Os dados mais recentes dão conta de um aumento da média móvel da ordem de 107% com cerca de 30 mil novos casos por dia nas últimas duas semanas. Segundo levantamento da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), divulgado pelo jornal O Globo, testes positivos para Covid-19 realizados em farmácias tiveram um impressionante aumento de 326% em maio em relação ao mês anterior.

Por Profa Fátima Sousa*

Nesses pouco mais de dois anos, a pandemia de Covid 19 transformou profundamente as formas cotidianas de interação social, impôs novas rotinas de autocuidado, modificaram-se as relações de trabalho, reestruturam-se as formas de convivência doméstica, com todas as suas conhecidas consequências negativas, interditou-se o compartilhamento público de arte e lazer, e causou impactos socioeconômicos desastrosos para emprego, renda e segurança alimentar.

Seria de se esperar, portanto, que no momento em que ocorresse uma redução significativa de casos e óbitos, diversos setores da sociedade e a população de uma forma geral se encontrassem com uma disposição emocional acentuada para enxergar a pandemia como coisa do passado e reestabelecer, enfim, a “normalidade” nas suas formas de viver. Caberia às autoridades, uma vez que devem representar a racionalidade própria do Estado, mediar com prudência essas expectativas, de forma coordenada com o crescimento ininterrupto de oferta e acessibilidade às vacinas, acompanhando de forma rigorosa a tendência dos dados e liberando de forma progressiva e coerente as atividades que concentram maior número de pessoas, ao tempo em que estabelecessem programas e políticas emergenciais de recuperação do emprego e garantia de segurança alimentar.

Mas o que se viu no Brasil parece distante desta perspectiva, com maior gravidade em alguns estados, incluindo o DF. O governo Ibaneis apressou-se a liberar grandes eventos artísticos e esportivos sem limite de ocupação, emitir portarias tornando opcional o uso de máscaras e a anunciar a organização de festas populares para grandes multidões.

Nesta primeira semana de junho, os principais veículos de comunicação, com base em documentos e opiniões de especialistas, anunciaram não haver mais dúvida de que estamos vivendo mais uma onda pandêmica. Os dados mais recentes dão conta de um aumento da média móvel da ordem de 107% com cerca de 30 mil novos casos por dia nas últimas duas semanas. Segundo levantamento da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), divulgado pelo jornal O Globo, testes positivos para Covid-19 realizados em farmácias tiveram um impressionante aumento de 326% em maio em relação ao mês anterior.

Esse quadro pode ser ainda mais grave, se levarmos em conta o grave problema da subnotificação, seja por falta de um monitoramento eficaz dos registros, sobretudo na medida em foram liberados os autotestes de farmácia, seja pela falta de atualização de dados por algumas secretarias estatais, seja pela própria queda das ações estatais gerais de vigilância epidemiológica, em um governo federal que não demonstra um planejamento claro de suas ações, não estimula ações coordenadas entre os gestores das diversas esferas administrativas do SUS, anulando praticamente a gestão tripartite de nosso sistema de saúde.

Ainda que os casos venham se apresentado em formas menos graves, o número de internamentos e casos graves vem aumentando de forma preocupante, sobretudo naquelas unidades da federação em que os esforços para a vacinação da população foram os menores, como é o caso do DF.

Já ficou bem estabelecido cientificamente que a variante ômicrom, é a que mais tem infectado pessoas vacinadas em todo mundo, e que ela pode ter sua transmissão melhor controlada com doses de reforço a partir do 12º ano de vida. Segundo os mais recentes dados, O DF é uma das unidades federativas com grande crescimento de casos em período curto e figura no 11º lugar em proporção populacional acima de 12 anos com dose de reforço. Considerando-se as facilidades territoriais desta que é a menor unidade federativa do país com uma renda per capita 33% acima da do Estado de São Paulo, por exemplo, trata-se de uma posição vergonhosa. Vale notar que o governo do DF que se apressou em copiar as decisões de relaxamento do governo de São Paulo, sendo que a proporção populacional com dose de reforço em São Paulo é de 74, 08% enquanto que no DF é de apenas 47,24%. O governo Ibaneis age como se esses dados não tivessem a menor importância para as suas decisões.

Especialistas de todo o mundo, por outro lado, tem consenso sobre algumas das medidas consideradas eficazes para conter essa quarta onda. Citamos aqui as mais urgentes:

1 – Reforçar a vacinação – elaboração de campanhas de vacinação veiculadas para convocação da população com vacinação incompleta, busca ativa de não vacinados e exigência de comprovante de vacinação para acessar os locais fechados;

2 – Retomar a obrigatoriedade do uso de máscaras em ambientes fechados;

3 – Organizar um acesso amplo por meio do SUS à testagem ampla e gratuita da população, com implementação de um sistema de registro rigoroso de resultados;

4 – Elaborar um sistema de rastreamento de contatos –  é por meio dessa ação que se pode interromper as cadeias de transmissão.

Durante toda essa enorme crise sanitária que estamos vivendo, ficaram evidentes os profundos laços de identidade entre o Governo Ibaneis e Governo Bolsonaro no que se refere às tendências negacionistas, à ausência de planejamento, ao desprezo pela ciência, ao desinteresse pelo bem-estar das populações que sofrem os efeitos de seus governos. É a velha forma de fazer política, onde o povo, seus sonhos, suas dores, seus potenciais, seus obstáculos não passam de matéria prima para construção de discursos eleitoreiros demagógicos, com o fito de chegar ao poder, e, estando lá governar para as elites. Se o governo do DF não age por incompetência ou falta de vontade política, não teremos certeza jamais, mas cabe a nós como sociedade cobrar fortemente os governantes e demonstrar nas urnas, nesse outubro próximo nossa indignada insatisfação.

* Professora associada do Departamento de Saúde Coletiva, da Faculdade de Ciências da Saúde, da Universidade de Brasília. Pós doutorado pelo Centre de Recherche sur la Communication et la Santé da Université du Quebéc à Montreal. Doutora honoris causa pela Universidade Federal da Paraíba http://lattes.cnpq.br/7405541534944144