Aparecido e Niemeyer inspecionam as obras de conclusão da Catedral. Foto do acervo pessoal de Silvestre Gorgulho

As ideias de Aparecido provocaram forças oposicionistas.  Em setembro de 1988, foi substituído por Joaquim Roriz, o que aconteceu depois no DF não carece de detalhamento.

Por Chico Sant’Anna

Já se passaram dez anos, desde o falecimento de José Aparecido de Oliveira, primeiro governador do Distrito Federal – após uma interinidade de 30 dias de Ronaldo Costa Couto – após décadas de Ditadura Militar. Nomeado em maio de 1985, Aparecido é referencial da transição entre a Brasília que se consolidava e a Brasília que já devia se preocupar em preservar seus espaços, sua proposta urbana e seu meio-ambiente.

Como poucos governantes, soube vislumbrar que se não houvesse mudança de rumos, a Capital Federal, projetada por Lúcio Costa, logo iria perder seus diferenciais e tornar-se-ia uma metrópole como qualquer outra. O momento era de abertura política e de transição de governadores biônicos para eleitos. Guy de Almeida, então chefe da casa civil – que na época tinha funções de vice-governador -, relembra que Lucio Costa, em entrevista ao Jornal do Brasil, defendia governador escolhido pelo Governo Federal. “O governador é eleito, aí é aquela enxurrada de interesseiros que, depois de eleitos, começam a facilitar a vida dos amigos”.

“Enquanto a tese da autonomia política ganhava fôlego, (Aparecido) buscava (via tombamento da Unesco) assegurar não apenas no plano nacional, mas também no mais alto nível institucional internacional, a preservação do projeto do Plano Piloto.”

Para proteger Brasília dos interesses politiqueiros, Aparecido idealizou o tombamento, relata Guy, em um dos capítulos do livro, José Aparecido de Oliveira – O Melhor Mineiro do Mundo, organizado pelo jornalista Petrônio Souza Gonçalves e com lançamento marcado para 20/3. “Enquanto a tese da autonomia política ganhava fôlego, (Aparecido) buscava (via tombamento da Unesco) assegurar não apenas no plano nacional, mas também no mais alto nível institucional internacional, a preservação do projeto do Plano Piloto, liberando-o de riscos derivados da autonomia política. Buscava principalmente a prevenção internacional contra eventuais tentativas de alterações no projeto urbano e arquitetônico original da capital.”

O tombamento é feito histórico. Nunca uma cidade fora tombada pela Unesco no mesmo século de sua criação. Assim ele agiu e conseguiu frear especulação imobiliária, afoita por cada centímetro quadrado do Plano Piloto.

Publicado originalmente na coluna Brasília, por Chico Sant’Anna, no semanário Brasília Capital.

É no governo dele que o brasiliense teria livre acesso ao Lago Paranoá. Determinou o resgate de um corredor de 13 km à beira do lago – até então privatizados por moradores das mansões -, para a primeira ciclovia da Capital. Áreas de lazer foram construídas nas imediações da Ponte do Bragueto. Foi além, decidiu enfrentar a grilagem que na ocasião já parcelava largas áreas nas proximidades do atual Jardim Botânico. Engana-se quem diz que a ocupação irregular do solo é um fenômeno pós-autonomia do DF. Foi nos governos dos generais que surgiram os primeiros condomínios irregulares. Muita gente de farda e com alta patente se beneficiou. Para a região, com apoio do Banco Mundial, Aparecido encomendou o projeto do Lago São Bartolomeu, que se não tivesse sido sabotado, hoje não teríamos crise hídrica.

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Cultura

Como bem registra Guy, o jornalista e político José Aparecido, inoculou “na biologia de Brasília o germe dourado da cultura”. Mostrou aos brasilienses que o desenvolvimento e a consolidação econômica da Capital não dependiam de “chaminés”. Como grandes capitais mundiais, tais como Paris e Washington, a Cultura, e suas consequências no turismo, educação e pesquisa, dentre outros; poderia ser o motor sustentável da economia local.

Desta forma, surgiram o Panteão da Democracia, a Casa do Cantador, o Memorial dos Povos Indígenas, a Pira do Fogo Simbólico da Pátria, o Museu da Arte Moderna, a reforma da Catedral, o Espaço Cultural Niemeyer e o Relógio do Sol, no Parque da Cidade, dentre outros. É nesse espirito que se encaixa o Memorial da Liberdade e Democracia, projetado por Oscar Niemeyer para o Eixo Monumental, mas vetado por Rodrigo Rollemberg.

Brasília Revisitada

O governador Aparecido teve a percepção de defender a preservação do Plano Piloto e ao mesmo tempo projetar o futuro urbanístico da Capital. Para tanto, convidou o pai da ideia. No Revisitando Brasília, Lúcio Costa apontou as áreas que poderiam ser alvo de expansão urbana e definiu gabaritos. Assim nasceram o Sudoeste e o Noroeste. Foram previstas áreas habitacionais às margens da EPIA, nas imediações do Paranoá e no Lago Sul. Algumas dessas áreas foram imediatamente alvos da grilagem e da ocupação desordenada e assim permanecem até hoje.

As ideias de Aparecido, relata Guy, provocaram as forças oposicionistas. Em setembro de 1988, foi substituído por Joaquim Roriz e o que aconteceu depois no DF não carece de detalhamento. As consequências são visíveis. Passados 23 anos desde que terminaram os 40 meses de José Aparecido de Oliveira à frente do GDF, os principais debates da atualidade, como a preservação do Plano Piloto, o combate à expansão urbana desordenada, a defesa da proteção ambiental e a integração do homem a sua cidade ainda são desafios não resolvidos.

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