rochoso é um importante testemunho da longa ocupação no Brasil Central, permitindo aos especialistas buscar compreender como diversos grupos humanos circulavam entre o Cerrado, a Amazônia e o Nordeste há até cerca de 11 mil anos. A longa ocupação deste sítio, suas condições excepcionais de conservação dos vestígios arqueológicos e sua localização geográfica no interflúvio dos rios São Francisco e Tocantins fazem do local excepcional para o estudo da habitação humana no Brasil Central e dos contatos e circulação de antigos grupos humanos entre o Cerrado, a Amazônia e o Nordeste brasileiro durante o Holoceno Médio e Inferior.

A grande potencialidade do sítio e sua localização estratégica, ao igual que outros abrigos no Entorno do Distrito Federal, em Unaí, Planaltina e Formosa, levaram à formulação do Projeto Arqueologia e História Indígena no Brasil Central (Phibra), coordenado pelos arqueólogos Francisco Pugliese e Eduardo Góes Neves, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo. O projeto recebeu a autorização do Iphan para realizar pesquisas na região por, inicialmente, três anos.

Pesquisadores também encontraram, nas paredes da Gruta do Gentio II, desenhos retratatando mamiferos. Foto de R. Camargos.

A equipe é formada por pesquisadores da Universidade da Flórida, da Universidade de São Paulo, da Universidade Federal do Oeste do Pará e da Universidade de Brasília. Neste projeto, a UnB entra como instituição local parceira por meio do Núcleo de Arqueologia Indígena (NAI/Ceam) e do Laboratório de Indigenismo e Etnologia Indígena (Linde/DAN).

Sítio-escola

Segundo a UnB, entre os objetivos da iniciativa está a realização de uma pesquisa arqueológica no formato sítio-escola, empregando estudantes universitários das instituições de ensino universitário participantes do projeto. Supervisionados, os alunos realização prospecções e escavações sistemáticas em parceria com as comunidades locais, criando oportunidades de capacitação teórica e prática em Arqueologia.

Foi solicitada a prefeitura de Unai o fechamento do acesso da população à gruta. A interrupção do afluxo de pessoas ao sítio arqueológico distante apenas 36 quilômetros do centro de Unaí visa a evitar a destruição de vestígios arqueológicos como pinturas rupestres, instrumentos feitos de pedras, fragmentos cerâmicos, adornos e pedaços de utensílios. Há, também, a expectativa de que, posteriormente, antropólogos, arqueólogos e técnicos da secretaria Municipal de Cultura e Turismo discutam possíveis trajetos para desenvolver o turismo histórico na região – o que exigiria a capacitação de guias e técnicos locais, a exemplo do que já ocorre em outras regiões, como no Parque Nacional Serra da Capivara, no Piauí.