Poema de Luiz Martins da Silva. Foto de Chico Sant’Anna
[Aos que se compadecem]

I
Um vez, vi um cão
Sendo abandonado

Pelo seu próprio dono.

II
Certas lembranças não
Arredam o cinema
Nem com o fim do tema.

III
Eu era mínimo,
Não pude fazer nada.
Mesmo assim, covarde.

IV
Por que não gritei?
Por que não berrei?
Por que não chorei?

V
Àquele tempo,
Ser cão era ser nada.
Gente, também quase não.

VI

Até gente se matava,
Igualzinho, hoje.
Os jovens na calçada.

VII
O homem soltou o bicho,
Acelerou o jipe, e até hoje,
A língua de fora na estrada.

VIII
Desde então, um animalzinho,
Um anjo, um querubim, um cãozinho,
Dia sim, dia não, ainda implora: Piedade!