O Museu do Flamengo está fechado e o clube conta com os R$ 2,5 milhões do BRB para reabrí-lo em setembro

A paixão do governador Ibaneis Rocha é sabida. É o Flamengo, que desfruta dessa predileção. Nesse governo, o clube virou o xodó do BRB, instituição pública, cujo propósito de existência é fomentar o desenvolvimento do DF. Na área desportiva, contudo, prefere investir mais lá fora. Assinou contrato com o Flamengo, que prevê um aporte fixo de R$ 32 milhões por ano e mais R$ 2,5 milhões ao basquete do Flamengo. Se já não fossem cifras ultra expressivas, o Banco de Brasília decide agora investir mais R$ 2,5 milhões num projeto cultural rubro-negro.

Por Chico Sant’Anna

Produtores culturais do Distrito Federal indignaram-se com o Banco Regional de Brasília e o que chamam de descaso do governo Ibaneis Rocha (MDB) para com a Cultura local. Vivendo momentos difíceis, em decorrência da pandemia e da falta de recursos – ainda mais depois do veto presidencial às leis Aldir Blanc e Paulo Gustavo –, a cultura de Brasília vê agora um apoio milionário deixar a Capital, para financiar projetos no Rio de Janeiro. Trata-se do novo aporte de R$ 2,5 milhões do BRB ao Clube de Regatas do Flamengo. A verba patrocinará até 2024 o museu do Flamengo, ainda a ser reaberto. Produtores culturais da cidade lamentam que esses elevados valores não sejam aplicados por aqui mesmo.

A paixão do governador Ibaneis Rocha é sabida. É o Flamengo, que desfruta dessa predileção. Nesse governo, o clube virou o xodó do BRB, instituição pública, cujo propósito de existência é fomentar o desenvolvimento do DF. Na área desportiva, contudo, prefere investir mais lá fora. Assinou contrato com o Flamengo, que prevê um aporte fixo de R$ 32 milhões por ano e mais R$ 2,5 milhões ao basquete do Flamengo. Se já não fossem cifras ultra expressivas, o Banco de Brasília decide agora investir num projeto cultural rubro-negro. Em 2013, o time já havia obtido apoio da Adidas, de R$ 2,4 milhões, para concluir o Museu, mas a verba, segundo o portal Coluna do Fla, foi aplicada em outra área.

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Em 2021, o clube foi o que mais faturou no Brasil: R$ 1,082 bilhão, segundo levantamento do portal Sports Value. Sozinho, o time carioca faturou o equivalente a 15,7% de tudo o que os vinte clubes que mais conquistaram receita obtiveram juntos. Certamente, essa verba candanga não lhe faria falta para tirar do papel esse novo projeto, terceirizado à empresa Mude Brasil Administração de Museus Esportivos Ltda.

Foco na Capital

Ex-secretário-adjunto de Cultura do DF, o flamenguista Romário Schettino, considera um “disparate” o BRB destinar verbas para apoiar um museu do Flamengo em outro Estado. “Não tem o menor sentido. É o mesmo que querem fazer com o tal museu da Bíblia. Esse governador é um despreparado, não conhece Brasília. Enquanto isso mantém a Teatro Nacional fechado. Um horror. Gasta dinheiro do povo como se fosse dele. A cidade tem que denunciar mais esse golpe nas finanças do DF” – comenta, ele.

Com certeza, falta de boas opções de investimento para dinamizar a cultura brasiliense, não foi o motivo para expatriar o apoio cultural. O BRB poderia ter optado tanto entre iniciativas do próprio GDF, quanto outras que trariam benefícios sociais importantes. Há o icônico Teatro Nacional, cuja reforma da Sala Martins Penna parece que agora, após oito anos de espera, vai sair do papel, embora o GDF tenha perdido R$ 33 milhões, alocados pelo Fundo de Direitos Difusos do Ministério da Justiça. Tudo decorrente da morosidade administrativo governamental.

Outra opção mais nobre para os milhões do BRB? Investir na FM Cultura, do próprio GDF, seria. A única emissora cultural da cidade padece do abandono e do envelhecimento de seus equipamentos. Na era das rádios web, a rede interna de dados é instável. O travamento de um computador interrompe a transmissão via internet. A mesa de áudio, de tão antiga, não pode receber novos microfones. O risco é de que poderia colocar em pane o antigo e desgastado que mantém a rádio no ar desde a década 1980.

Rita Andrade: “se investissem essa verba no Dulcina, teríamos condições de reabrir as portas de uma faculdade de artes, que é responsável por capacitar professores, artistas, técnicos das artes no DF e Entorno”

Faculdade Dulcina

Se preferir ações fora do GDF, teria como opção resgatar a Faculdade de Artes Dulcina. Integrante do Conselho Nacional de Política Cultural e presidente do Conselho de Curadores da Fundação Brasileira de Teatro, a produtora cultural, Rita Andrade, salienta: “se investissem essa verba no Dulcina, teríamos condições de reabrir as portas de uma faculdade de artes, que é responsável por capacitar professores, artistas, técnicos das artes no DF e Entorno”.

Outra opção, citada por Rita, é a recuperação do patrimônio histórico da Vila Planalto. “Com esses mesmos milhões, devolveríamos aos moradores da Vila Planalto e de todo o DF o Conjunto Fazendinha, um dos últimos em madeira remanescente da construção de Brasília e que se encontra em estado deplorável.”

O rapper Darlan Ribeiro defende que o BRB invista no desenvolvimento da cultura da periferia e ajude a criar um centro sociocultural.

Cultura periférica

O rapper Darlan Ribeiro ressalta a carência de espaços culturais na periferia. “Na Ceilândia, precisamos de um centro sociocultural para difundir as infinitas possibilidades que o Hip Hop pode alcançar para a elevação da autoestima da população jovem excluída. Um espaço que envolva todos os elementos da cultura urbana (rap, DJ, break e grafite); um ambiente que reúna criadores de conteúdo, poetas, rappers, dançarinos, oficineiros, palestrantes, artistas plásticos, sociólogos. Juntos promoveriam ações de prevenção a todos os tipos de violência. Com esses R$ 2,5 milhões que o BRB manda pro Flamengo, seria possível dar essa força a cultura periférica de Brasília” – exemplifica.

À coluna, o BRB informou o patrocínio “está em linha com o planejamento estratégico de nacionalização e expansão do BRB” e que “a contrapartida para o Banco é a divulgação da marca em toda a comunicação do Museu, inclusive com aplicações na identidade visual do ambiente físico, reforçando a visibilidade nacional da marca”.

Não responderam se aplicado aqui, os recursos não poderiam trazer mais benefícios ao DF. Ao Flamengo, como salientou Rita Andrade, “que continue arrebatando os corações dos seus torcedores, mas que o governador não siga maltratando o povo do DF.”