Bia Kicis (PSL), Paula Belmonte (Cidadania) e Julia Lucy (Novo), parlamentares até aqui próximas do governo de Ibaneis Rocha (MDB), foram protestar à porta da casa dele contra o Lockdown. Reprodução do Instagram.

As manifestações de domingo, 28/2, à porta da residência particular de Ibaneis, mostraram bem que as cobras que ele alimentava resolveram dar o bote. Uma multidão foi lá protestar contra o lockdown. Em destaque, as deputadas Paulo Belmonte (Cidadania), Bia Kicis (PSL) e a distrital Julia Lucy (Novo). Três parlamentares envenenadas por um discurso bolsonarista do negacionismo, de não perceber que não há, no momento, outra alternativa para evitar mais mortes na Capital Federal, do que a ordem de ficar em casa.

Diz o ditado: “quem cria cobra acaba sendo picado”. Brasília pôde comprovar de perto a sabedoria popular no caso da cobra naja, que acabou picando quem lhe alimentava. A naja foi exilada do Distrito Federal e hoje é atração no Butantã, em São Paulo. Melhor teria sido pra ciência e pesquisa candanga se por aqui tivesse ficado. Esta, contudo, é outra história. Hoje, vamos falar da aplicação do ditado popular na política, em especial na política candanga.

Desde o período pré-eleitoral de 2018, o agora governador Ibaneis Rocha (MDB) deu corda aos segmentos de direita e conservador do eleitorado brasiliense. Instigou o ódio contra os progressistas da cidade. A todos rotulava com os adjetivos mais depreciadores possíveis. Eleito, não procurou a concórdia. A exemplo do presidente da República, não desceu do palanque e manteve o discurso de acuar os políticos de esquerda, em especial aqueles que foram eleitos para a Câmara Legislativa do DF e para a Câmara Federal. Para isso, manteve ouriçados seus perdigueiros.

Como eco, seus seguidores nas redes sociais, em especial, nos grupos de whatsapp e nos blogs alimentados com propaganda do próprio GDF, potencializam toda essa estratégia. Ser filiado a um partido de esquerda, estar na direção de uma associação não fisiológica ou de sindicato combativo de trabalhadores passou a ser um dos dez pecados capitais. Purgatório é pena pequena para esses “petralhas”.

Com esse sentimento, Ibaneis conseguiu montar uma base parlamentar que julgava ser obediente a seus comandos, assim como um cãozinho amestrado. Ao preço de cargos aqui e acolá, de administrações regionais pare esse ou aquele, de liberação de emendas e projetos de interesse da bancada, Ibaneis julgava estar no comando.

Dissociada da realidade sanitária e sem qualquer comoção pela quantidade de mortes ocorridas em Brasília, uma multidão foi protestar contra o lockdown. Foto das redes sociais.

As manifestações de domingo 28 de fevereiro, à porta da residência particular de Ibaneis, mostraram que as cobras que ele alimentava em seu serpentário político não eram amestradas e resolveram dar-lhe o bote. Uma multidão foi lá protestar contra o lockdown. Em destaque, as deputadas Paulo Belmonte (Cidadania), seu marido, suplente do senador Izalci Lucas, o empresário Luis Felipe Belmonte – incubido por Jair Bolsonaro para viabilizar o partida Aliança Brasil -, Bia Kicis (PSL) e a distrital Julia Lucy (Novo). Tudo isso, num cenário em que 97,4% dos leitos de UTI na rede pública estão lotados e que há uma fila de espera para internar novos acometidos pela Covid-19.

Registre-se, ainda, que a defesa persistente teum do comércio aberto, levou a óbito o presidente da Fecomércio-DF, Chico Maia, que recém faleceu vítima do coronavirus.

Três parlamentares e um suplente envenenados por um discurso bolsonarista do negacionismo, de não perceber que não há, no momento, outra alternativa para evitar mais mortes na Capital Federal, do que a ordem de ficar em casa. Bia Kicis já havia insuflado os moradores de Manaus, no fim do ano passado, e hoje a cidade é a capital mundial da mortandade.

E Brasília ainda se vê obrigada a ocupar 20% dos seus leitos com pacientes de Goiás. O estado vizinho tem todos os seus municipíos em situação catastróficas. Dos dezoito municípios, um está em estado de alerta e os demias dezessete estão em estado de calamidade.

Titubeou

Ibaneis mais uma vez titubeou na adoção das medidas necessárias. Deveria ter tido maior rigor no Carnaval. Não o fez e, num repeteco do que seu viu em Manaus, sofre agora com UTIs superlotadas. E Brasília ainda se vê obrigada a ocupar 20% dos seus leitos com pacientes de Goiás. O estado vizinho tem todos os seus municipíos em situação catastróficas.

Sem lockdown e sem as vacinas necessárias o colapso sanitário da Capital da República será realidade. Por isso o lockdown. O problema é que suas cobras exalam a toxina do discurso que as mortes são um mal menor, que a economia é que deve ser salva, como salienta seu líder mor, no Palácio do Planalto.

Ibaneis  que no início da Pandemia, há um ano atrás, acertou em ser o primeiro a adotar as medidas de isolamento, passou a errar sucessivamente, com a flexibilização de regras que só trouxeram mais mortes às famílias brasilienses.

Errou também em desativar leitos de hospitais de campanha montados. Errou em não aproveitar a bonança da tempestade e ampliar em definitivo as estruturas de Saúde. UPAs prometidas no primeiro mês de governo ainda são aguardadas ansiosamente.

Pior, há rumores, inclusive, de que ele teria sido alertado por um comitê de especialistas sobre a nova onda da Covid e que mesmo assim ignorou.

Quem alardeia isso, é a sua companheira de campo ideológico, a deputada Bia Kicis. Em seu Instagram, ela afirma que em dezembro Ibaneis foi alertado e que mesmo assim desativou 50 leitos em Santa Maria, além do fechamento do Hospital de Campanha, do Mané Garrincha.

A Ibaneis parece faltar segurança nas informações e nas orientações sanitárias que recebe e pulso pra governar. Sua equipe é fraca. Não sabe se beija a rampa do Planalto ou se, com altivez, como fazem governadores do Nordeste, defende o bem estar de quem mora no quadradinho.

Ele mesmo veio a público várias vezes sem máscaras, deu festas em sua casa, provocou aglomerações, parecendo ser um espelho refletor das ações desnorteadas no Capitão que governa da outra ponta da Esplanada.

O Buriti parece uma casa de baratas tontas. Como bem registrou nas redes sociais o âncora da Rádio CBN, Brunno Melo, em menos de 24 horas foram adotadas três conjuntos de medidas contraditórias para supostamente conter a pandemia.

“Em menos de 24 horas, antes mesmo de entrar em vigor, passamos de “toque de recolher” para “medidas restritivas”, “lockdown noturno”, “lockdown total”, “lockdown flexibilizado” e, agora, com a liberação de mais atividades, voltamos para “medidas restritivas”. Que bagunça, GDF!” – escreveu o âncora.

Erra também em não adotar medidas econômicas que amenizem a crise econômica. Há uma semana, o Buriti alardeava um superávit de R$ 1,6 bi nas contas do GDF. Porque então não adiar o pagamento do IPVA e do IPTU? Porque alocar R$ 160 milhões para fazer a propaganda do GDF?

Depois de protestarem à frente da casa de Ibaneis, manifestantes foram no dia seguinte ao Buriti. Foto das redes sociais.

Turba

Essa turba, que à porta de Ibaneis foi se concentrar e, no dia seguinte repetiu a dose no Buriti – curiosamente sem ser admoestada pela PMDF com spray de pimenta, bombas de efeito moral, tal qual acontece com manifestações de trabalhadores -, deveria ter ido sim ao Ministério da Saúde, cobrar vacinas do General.  Deveria ter ido pedir medidas sérias e eficazes no Palácio do Alvorada, onde só se prega o uso da cloroquina, que todos já sabemos resolve tanto quanto um copo d’água.

O protesto visto no Lago Sul, onde a alta classe média não está acostumada a distúrbios dessa natureza em fins de semana, mais do que uma divergência de estratégia de ação sanitária, é uma divergência ideológica. O bolsonarismo não quer ver se alastrar pelo Brasil medidas restritivas apregoadas há um ano e que foram adotadas com sucesso  em países como a Itália e Nova Zelândia, para conter as mortes. Isso acontecendo, seria a confirmação cabal da incompetência do Governo Federal em lidar com a crise e evitar mais de 250 mil mortes.

Crise moral

A crise sanitária está contaminada por uma crise moral, inflamada pelas movimentações eleitorais. Todos esses políticos que criticam o lockdown não precisam se aglomerar na porta do Hran ou qualquer outra unidade do SUS para serem tratados. Eles usufruem condições especiais de tratamento de saúde, seja em Brasília, em São Paulo ou qualquer outro centro de excelência. E tudo pago, é claro, pelo contribuinte candango.

A exemplo de Bolsonaro, Ibaneis representa à direita, o conservadorismo social, o liberalismo econômico, o abandono da política do bem estar social. Para esse eleitorado, pouco importa se o Campo da Esperança lotar. O importante é manter em alto e bom som o tintilar das moedas do faturamento, a liberdade das baladas mortais, os negócios acima das pessoas. Se alguém morrer, foi o destino quem quis, justificam.

Esquerda

Na porta de Ibaneis, empresários travestidos de populares perguntavam em alto em bom som: “Cadê a bancada da oposição, na Câmara Legislativa?”. Seria cômico, se não fosse trágica essa ignorância política.

Ora, os partidos que estão na oposição a Ibaneis são aqueles que desejam implantar a CPI da Saúde, mas que o presidente da Casa, Rafael Prudente (MDB), não deixa. São partidos que que zelam pelo bem estar social e que trazem no seu plantel nomes que construíram a Saúde Pública do DF. Nomes como das médicas Maria José Maninha (Psol) – ex-secretária de Saúde e que criou o Saúde em Casa – e da ex-vice-governadora Arlete Sampaio (PT) – da Doutora em Saúde Pública, professora Fátima Sousa (Psol), responsável por implantar em todo o Brasil o programa Saúde da Família. São profissionais tarimbados que sabem lidar com crises sanitárias, que possuem contatos com experts dentro e fora do Brasil e que certamente teriam postura diferente da adotada até aqui pelo GDF.

Como quem está no cerrado alto, cheio de ninho de cascavéis, Ibaneis não sabe pra onde correr, onde pisar. Seu eleitorado e seus parlamentares estão com o bote armado. Prontos para picar e se voltar ao apoio de uma nova liderança de plantão. Parlamentares conservadores como ele o criticam e estão pouco se lixando para as UTIs superlotadas ou a estatística de mortes aumentar, a cada dia.

Até o já declarado candidato ao Buriti, Izalci Lucas (PSDB), no lugar de proteger o seu eleitorado, a saúde do brasiliense, engrossou o coro dos que querem ver Ibaneis se ferrar. E não adianta Ibaneis correr para o colo de Bolsonaro – com quem acalenta o sonho de fazer uma dobradinha eleitoral em 2022. Do Alvorada, nesse fim de semana, o presidente Jair Bolsonaro curtia no twitter o perrengue por qual passava Ibaneis.

Ibaneis ainda tem a chance de demonstrar competência. Para isso, vai ter que se livrar das cobras que o cercam. Não tem como exportá-las para fora do Distrito Federal, assim como fez com a naja, mas tem como isolá-las, criar um soro. Se não o fizer, a população de Brasília vai pagar com a própria vida e o destino político dele talvez venha ser com rumo de Correntina, no Piauí, para onde ele enviou 22,5 mil equipamentos de proteção Individual do acervo da secretaria de Saúde do DF.