Nas redes sociais, o que se pergunta é como Martinho da Vila, que tem raízes no Partido Comunista Brasileiro, vai rimar Saúde com falta de médicos e remédios, 330 mil desempregados sambando na vida, falta de livros didáticos e militarização de escolas e engarrafamentos com falta de proposta de mobilidade urbana, além é claro da insegurança pública. Foto de Renato Alves/Agência Brasília.

 

Ladeado pelo empresário, ex-vice-governador e atual presidente do PSD, Paulo Octávio, o governador Ibaneis Rocha seguiu os passos de José Roberto Arruda e vai apoiar o desfile da escola de samba Unidos da Vila Isabel. Em 2009, Arruda apoiou a Beija-Flor, com R$ 3 milhões dos cofres públicos e, segundo a imprensa da época, a iniciativa privada candanga entrou com mais R$ 500 mil. Os valores que a Vila Isabel estaria demandando agora, seriam, segundo pessoas ligadas ao carnaval de Brasília, da ordem de R$ 4 milhões. A promessa é que o samba enredo seja de autoria de Martinho da Vila.

A decisão de Ibaneis deixou o mundo da Cultura do DF em choque. Espaços culturais como o Teatro Nacional e o Museu de Arte de Brasília estão fechados há anos. Há poucos dias, um edital do Fundo de Apoio à Cultura foi revogado e o GDF decidiu repassar a verba que apoiaria iniciativas culturais em todas às cidades para a reforma da Sala Martins Pena, do Teatro Nacional. A deputada Erika Kokai (PT-DF) chegou a propor a Ibaneis manter intacto o FAC em troca de uma emenda parlamentar assegurando a mesma verba. O governador não topou a permuta. Os artistas locais temem o desemprego geral.

Paulo Octávio, que em 2009 participou dos acertos com a Beija-Flor – na condição de vice-governador – foi co-signatário de convênio com a Vila Isabel. Foto de Renato Alves/Agência Brasília.

Rimas difíceis

Nas redes sociais, o que se pergunta é como Martinho da Vila, que tem raízes no Partido Comunista Brasileiro, vai rimar Saúde com falta de médicos e remédios, 330 mil desempregados sambando na vida, falta de livros didáticos e militarização de escolas e engarrafamentos com falta de proposta de mobilidade urbana, além é claro da insegurança pública.

Oficialmente, o GDF não vai desembolsar recursos públicos para custear o desfile. A proposta é que ele ajude na captação de recursos com base nas leis de incentivo à cultura. Entretanto, para assinar o termo de cooperação com a direção da Unidos da Vila Isabel, o GDF já desembolsou R$ 22,4 mil, entre passagens e diárias aos carnavalescos, informa o jornalista Romário Schettino, no portal Brasiliários.

Outras despesas deverão aparecer, pois de acordo com o secretário Adão Cândido, a parceria com a Vila Isabel não será pontual e tem o propósito de ser estendida por todo o mandato.  Cerca de mais três anos e meio.

“A reestruturação do Carnaval das escolas de samba em Brasília é incipiente e não se promove em poucos meses”- disse ele. A proposta do GDF é incentivar a volta dos desfiles na cidade. “O que o secretário Adão, talvez desconheça, é que a ARUC já conta com parceria da Escola de Samba Portela” – registra Schettino, tradicional jornalista de Cultura da cidade.

Em 2010, por R$ 3,5 milhões, a Beija Flor trouxe pra Sapucaí os 50 anos de Brasilia. Foto de Wigder Frota

Sem Desfile

Na cidade que há cinco anos vive sem os desfiles das escolas de samba por falta de dinheiro, a notícia de apoio ao carnaval carioca caiu como uma bomba. Desafinou, atravessou a avenida. Moacyr Oliveira – o Moa -, presidente da ARUC, em nota oficial estranhou o fato da Associação das Escolas de Samba de Brasília ter sido “marginalizada desse processo, não tendo sido consultadas ou sequer informadas”.

Moa relata que em 2010, uma etapa da escolha do samba-enredo da Beija-For aconteceu em Brasília – e não como será agora, no Rio – e que sambistas da cidade puderam participar. Além disso, as escolas de samba do DF puderam acompanhar todo o processo no barracão da Beija-Flor.

Ex-secretário de Cultura do DF em 2009, o jornalista Silvestre Gorgulho informa que para o carnaval de 2010 não foi escolhida uma escola de samba aleatoriamente. “Fizemos uma carta convite para a Liga das Escolas de Samba do Rio indicar as primeiras cinco escolas do ranking que topassem fazer o desfile dos 50 anos de Brasília. Em contrapartida seriam assegurados ensaios na Escola com participação de carnavalescos e realização do concurso de samba enredo na Capital. A Beija-Flor foi a única que apresentou proposta. Disponibilizamos R$ 3 milhões para a escola vencedora.”

Gorgulho acha que Ibaneis erra na proposta. Ele sugere uma fórmula que estimule as escolas de samba do DF. “Que se lance um edital para escolher os quatro melhores enredos de escolas do DF, uma do Rio e outra de São Paulo e realiza-se um carnaval fora de época no 21 de abril, com seis escolas desfilando na Esplanada dos Ministérios. Assim, você divulga Brasília internacionalmente, já faz a festa do aniversário da cidade e apoia às escolas candangas”.

Reação carioca

No portal de um dos mais populares jornais cariocas, O Dia, a ideia de ter a Nova Capital como samba enredo da Vila Isabel não agradou muito os leitores. “não é a temática que eu esperava da minha escola”, “Bola fora infelizmente não é enredo para ser campeã e muito menos falar de Brasília com a atual situação política do Brasil”, “Cadê a Vila de Kizomba e do Arraiá? Essa não é a Vila. Vai cair assim. Horrível”. “Enredo pior não teria , péssima escolha , depois de festejar o.colonizador não podia esperar nada melhor!”, “Quero ver se vai ser mencionado as mazelas dos nossos políticos. Kkkkkkk” – foram algumas das reações nos internautas.